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Um Novo ComeçoEntrevista com Charlie Cook e Jerry Hagstrom
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Pergunta: Você pode nos dizer por que o público americano e internacional já está dando tanta atenção à disputa presidencial de 2008 e por que essa disputa parece ser diferente das eleições americanas anteriores? Cook: É realmente a primeira eleição em 80 anos que não temos o presidente ou vice-presidente em exercício concorrendo à reeleição. Ter uma disputa aberta para ambos os partidos é realmente extraordinário.
Temos normalmente, de um lado, um presidente ou vice-presidente, que em geral ganha facilmente (a indicação de seu partido), ou talvez, apenas duas pessoas disputando e então, do outro lado, um conjunto enorme de candidatos. Desta vez, há um grupo enorme nos dois lados. É realmente um ciclo eleitoral surpreendente. Nunca vimos nada semelhante. Hagstrom: Acredito que seja uma disputa divertida para se observar e também significativa para as pessoas de outros países. E é importante começar a observá-la o quanto antes, porque não está claro quem serão os candidatos e, naturalmente, quem ganhará a eleição no final. P: Os candidatos começaram a arrecadar fundos mais cedo do que nas eleições passadas. Uma explicação parcial para isso seria o fato de que não há titulares na disputa. Mais alguma razão? Cook: Está muito mais difícil aproximar-se dos eleitores do que anteriormente. Há 20 ou 30 anos, havia três redes de televisão, e com elas era possível alcançar praticamente todo mundo. Agora, com a televisão a cabo e satélite e centenas e centenas de canais, e com várias outras distrações, é mais difícil entrar em contato com os eleitores, é difícil fazer a mensagem chegar até eles. Hagstrom: Há muitos anos, costumava-se fazer campanhas em grandes eventos ou em grandes fábricas e o comparecimento às urnas era grande. Atualmente, é impossível conseguir isso. É preciso entender que hoje os americanos trabalham em escritórios. E, na verdade, não comparecem a esses grandes eventos. Então, para aproximar-se das pessoas por meio da televisão e do rádio, é preciso dinheiro para comprar espaço publicitário.
Cook: Nos Estados Unidos, as pessoas realmente votam no candidato — na pessoa — e não no partido. Isso exige gastos mais altos do que se vê em um governo parlamentar. Hagstrom: Porque usamos um sistema de primárias para selecionar nossos candidatos, isso significa que um candidato pode, na verdade, surgir do nada. Ele ou ela não tem que ter uma longa história dentro do partido para obter sua indicação. Mas é preciso dinheiro, pessoas e tempo para convencer os membros do partido antes da realização das primárias. P: Os candidatos deste ano parecem representar uma das maiores diversidades da história americana. Você sabe por que isso está acontecendo nesta temporada e isso abre algum tipo de precedente para as eleições futuras? Hagstrom: Bem, acho que uma das razões é porque a sociedade evoluiu e está mais diversificada e mais tolerante com a diversidade. Há 20 ou 30 anos, teria sido difícil para eles [candidatos] serem levados a sério. Cook: Uma pesquisa do Instituto Gallup no começo deste ano indicou que 94% dos americanos votariam em um candidato afro-americano qualificado. 88% votariam em uma mulher qualificada. Essas estatísticas não seriam possíveis há 8, 12, 16 ou 20 anos. Nosso país é mais diversificado atualmente do que costumava ser. Aceita mais a diversidade hoje do que no passado. Sim, já tivemos mulheres disputando. Tivemos afro-americanos concorrendo para presidente, mas eles nunca tiveram uma chance de verdade. Desta vez eles estão concorrendo e a chance de vencer é real, isso diz alguma coisa sobre como os Estados Unidos mudaram. P: Muitas pessoas nos Estados Unidos esperam que o Iraque domine as campanhas. Que outros temas serão discutidos? Cook: Acho que o Iraque vai ser um fator importante, mas não tenho certeza — nós não sabemos como estará essa situação no outono de 2008. A situação econômica poderá ser uma questão importante. O problema do meio ambiente e do aquecimento global por fim amadureceu. É finalmente a questão que algumas pessoas — há 20, 30 anos — vêm tentando salientar. Mas em última análise, a maioria dos eleitores procura avaliar pessoas, não questões. Hagstrom: No final, o que realmente importa em uma corrida presidencial é o caráter. É uma questão de saber em quem confiar. P: Muitos estados anteciparam o calendário de suas eleições primárias. Parece que em grande número deles será no dia 5 de fevereiro. Qual será o impacto disso sobre a temporada de campanha? Cook: Bem, é irônico que muitos estados tenham antecipado suas primárias para 5 de fevereiro para poder ter um papel no processo. O que aconteceu é que tantos agiram dessa maneira que a maioria dos estados e das pessoas não vai ter voz ativa no final. Quando há 21, 22 ou 23 estados de um total de 50, inclusive alguns dos maiores do país, todos com votações no mesmo dia, é meio difícil para os estados individualmente conseguir a devida atenção. Meu palpite é que saberemos quem são os candidatos, se não após 5 de fevereiro, então talvez mais ou menos uma semana após as primárias. Em seguida, a campanha entrará numa fase morna por algum tempo. E as pessoas se concentrarão em outras coisas por dois ou três meses e então a campanha recomeçará e ganhará força até a eleição de novembro. Hagstrom: Até agora, parece que as prévias de Iowa e a primária de New Hampshire, a serem realizadas antes de 5 de fevereiro, serão importantes para indicar a preferência dos americanos. P: O que os eleitores indecisos procuram e será que temos alguma idéia do que desejam nesta temporada? Cook: Eles procuram caráter, ou algo que os conforte. É como decidir quem se quer convidar para a sala de estar e para aparecer na tela de TV nos próximos quatro anos. Os eleitores entendem que nem sempre têm consciência das várias questões que os presidentes têm de enfrentar. Querem alguém com quem se sintam confortáveis, que tome decisões sobre coisas que eles nem sabem direito se existem. Hagstrom: Acho que, quanto a esses eleitores, uma questão importante será o andamento da guerra do Iraque quando entramos na temporada de campanha. Poderá ser o assunto dominante ou talvez algum outro tema tome seu lugar. P: Como a disputa de 2008 vai afetar a política externa dos EUA? Hagstrom: Os candidatos democratas têm dito que farão mudanças na política do Iraque, ao passo que os candidatos republicanos nesse ponto divergem sobre se seguirão o caminho traçado pelo presidente Bush e sobre que mudanças fariam. Cook: Acho que o presidente dos Estados Unidos representa a cara do país para o resto do mundo. É uma oportunidade para começar de novo. P: Poderia se falar de um maior comparecimento às urnas? Cook: Nós realmente temos visto um aumento do comparecimento às urnas nos últimos seis ou oito anos por algumas razões. Costumávamos ouvir as pessoas dizer, "Não importa quem ganha". Bem, não se ouve mais isso; acho que as pessoas entendem que quer seja pelo terrorismo, guerra, pobreza ou o furacão Katrina, agora importa quem é o presidente dos Estados Unidos. Algumas das comparações feitas sobre o comparecimento às urnas dos eleitores não são, na verdade, comparações justas. Quem observa os Estados Unidos pensa em eleições municipais, de condado, estaduais, federais, primárias e gerais e, em alguns casos, segundos turnos e eleições especiais. Simplesmente, os americanos são convidados a comparecer às urnas com maior freqüência do que as pessoas de outros países. Acho que há mais de 600 mil cargos eletivos nos Estados Unidos. Não é realmente uma comparação justa, porque os americanos realmente votam mais do que qualquer outro povo no mundo. O que acontece é que se vota em diferentes eleições. Hagstrom: As pessoas realmente percebem a importância de ganhar a eleição, e eu penso que os eleitores poderão estar altamente motivados a votar, mas isso pode também depender de quem são os candidatos e se a base de cada partido realmente se importa em eleger a pessoa que foi indicada. P: Vimos que a tecnologia desempenha um papel cada vez maior na forma de analisar os candidatos, em especial informalmente na internet. Em sua opinião, isso afeta a maneira de fazer campanha dos candidatos? Cook: Acho que se os orçamentos das campanhas forem observados como um todo, será encontrada uma porcentagem maior, mas a porcentagem dos orçamentos das campanhas [de candidatos] dedicada a novas tecnologias ainda é muito, muito pequena. Hagstrom: A internet é muito boa para organizar os simpatizantes, é muito boa para arrecadar fundos, mas não é boa arma de persuasão. A exceção a isso tem sido o desenvolvimento do YouTube, uma mídia visual que está na internet. Toda campanha agora tem alguém jovem com uma câmara seguindo o candidato da oposição. Voltamos à questão do caráter. [Os americanos] querem ver como é essa pessoa quando estiver desprevenida. E algumas dessas situações ocorrem quando o candidato está falando para uma platéia simpática. Assim, esse avanço em poder filmar todos os candidatos o tempo todo e colocar qualquer erro no YouTube é, de certo modo, muito revelador. Não acredito que os eleitores venham a pensar que esse é o único aspecto de tal candidato, mesmo que isso tenha se tornado uma parte importante dessas campanhas. P: Nas eleições americanas, o resultado da disputa presidencial se reduz a alguns estados decisivos, e nós geralmente vemos os mesmos estados sendo mais uma vez visados porque podem votar tanto para os Democratas quanto para os Republicanos. Devemos entender que desta vez vai ser o mesmo grupo de estados influentes, ou há algum novo? Cook: Em grande parte são os mesmos estados. Basta observar a disputa de 2000 entre George W. Bush e Al Gore e a de 2004 entre George W. Bush e John Kerry para ver que há somente três estados em todo o país que tiveram desempenho diferente de uma eleição para outra. Gore conseguiu ganhar no Novo México e em Iowa, mas perdeu em New Hampshire, e Kerry ganhou em New Hampshire e perdeu no Novo México e em Iowa. Acho que, em grande parte, vão ser os mesmos estados, mas estamos vendo uma pequena ascensão dos democratas em alguns estados do sudoeste. No caso de New Hampshire, que costumava ser um estado republicano muito conservador, vemos que se tornou mais aberto e mais democrata. Mas, ao mesmo tempo, percebe-se que alguns outros estados estão ficando menos democratas e mais republicanos. Por exemplo, Louisiana. Na Virgínia Ocidental, observamos que os padrões de votação mudaram; ficou mais difícil para os democratas vencer em um estado que costumava apoiá-los. Hagstrom: O que espero nestas eleições é uma grande disputa pelo eleitor rural. A área rural dos Estados Unidos é geralmente considerada como território republicano, mas nem sempre é assim, e os democratas se saíram muito bem nas disputas para o Congresso em 2006. P: Os estados estão gastando muito tempo e dinheiro desde 2000 analisando a melhor forma de conduzir as eleições. Acha que isso vai afetar o comparecimento eleitoral? Cook: O comparecimento às urnas em 2004 foi maior do que em 2000. Nas últimas duas eleições de meio de mandato, o comparecimento cresceu. Como nação, não gastamos muito no processo de administração das eleições e dos eleitores e, como resultado, temos um sistema com muitas falhas. Não é fraude, ao contrário do que muitos acreditam. Se os americanos quisessem gastar mais na apuração dos votos e administração das eleições, podíamos ter realmente um bom sistema, mas você quer fazer isso à custa, digamos, da educação? Assistência médica? Nossas responsabilidades em todo o mundo em termos de ajuda externa? No grande esquema das coisas, ter uma apuração eleitoral exata, precisa, quando a grande maioria dessas eleições ainda está distante — isso nunca foi realmente uma alta prioridade para as pessoas alocarem seu dinheiro. Hagstrom: Uma das razões por que há tantas histórias sobre essas variações nas eleições é que nossas eleições são administradas pelos governos estaduais. O governo federal só se envolve quando há um problema sério. Portanto, há realmente muitas variações de estado para estado e de condado para condado. Outro fator é essa nossa tradição de não permitir o voto afro-americano nos estados sulistas. E ninguém quer voltar a um sistema que restringe o direito ao voto. Não se deseja criar um sistema tão rígido a ponto de impedir alguém de votar. E essa é uma questão muito importante em um país tão diversificado como os Estados Unidos. As opiniões expressas nesta entrevista não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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