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Em 1977, após as investigações
governamentais terem revelado que mais de 400 empresas americanas admitiram fazer
pagamentos ilegais ou questionáveis da ordem de US$300 milhões ou mais a
autoridades governamentais estrangeiras, políticos e partidos políticos, o
Congresso dos EUA promulgou a Lei sobre a Prática de Corrupção no Exterior (FCPA)
para dar fim ao suborno de funcionários públicos estrangeiros e restaurar a
confiança pública na integridade do sistema empresarial americano. Atualmente
as empresas americanas com intenção de fazer negócios em todo o mundo devem
estar familiarizadas com a FCPA.
Em geral, a FCPA proíbe
pagamentos a funcionários públicos estrangeiros com o intuito de obter ou
manter negócios. A FCPA teve enorme impacto no modo como as empresas americanas
fazem negócios. Diversas empresas que pagavam suborno a funcionários
estrangeiros estiveram sujeitas a ações de repressão legal criminal e civil,
resultando em multas elevadas, suspensão e exclusão de contratos de compras
federais, assim como a prisão de seus funcionários e diretores. A fim de evitar
tais conseqüências, várias empresas implementaram programas de fiscalização detalhados
para evitar e detectar quaisquer pagamentos indevidos realizados por seus funcionários
e agentes.
O autor Philip
Urofsky é assessor jurídico especial do Grupo de Litígios Complexos e Fraude
Empresarial do escritório de advocacia Cadwalader Wickersham & Taft LLP em Washington, D.C. Anteriormente, foi promotor na Seção de Fraudes do Departamento de Justiça
dos EUA, onde foi responsável pela supervisão e realização de investigações e
ações penais relativas à violação da Lei sobre a Prática de Corrupção no Exterior.
Toda ação de uma empresa, seja no
exterior ou nos Estados Unidos, é necessariamente empreendida por um de seus
diretores, funcionários ou agentes. De acordo com as leis de certos países, as
corporações podem ser responsabilizadas pelos atos indevidos de tais
indivíduos. As corporações são geralmente compostas por milhares de diretores,
funcionários e agentes, em geral distribuídos em uma grande área geográfica. Se
um funcionário de uma corporação envolve-se em atividade corrupta, toda a
corporação pode ser responsabilizada pelo ato dessa pessoa, independentemente
de sua posição ou cargo na empresa.
Programas de fiscalização
Para resolver essas
questões, muitas corporações nos Estados Unidos criaram programas de
fiscalização abrangentes e detalhados a fim de garantir que os diretores,
funcionários ou agentes da empresa entendam como aplicar a Lei sobre a Prática
de Corrupção no Exterior (FCPA) e outras regras pertinentes em suas atividades empresariais
do dia-a-dia. Embora os programas de fiscalização tenham sido originalmente planejados
para evitar problemas legais para a empresa, o governo dos EUA reconheceu o seu
valor como uma forma de "aplicação branda da lei" e incentivou o seu
desenvolvimento.
Um programa de
fiscalização precisa tratar dos riscos específicos que uma corporação enfrenta.
Um desses riscos, tanto nos Estados Unidos quanto no exterior, é a
possibilidade de um dirigente, funcionário ou agente oferecer ou receber
pedidos para dar propina a uma autoridade governamental com o propósito de obter
alguma vantagem ou evitar que algo negativo aconteça à corporação. Para
corporações americanas que realizam operações internacionais, essa situação é
geralmente conhecida como risco da Lei FCPA, isto é, o risco provável de a empresa
ser processada pelo governo dos EUA segundo a Lei sobre a Prática de Corrupção
no Exterior, assim como por governos estrangeiros segundo as leis anti-suborno.
Melhores práticas
Ao desenvolver um
programa de fiscalização, não há uma única série de atitudes que garanta que a
empresa ficará livre do risco da lei FCPA. Na verdade, sob muitos aspectos, a melhor
das melhores práticas é planejar um programa que trate dos riscos específicos
enfrentados por uma determinada organização empresarial. Há, contudo,
procedimentos, controles e outras técnicas empresariais que comprovadamente podem
ajudar uma empresa a desenvolver seu próprio programa de fiscalização
personalizado.
A segunda melhor prática é
alinhar o programa de fiscalização com o tipo de negócio que a empresa faz no
exterior e com o modo como ela faz negócios. Por exemplo, empresas cujos
principais clientes são governos, como a indústria de defesa, ou cujos produtos
são fortemente regulamentados, tais como companhias de seguro ou bancos,
obviamente têm considerável interação com autoridades governamentais e podem direcionar
seus esforços de fiscalização dando ênfase a essas interações e aos
funcionários envolvidos. Por outro lado, empresas como as farmacêuticas, que
vendem para uma gama mais ampla de clientes, alguns dos quais podem ser
governos ou funcionários governamentais, devem implementar um programa de
fiscalização direcionado a toda a sua força de vendas.
A
administração deve enfatizar que o uso de métodos indevidos para atingir
sucesso no curto prazo, como ganhar um contrato lucrativo específico, pode
levar ao fracasso no longo prazo se a empresa perder sua reputação de
honestidade e integridade.
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A terceira melhor prática
é o necessário estímulo ao programa de fiscalização por parte da alta
administração, prática conhecida como “harmonia na cúpula”, que confere ao
programa o tom verossímil de como a empresa faz negócios. A mensagem a ser transmitida
a todos os diretores, funcionários e agentes da empresa é a de que o programa
de fiscalização não é uma forma de procedimento excessivamente burocrática, que
desvia e obstrui a realização de negócios, e nem mesmo “mal necessário”. Ao
contrário, a alta administração deve adotar o programa como um reflexo dos
valores da corporação e um modo de garantir o sucesso da empresa no longo
prazo. A administração deve enfatizar que o uso de métodos indevidos para
atingir sucesso no curto prazo, como ganhar um contrato lucrativo específico,
pode levar ao fracasso no longo prazo se a empresa perder sua reputação de
honestidade e integridade, se estiver sujeita a ações de repressão por um ou
mais governos e se estiver potencialmente excluída de licitações para futuros
negócios governamentais.
Há certos elementos
básicos para um programa de fiscalização da FCPA. Entre eles, estão:
- Treinamento: Todos os funcionários que
realizam negócios no exterior, mesmo se sediados em seu país, devem ser
treinados com relação ao conteúdo das proibições da FCPA e os
procedimentos específicos adotados pela empresa para tratar dos riscos da FCPA.
Além disso, como tanto a força de trabalho quanto os procedimentos podem
mudar com o tempo, esse treinamento deve ser repetido regularmente e a
empresa deve assegurar a participação de todos os funcionários.
- Mensagem
personalizada:
Embora eu tenha me referido ao risco da lei FCPA, o verdadeiro risco é o
da corrupção, seja na violação da FCPA ou das leis anti-suborno de outro
país. Ao treinar funcionários não americanos, a corporação deve explicar
por que a FCPA é relevante (porque a empresa matriz é uma empresa dos EUA
e sujeita às leis americanas), mas também deve enfatizar a importância de se
cumprirem todas as leis. Embora as corporações obviamente queiram transmitir
uma mensagem uniforme a seus funcionários em todo o mundo, elas também devem
abordar as preocupações e leis locais por meio de treinamento.
- Devido
cuidado com relação aos agentes: Antes de contratar alguém para agir em seu nome, a empresa
deve ter o devido cuidado de garantir que não está contratando alguém que
vai lhe causar problemas. Por meio de entrevistas pessoais, questionários,
pesquisa independente e referências, ela deve assegurar-se de que o agente
é qualificado e conhecido por sua integridade e atividades comerciais
honestas.
- Devido
cuidado em relação a terceiros: Antes de fazer negócios com terceiros, seja um
parceiro comercial, uma empresa contratada, um parceiro de joint venture, um
fornecedor ou prestador de serviço, a corporação deve empreender o devido
cuidado para assegurar-se de que não está fornecendo verbas de maneira
inapropriada a uma autoridade governamental. Essa questão poderá surgir se
a autoridade governamental for proprietária do terceiro, se ela se beneficiar
diretamente do negócio ou se tirar proveito indiretamente porque o terceiro
lhe pertence ou emprega um parente próximo seu. Na maioria dos casos, essa
devida cautela é tomada quando se pede ao terceiro para preencher um
questionário identificando os proprietários, diretores e gerentes importantes
e, em seguida, verificando essas informações por meio de fontes públicas e
referências e, em muitos casos, pela realização de entrevistas pessoais
com possíveis terceiros.
- Termos
contratuais:
As empresas devem exigir em seus contratos que agentes e terceiros concordem
em não fazer pagamentos ilegais e, o que é mais importante, devem garantir
que possam interromper a relação comercial se os agentes ou terceiros
violarem o acordo. Dependendo do tipo de negócio e da relativa influência
dos terceiros, a empresa também deve buscar desenvolver a capacidade de auditar
as despesas do agente ou terceiro relacionadas com seus negócios.
- Livros
e registros internos: Um aspecto importante de um programa de fiscalização é assegurar
que os funcionários criem um registro auditável para comprovar que tomaram
as devidas providências e controlaram as despesas dos fundos corporativos.
De certa forma, isso nada mais é do que um bom negócio; em termos legais,
garante que, no caso de haver uma alegação de que a empresa fez um
pagamento impróprio, ela possa provar que o pagamento não foi feito ou que
foi feito sem sua autorização e contra suas políticas e seus procedimentos
claros.
- Auditorias
periódicas: Empresas com auditores externos ou internos ― ou ambos ― devem
garantir a realização de auditorias apropriadas do programa de
fiscalização, dos próprios livros e também dos registros relacionados com as
áreas que enfrentam riscos da lei FCPA. Em um mundo perfeito, tais
auditorias confirmarão que não há problemas ou atividades questionáveis. No
mundo real, elas podem indicar as áreas em que são necessários controles
complementares, áreas nas quais o programa de fiscalização não mais
rastreia a organização empresarial e os funcionários ou grupos de
funcionários que se beneficiariam com treinamento adicional. Na pior das
hipóteses, podem revelar antigas ou atuais violações da lei, que a
companhia precisará resolver rapidamente.
Nenhum programa de
fiscalização pode evitar que um único funcionário ou grupo de funcionários se
empenhe em escapar dos controles corporativos, como também não será eficaz se
não contar com o apoio dos gerentes seniores em toda a organização. Contudo, um
programa bem planejado, que adote as melhores práticas para as necessidades
específicas da empresa, deverá ajudar a identificar e impedir o comportamento
indevido, além de capacitar a empresa a focar em seu negócio.

As opiniões expressas
neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo
dos EUA.
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