eJournal USA: Issues of Democracy

Terceiros Partidos

Elections Guide 2004


Embora nenhum candidato de terceiro partido tenha ainda vencido uma eleição presidencial nos Estados Unidos, alguns exerceram impacto significativo sobre os resultados eleitorais. Este artigo analisa os obstáculos enfrentados pelos terceiros partidos, e os comentários de L. Sandy Maisel analisam o caso de um candidato de terceiro partido, Ralph Nader. Maisel é professor de Governo da Cátedra William R. Kenan Jr. da Faculdade Colby em Waterville, Maine.

Embora republicanos e democratas dominem o cenário político dos Estados Unidos, os terceiros partidos têm um histórico longo e ativo de influência sobre as eleições presidenciais no país. Na eleição de 2000, candidatos de outros 12 partidos constaram das cédulas eleitorais de alguns ou de todos os Estados. Nas próximas eleições são novamente 12 os terceiros partidos que apresentam candidatos. Alguns, como os partidos favoráveis às proibições (fundamentalmente à Lei Seca) e vários grupos socialistas, conquistaram assinaturas de apoio de eleitores suficientes apenas para constar das cédulas de alguns Estados. Outros, contudo, participam das eleições em mais da metade dos 50 Estados: o Partido Verde, um grupo preocupado com o meio ambiente (28 Estados); o Partido da Constituição, um grupo fundamentalista cristão (38 Estados); e a candidatura de Ralph Nader do Partido Independente/da Reforma, um grupo reformista liberal (37, com qualificação para vários outros Estados sob revisão judicial).

Contudo, é extremamente difícil para os terceiros partidos se apresentarem como alternativa viável aos candidatos republicanos e democratas. O processo do Colégio Eleitoral e os procedimentos para concorrer às eleições, participar de debates e receber recursos do governo para a campanha favorecem os partidos já estabelecidos.

Além disso, os terceiros partidos raramente têm as grandes organizações estaduais dos partidos principais; têm menos experiência em administrar campanhas e menos cobertura da mídia. Como não estão no poder e são menos conhecidos, encontram mais dificuldade para arrecadar fundos e, por serem necessárias enormes somas de dinheiro para concorrer a eleições em âmbito federal, precisam dedicar mais tempo buscando recursos do que expondo seus temas de campanha. Ainda assim, alguns candidatos de terceiros partidos conseguem se eleger para cargos locais e estaduais, e há deputados do Partido Independente no Congresso dos EUA.

Contudo, os terceiros partidos podem influir decisivamente. Seus candidatos podem “prejudicar” os candidatos principais em disputas acirradas, podem tirar votos de um candidato de partido majoritário em número suficiente para que ele perca o pleito popular no Estado e, portanto, os votos do Colégio Eleitoral e, em conseqüência, a Presidência. Isso aconteceu várias vezes na história dos EUA. Em 1912, a candidatura do ex-presidente Teddy Roosevelt por um terceiro partido dividiu o eleitorado republicano ao conquistar mais de 27% dos seus votos, o que permitiu a eleição de Woodrow Wilson, um democrata, para presidente. Recentemente, George Wallace, em 1958, e Ross Perot, em 1992, desviaram porcentagens significativas de votos dos dois partidos principais na eleição geral. Muitas pessoas acreditam que a campanha de Nader em 2000 tirou votos (2,8 milhões) do candidato democrata, Al Gore, fazendo com que ele perdesse a eleição para George W. Bush no Colégio Eleitoral. Por isso, sua nova candidatura nas eleições de 2004 está sendo observada de perto pelos dois maiores partidos.

Elections Guide 2004

A candidatura Nader
Comentários de L. Sandy Maisel

Ralph Nader
O candidato independente à Presidência, Ralph Nader, faz declarações na coletiva de imprensa de 23 de fevereiro em Washington, D.C.
(Foto: AP/Ron Edmonds)

O contexto é tudo na política norte-americana. Os candidatos de terceiros partidos sabem disso melhor do que ninguém e percebem que nesta eleição o contexto tem inúmeras facetas. Vou me concentrar na candidatura de “terceiro partido” de Ralph Nader. As aspas são usadas para destacar que Nader não representa um determinado terceiro partido, mas, ao contrário, seu nome consta sob diferentes legendas nas cédulas dos Estados. Atualmente, quando os norte-americanos falam em terceiros partidos, na verdade querem dizer “candidatos que não sejam do partido Democrata ou Republicano”.

Ao escolher a candidatura Nader para meus comentários, deixo de lado de forma proposital o candidato Peter Cobb, do Partido Verde, sob cuja legenda Nader concorreu há quatro anos. Também ignoro os outros candidatos, cujos nomes aparecem nas cédulas de um ou mais Estados, sob várias legendas. Faço isso porque penso que o impacto que causarão é mínimo. Embora possam levantar temas importantes, ninguém os ouve e quase ninguém votará neles. Porém, é preciso lembrar: embora certamente sejam irrelevantes no âmbito da eleição nacional, em qualquer Estado em que a disputa seja acirrada, como ocorreu no Novo México e na Flórida em 2000, se um desses candidatos conquistar 0,5% dos votos, que de outra forma teria ido para o candidato perdedor, seria relevante.

Esse fato exemplifica a primeira faceta do contexto de 2004. Muitos atribuem a derrota de Al Gore nas eleições de 2000 à candidatura de Ralph Nader, porque as pessoas que votaram em Nader, caso contrário, teriam votado em Gore em certos Estados decisivos, onde a disputa foi acirrada. A exatidão dessa alegação é menos relevante do que a percepção de que é verdadeira. Devido a essa percepção, os democratas se esforçaram para manter Nader (e outros candidatos de terceiros partidos) fora das eleições onde foi possível. Nos Estados Unidos, cada Estado tem sua legislação específica sobre que candidatos e partidos podem ter seu nome nas cédulas. Até agora, o nome de Nader deve constar das cédulas de 32 Estados; em outros quatro seu nome aparece, porém sob contestação judicial; em outros oito não faz parte delas, mas tenta ganhar esse direito em juízo; e definitivamente estará fora em sete Estados. Em 2000, o nome de Nader constou das cédulas de 43 Estados.

A segunda faceta está diretamente relacionada à primeira. Mesmo nos Estados em que o nome de Nader aparece nas cédulas, seus antigos correligionários estão vacilantes em lhe dar o voto, pois temem o mesmo resultado de 2000, isto é, ao votar em seu favorito, contribuíram para a vitória do candidato que mais rejeitam. E insisto, a percepção é tudo o que importa aqui.

Não somente os resultados apertados das eleições de 2000 estão vívidos na memória de muitos, como também inúmeros analistas prevêem uma eleição extremamente acirrada em 2004. A faceta relevante desse contexto para os terceiros partidos é até que ponto seu desempenho eleitoral nos nove ou dez Estados em que os resultados permanecem indefinidos será determinante para a vitória do presidente Bush ou do senador Kerry à Presidência.

Os eleitores nos Estados em que a disputa está praticamente decidida podem votar em Ralph Nader sem temor de afetar o resultado final. Isso não acontece em outros Estados. Nader consta das cédulas de pelo menos seis Estados decisivos, com possibilidade de entrar em outros dois. Pesquisas de opinião nesses Estados indicam que ele arrebanhará aproximadamente 2% dos votos. Geralmente a projeção de votos de um candidato de terceiro partido cai à medida que se aproximam as eleições, especialmente em eleições acirradas. Contudo, parece que em alguns Estados—New Hamphire, por exemplo—a votação de Nader poderá ser maior do que a margem de diferença entre os votos de Bush e Kerry.

Então, como devemos avaliar o papel desses partidos? Os terceiros partidos estão em nítida desvantagem devido ao sistema eleitoral dos Estados Unidos. Muitos eleitores reconhecem isso—e, gostem ou não, o aceitam. Como resultado dessa situação, especialmente em uma eleição tão disputada como esta, os candidatos de terceiros partidos, mesmo os proeminentes como Nader, atraem relativamente poucos votos. Contudo, em uma eleição extremamente acirrada, como ficou demonstrado em 2000, mesmo essas pequenas somas de votos podem ser determinantes. Se a margem de diferença entre os dois principais candidatos aumentar, os candidatos de terceiro partido, como Nader, serão irrelevantes sob o ponto de vista eleitoral, mas se essa margem se estreitar, podem realmente definir quem será empossado como presidente em janeiro de 2005.

Elections Guide 2004

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.

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Candidatos à Presidência por terceiros partidos, 1832-1996

Candidatos de terceiros partidos que receberam um porcentual do voto popular acima da média histórica de 5,6%.

Ano

Partido

Candidato

Voto popular %

Voto no Colégio Eleitoral (em números)

Resultado na eleição seguinte

1996

da Reforma

H. Ross Perot

8,4

0

Não concorreu; apoiou o candidato republicano George W. Bush

1992

Independente

H. Ross Perot

18,9

0

Concorreu como candidato do Partido da Reforma

1980

Independente

John B. Anderson

6,6

0

Não concorreu

1968

Independente Americano

George C. Wallace

13,5

46

Recebeu 1,4% do voto popular

1924

Progressista

Robert M. La Follette

16,6

13

Retornou ao Partido Republicano

1912

Progressista ("Bull Moose")

Theodore Roosevelt

27,4

88

Retornou ao Partido Republicano

1912

Socialista

Eugene V. Debs

6

0

Recebeu 3,2% do voto popular

1892

Populista

James B. Weaver

8,5

22

Apoiou o candidato democrata

1860

da União Constitucional

John Bell

12,6

39

Partido dissolvido

1860

Democrata Sulista

John C. Breckinridge

18,1

72

Partido dissolvido

1856

Whig Americano ("Know-Nothing")

Millard Fillmore

21,5

8

Partido dissolvido

1848

Solo Livre

Martin Van Buren

10,1

0

Recebeu 4,9% do voto popular

1832

Antimaçônico

William Wirt

7,8

7

Apoiou o candidato do partido Whig Americano


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