Terceiros Partidos

Embora nenhum candidato de terceiro partido tenha ainda vencido uma eleição
presidencial nos Estados Unidos, alguns exerceram impacto significativo
sobre os resultados eleitorais. Este artigo analisa os obstáculos
enfrentados pelos terceiros partidos, e os comentários de L. Sandy
Maisel analisam o caso de um candidato de terceiro partido, Ralph
Nader. Maisel é professor de Governo da Cátedra William R. Kenan Jr.
da Faculdade Colby em Waterville, Maine.
Embora republicanos e democratas dominem o cenário político
dos Estados Unidos, os terceiros partidos têm um histórico longo e ativo
de influência sobre as eleições presidenciais no país. Na eleição de
2000, candidatos de outros 12 partidos constaram das cédulas eleitorais
de alguns ou de todos os Estados. Nas próximas eleições são novamente
12 os terceiros partidos que apresentam candidatos. Alguns, como os
partidos favoráveis às proibições (fundamentalmente à Lei Seca) e vários
grupos socialistas, conquistaram assinaturas de apoio de eleitores suficientes
apenas para constar das cédulas de alguns Estados. Outros, contudo,
participam das eleições em mais da metade dos 50 Estados: o Partido
Verde, um grupo preocupado com o meio ambiente (28 Estados); o Partido
da Constituição, um grupo fundamentalista cristão (38 Estados); e a
candidatura de Ralph Nader do Partido Independente/da Reforma, um grupo
reformista liberal (37, com qualificação para vários outros Estados
sob revisão judicial).
Contudo, é extremamente difícil para os terceiros
partidos se apresentarem como alternativa viável aos candidatos republicanos
e democratas. O processo do Colégio Eleitoral e os procedimentos para
concorrer às eleições, participar de debates e receber recursos do governo
para a campanha favorecem os partidos já estabelecidos.
Além disso, os terceiros partidos raramente
têm as grandes organizações estaduais dos partidos principais; têm menos
experiência em administrar campanhas e menos cobertura da mídia. Como
não estão no poder e são menos conhecidos, encontram mais dificuldade
para arrecadar fundos e, por serem necessárias enormes somas de dinheiro
para concorrer a eleições em âmbito federal, precisam dedicar mais tempo
buscando recursos do que expondo seus temas de campanha. Ainda assim,
alguns candidatos de terceiros partidos conseguem se eleger para cargos
locais e estaduais, e há deputados do Partido Independente no Congresso
dos EUA.
Contudo, os terceiros partidos podem influir
decisivamente. Seus candidatos podem “prejudicar” os candidatos principais
em disputas acirradas, podem tirar votos de um candidato de partido
majoritário em número suficiente para que ele perca o pleito popular
no Estado e, portanto, os votos do Colégio Eleitoral e, em conseqüência,
a Presidência. Isso aconteceu várias vezes na história dos EUA. Em 1912,
a candidatura do ex-presidente Teddy Roosevelt por um terceiro partido
dividiu o eleitorado republicano ao conquistar mais de 27% dos seus
votos, o que permitiu a eleição de Woodrow Wilson, um democrata, para
presidente. Recentemente, George Wallace, em 1958, e Ross Perot, em
1992, desviaram porcentagens significativas de votos dos dois partidos
principais na eleição geral. Muitas pessoas acreditam que a campanha
de Nader em 2000 tirou votos (2,8 milhões) do candidato democrata, Al
Gore, fazendo com que ele perdesse a eleição para George W. Bush no
Colégio Eleitoral. Por isso, sua nova candidatura nas eleições de 2004
está sendo observada de perto pelos dois maiores partidos.

A candidatura Nader Comentários de L. Sandy Maisel
| 
O candidato independente à Presidência, Ralph Nader, faz declarações
na coletiva de imprensa de 23 de fevereiro em Washington, D.C.
(Foto: AP/Ron Edmonds)
|
O contexto é tudo na política norte-americana. Os candidatos
de terceiros partidos sabem disso melhor do que ninguém e percebem que
nesta eleição o contexto tem inúmeras facetas. Vou me concentrar na
candidatura de “terceiro partido” de Ralph Nader. As aspas são usadas
para destacar que Nader não representa um determinado terceiro partido,
mas, ao contrário, seu nome consta sob diferentes legendas nas cédulas
dos Estados. Atualmente, quando os norte-americanos falam em terceiros
partidos, na verdade querem dizer “candidatos que não sejam do partido
Democrata ou Republicano”.
Ao escolher a candidatura Nader para meus
comentários, deixo de lado de forma proposital o candidato Peter Cobb,
do Partido Verde, sob cuja legenda Nader concorreu há quatro anos. Também
ignoro os outros candidatos, cujos nomes aparecem nas cédulas de um
ou mais Estados, sob várias legendas. Faço isso porque penso que o impacto
que causarão é mínimo. Embora possam levantar temas importantes, ninguém
os ouve e quase ninguém votará neles. Porém, é preciso lembrar: embora
certamente sejam irrelevantes no âmbito da eleição nacional, em qualquer
Estado em que a disputa seja acirrada, como ocorreu no Novo México e
na Flórida em 2000, se um desses candidatos conquistar 0,5% dos votos,
que de outra forma teria ido para o candidato perdedor, seria relevante.
Esse fato exemplifica a primeira faceta do
contexto de 2004. Muitos atribuem a derrota de Al Gore nas eleições
de 2000 à candidatura de Ralph Nader, porque as pessoas que votaram
em Nader, caso contrário, teriam votado em Gore em certos Estados decisivos,
onde a disputa foi acirrada. A exatidão dessa alegação é menos relevante
do que a percepção de que é verdadeira. Devido a essa percepção, os
democratas se esforçaram para manter Nader (e outros candidatos de terceiros
partidos) fora das eleições onde foi possível. Nos Estados Unidos, cada
Estado tem sua legislação específica sobre que candidatos e partidos
podem ter seu nome nas cédulas. Até agora, o nome de Nader deve constar
das cédulas de 32 Estados; em outros quatro seu nome aparece, porém
sob contestação judicial; em outros oito não faz parte delas, mas tenta
ganhar esse direito em juízo; e definitivamente estará fora em sete
Estados. Em 2000, o nome de Nader constou das cédulas de 43 Estados.
A segunda faceta está diretamente relacionada
à primeira. Mesmo nos Estados em que o nome de Nader aparece nas cédulas,
seus antigos correligionários estão vacilantes em lhe dar o voto, pois
temem o mesmo resultado de 2000, isto é, ao votar em seu favorito, contribuíram
para a vitória do candidato que mais rejeitam. E insisto, a percepção
é tudo o que importa aqui.
Não somente os resultados apertados das eleições
de 2000 estão vívidos na memória de muitos, como também inúmeros analistas
prevêem uma eleição extremamente acirrada em 2004. A faceta relevante
desse contexto para os terceiros partidos é até que ponto seu desempenho
eleitoral nos nove ou dez Estados em que os resultados permanecem indefinidos
será determinante para a vitória do presidente Bush ou do senador Kerry
à Presidência.
Os eleitores nos Estados em que a disputa
está praticamente decidida podem votar em Ralph Nader sem temor de afetar
o resultado final. Isso não acontece em outros Estados. Nader consta
das cédulas de pelo menos seis Estados decisivos, com possibilidade
de entrar em outros dois. Pesquisas de opinião nesses Estados indicam
que ele arrebanhará aproximadamente 2% dos votos. Geralmente a projeção
de votos de um candidato de terceiro partido cai à medida que se aproximam
as eleições, especialmente em eleições acirradas. Contudo, parece que
em alguns Estados—New Hamphire, por exemplo—a votação de Nader poderá
ser maior do que a margem de diferença entre os votos de Bush e Kerry.
Então, como devemos avaliar o papel desses
partidos? Os terceiros partidos estão em nítida desvantagem devido ao
sistema eleitoral dos Estados Unidos. Muitos eleitores reconhecem isso—e,
gostem ou não, o aceitam. Como resultado dessa situação, especialmente
em uma eleição tão disputada como esta, os candidatos de terceiros partidos,
mesmo os proeminentes como Nader, atraem relativamente poucos votos.
Contudo, em uma eleição extremamente acirrada, como ficou demonstrado
em 2000, mesmo essas pequenas somas de votos podem ser determinantes.
Se a margem de diferença entre os dois principais candidatos aumentar,
os candidatos de terceiro partido, como Nader, serão irrelevantes sob
o ponto de vista eleitoral, mas se essa margem se estreitar, podem realmente
definir quem será empossado como presidente em janeiro de 2005.

As opiniões expressas
neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente
a posição nem as políticas do governo dos EUA.

Candidatos à Presidência por terceiros partidos, 1832-1996
Candidatos de terceiros partidos que receberam
um porcentual do voto popular acima da média histórica de 5,6%.
| Ano |
Partido |
Candidato |
Voto popular % |
Voto no Colégio Eleitoral (em números)
|
Resultado na eleição seguinte |
| 1996
|
da
Reforma |
H.
Ross Perot |
8,4 |
0 |
Não
concorreu; apoiou o candidato republicano George W. Bush |
| 1992
|
Independente |
H.
Ross Perot |
18,9 |
0 |
Concorreu
como candidato do Partido da Reforma |
| 1980
|
Independente |
John
B. Anderson |
6,6 |
0 |
Não
concorreu |
| 1968
|
Independente
Americano |
George
C. Wallace |
13,5 |
46 |
Recebeu
1,4% do voto popular |
| 1924
|
Progressista |
Robert
M. La Follette |
16,6 |
13 |
Retornou
ao Partido Republicano |
| 1912
|
Progressista
("Bull Moose") |
Theodore
Roosevelt |
27,4 |
88 |
Retornou
ao Partido Republicano |
| 1912
|
Socialista |
Eugene
V. Debs |
6 |
0
|
Recebeu
3,2% do voto popular |
| 1892
|
Populista |
James
B. Weaver |
8,5 |
22 |
Apoiou
o candidato democrata |
| 1860
|
da
União Constitucional |
John
Bell |
12,6 |
39 |
Partido
dissolvido |
| 1860
|
Democrata
Sulista |
John
C. Breckinridge |
18,1 |
72 |
Partido
dissolvido |
| 1856
|
Whig
Americano ("Know-Nothing") |
Millard
Fillmore |
21,5 |
8 |
Partido
dissolvido |
| 1848
|
Solo
Livre |
Martin
Van Buren |
10,1 |
0 |
Recebeu
4,9% do voto popular |
| 1832
|
Antimaçônico |
William
Wirt |
7,8 |
7 |
Apoiou
o candidato do partido Whig Americano |
|
| |
|