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Como a Internet Está Modificando a Arena PolíticaAndy Carvin
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As eleições gerais americanas de 2008 serão sem dúvida um divisor de águas na história dos EUA, mas não necessariamente por causa de algum candidate ou alguma política em particular. Como foi o caso em ciclos eleitorais recentes, a internet tornou-se uma ferramenta política potente para propósitos de campanha, arrecadação de fundos e engajamento cívico. Porém, o que torna este ciclo eleitoral tão interessante é o fato de muitas das inovações que estão ocorrendo não partirem de campanhas ou de políticos, mas do público americano. O acesso à internet é sem dúvida um fenômeno novo nos Estados Unidos. Com início em meados dos anos 1990, milhões de americanos adquiriram acesso à internet e habilidades tecnológicas, tanto em casa como no trabalho ou na escola. De acordo com um relatório da Pew Internet and American Life Project de junho de 2007, 71% de todos os americanos adultos tinham acesso à internet em casa e quase 50% deles tinham acesso rápido de banda larga. Da mesma forma, a grande maioria das escolas públicas e bibliotecas dos EUA está on-line. Ainda existem lacunas em termos de acesso e habilidades entre populações privadas de direitos civis ou privilégios, especialmente no que se refere a níveis de educação e de renda, bem como entre idosos, pessoas portadoras de deficiência e minorias étnicas. Mas a tendência geral na última década foi de aumento significativo da penetração da internet. Quando o público americano começou a usar a internet, grande parte do conteúdo disponível on-line havia sido produzida por profissionais ou pessoas com conhecimentos tecnológicos especializados. A publicação on-line tinha como pré-requisito habilidades tecnológicas, bem como a capacidade de produzir grandes quantidades de conteúdo de boa qualidade. Em particular, o áudio e o vídeo on-line eram geralmente considerados reino dos maiores veículos de comunicação. Entretanto, isso não significava que a internet fosse destituída de conteúdo produzido pelo público. Com início no final dos anos 1990, um número sempre crescente de pessoas começou a publicar suas próprias páginas pessoais, ou “Web logs”, sobre suas ações. Algumas eram bem interessantes; muitas outras não. Mas a idéia dos Web logs, ou blogues, não saiu da cabeça de alguns desenvolvedores Web, e eles começaram a projetar ferramentas para facilitar a todos a publicação de textos on-line. Esse fenômeno desenvolveu rapidamente sua própria terminologia, em que “Web 2.0” e “mídia social” tornaram-se algumas das formas mais comuns de descrever essa tendência.
Comunidades virtuais Um número crescente de usuários de internet começou a participar também de comunidades on-line. Essas comunidades não eram de forma alguma um fenômeno novo — grupos de e-mails e comunidades de sistemas de quadro de avisos (BBS) existiam desde os anos 1970 — mas, à medida que o uso da internet foi tendo maior penetração, os tipos de grupos formados on-line também foram aumentando. Em vez de serem dominadas por grupos voltados para a tecnologia, as pessoas começaram a formar comunidades geográficas, tais como as de cidades ou bairros, bem como comunidades de interesse, como as de passatempos ou associações profissionais. No começo dos anos 2000, a geração de blogues em particular havia se desenvolvido muito, com milhares de pessoas criando seus próprios blogues. Em questão de anos, esses milhares se tornaram milhões. Não demorou muito para que algumas pessoas publicassem diários sobre questões políticas. Em pouco tempo, os blogueiros estavam reunindo pessoas em torno de candidatos ou de causas políticas de interesse comum. Começaram a usar as comunidades on-line como ferramenta para coordenar a interação entre eles. Um dos primeiros exemplos conhecidos dessas comunidades de base on-line — ou “netroots” como são também conhecidas — é a campanha presidencial de Howard Dean de 2004. Antes considerado pela mídia e pelos analistas de pesquisa de opinião um candidato de terceira linha, Dean conseguiu enorme apoio on-line por meio do uso de blogues, e-mails em massa e discussões em comunidades on-line. Logo, Dean estava recebendo apoio político, inclusive contribuições de campanha, de milhares de pessoas em todo o país. À medida que o seu perfil on-line crescia e ao constatar seu sucesso no levantamento de fundos e a popularidade entre as netroots, os principais meios de comunicação começaram a dedicar-lhe mais espaço também. Quase do nada, ele tornou-se uma força política considerável. Embora no final tenha perdido a indicação pelo Partido Democrata, suas técnicas bem-sucedidas de organização on-line ajudaram a desenvolver uma infra-estrutura de ativistas liberais on-line preparados para mobilização em torno de outras causas. Outras netroots precederam a campanha de Dean e continuam até hoje. Por exemplo, os fundadores de uma empresa de software na área de São Francisco começaram a enviar e-mails para amigos e colegas em 1997, pedindo-lhes que insistissem com seus representantes eleitos para que encerrassem o processo de impeachment contra o então presidente Bill Clinton e passassem para outras questões políticas. A campanha por e-mail teve tão boa repercussão que seus amigos e colegas começaram a reenviar as mensagens para outras pessoas. Com o passar do tempo, a pequena campanha transformou-se na atual organização de políticas públicas voltada para causas progressistas, em particular o fim da guerra no Iraque. A MoveOn.org é agora uma das mais poderosas comissões de ação política dos Estados Unidos, com milhões de usuários da internet participando de suas campanhas políticas por e-mail.
UGC e redes sociais Nas eleições parlamentares de 2006, duas novas tendências de internet representavam exemplos do que estaria por vir no ciclo de 2008. Primeiro, testemunhamos uma explosão daquilo que é com freqüência descrito como “conteúdo gerado pelo usuário”, ou UGC. O UGC é basicamente qualquer tipo de material on-line produzido por amadores, inclusive texto, fotos, áudio e vídeo. Um exemplo internacionalmente conhecido de UGC é a seqüência da execução de Saddam Hussein, captada por um telefone celular. Enquanto o governo do Iraque divulgava um vídeo oficial documentando os preparativos para a execução, o conteúdo gerado pelo usuário, captado por um observador na hora da execução, provocava manchetes no mundo todo. Não há falta de conteúdo gerado pelo usuário na internet graças aos sites especializados em compartilhamento de mídia, como o YouTube (para vídeo) e o Flickr (para fotografia). Segundo pesquisa publicada em 2006 pelo Pew Internet and American Life Project, aproximadamente 40 milhões de americanos publicaram alguma forma de UGC on-line, enquanto um entre sete usuários de internet mantinha um blogue. Durante o ciclo eleitoral de 2006, nenhum incidente mostrou mais o poder do UGC do que o assim chamado episódio macaca. Enquanto fazia campanha para reeleição, o senador da Virgínia George Allen foi seguido regularmente por um jovem chamado S.R. Sidarth, que trabalhava na campanha de seu adversário, Jim Webb. O papel de Sidarth era gravar as aparições públicas de Allen em vídeo e capturar tudo o que ele dizia publicamente, caso isso pudesse ser usado pela campanha de Webb. Em um comício em agosto daquele ano, Allen reconheceu publicamente a presença de Sidarth perante os participantes, referindo-se a ele em duas ocasiões como “Macaca”. Sidarth, que tem descendência indiana, publicou o videoclipe dos comentários de Allen no YouTube e em outros sites da Web, onde foi logo visto por centenas de milhares de usuários de internet. Logo o vídeo tornou-se um grande problema de campanha, e Allen teve de defender-se de acusações de que a palavra “macaca”, que é um gênero de primata, teria sido usada de forma racialmente depreciativa. Allen desculpou-se e insistiu que a palavra não tinha significado pejorativo para ele. Mais tarde naquele mês de novembro, Allen perdeu as eleições por uma pequena margem de votos, e muitos comentaristas especularam que o conteúdo gerado pelo usuário, captado por Sidarth, havia contribuído para a derrota de Allen para Jim Webb. O conteúdo gerado pelo usuário provavelmente não teria se tornado uma força maior em política on-line se não fosse por uma segunda tendência importante: o aumento das redes sociais on-line. Comunidades on-line existem desde os primórdios da internet. Mas nos últimos anos, o número e o tamanho dessas comunidades cresceram significativamente com o desenvolvimento da tecnologia, que facilitou a transferência de conteúdos e a interação entre os usuários. Sites como MySpace e Facebook ampliaram-se de comunidades usadas por nichos de adolescentes e estudantes universitários para potências on-line, compostas por dezenas de milhões de membros. Segundo relatório da Ipsos Inc. de julho de 2007, 24% dos usuários de internet participaram de redes sociais no mês anterior, enquanto um terço deles fez download de vídeos. Durante a campanha de 2006, os candidatos tiraram vantagem dessas tendências ao criar perfis pessoais on-line nos principais sites de relacionamento, enquanto alguns publicaram anúncios de campanha, bem como outros materiais multimídia.
Inovações on-line para 2008 O ciclo eleitoral de 2006 foi apenas uma amostra do que poderá ser o de 2008. Desde a campanha para eleição presidencial anterior, os pré-candidatos começaram a fazer as redes sociais avançarem um passo com a criação de redes de relacionamento dedicadas especificamente às suas campanhas. Os candidatos democratas Barack Obama e John Edwards em particular destacaram-se por suas grandes redes sociais, usando essas ferramentas para reunir simpatizantes e, naturalmente, atrair contribuições para seus cofres de campanha. Candidatos dos dois maiores partidos políticos adotaram o vídeo on-line como uma forma natural de interação com suas bases, alguns deles até anunciando sua candidatura por transmissão em vídeo. Da mesma forma que os candidatos começaram a criar suas redes de relacionamento, estamos vendo agora uma tendência totalmente nova, na qual membros do público também criam suas próprias redes, reunindo pessoas que compartilham as mesmas orientações políticas. Não se ouvia falar em redes de relacionamento criadas pelo usuário até o final de 2006, mas, desde então, em um curto espaço de tempo, ferramentas on-line como a Ning.com possibilitaram a qualquer pessoa a criação de uma rede de relacionamento voltada para um determinado nicho. Atualmente, as pessoas, bem como novas campanhas com finanças limitadas, podem usar essas ferramentas para construir uma netroot. Recentemente houve também o desenvolvimento de redes sociais com o fim especifico de captar recursos. Um desses sites mais interessantes é o Change.org. Criada originalmente para permitir que pessoas se juntassem em torno de causas beneficentes, a rede social redesenhou sua estrutura para permitir a reunião de pessoas em apoio a causas políticas ou candidatos. Por exemplo, um grupo de ativistas pelo direito ao porte de armas poderia usar esse site para formar um comitê informal de ação política e levantar fundos em apoio a candidatos que concordem com suas posições políticas. Se esse candidato ainda não tiver sido selecionado, o Change.org manterá os recursos em conta bloqueada até sua nomeação pelo partido político pertinente. E quando um candidato recebe oficialmente o dinheiro desses ativistas on-line, seu oponente recebe uma carta comunicando que o outro candidato está de posse do dinheiro do Change.org, informando-o de que os cidadãos estão captando fundos para serem usados contra ele devido à sua posição relativa à questão. Em resumo, embora a Campanha de 2008 ainda não tenha deslanchado, uma coisa é certa. A internet mudou para sempre a forma de interação entre os candidatos e o eleitorado dos EUA. Outros candidatos, além dos favoritos, poderão ser bem-sucedidos no levantamento de fundos, e os candidatos não terão mais controle total sobre as mensagens. O público adotou as ferramentas da Web 2.0 para fazer com que suas vozes sejam ouvidas; agora, resta saber se os candidatos irão ouvi-las.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | ||||||