eJournal USA: Economic Perspectives

As Pequenas Empresas na História dos EUA

Christopher Conte

Entrepreneurship and Small Business

ÍNDICE
Apresentação
Como as Pequenas Empresas Contribuem para a Expansão Econômica dos EUA
As Pequenas Empresas na História dos EUA
O Papel do Governo no Incentivo às Pequenas Empresas
Leis de Falências dos EUA: Incentivo ao Risco e ao Empreendedorismo
Então, Você Quer Abrir um Pequeno Negócio?
Pequenas Empresas em Plena Atividade
Bibliografia
Recursos na internet
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Onde os americanos trabalham?

Os americanos há muito reverenciam as pequenas empresas não apenas por construírem a economia, mas também por fortalecerem a democracia. Há mais de um século os Estados Unidos implementam leis com o objetivo de evitar que as grandes empresas concorram com as pequenas de forma desleal. Se as pequenas empresas geram um volume desproporcional de empregos não está claro, mas certamente elas influenciaram as de grande porte a adotar práticas flexíveis de empresas menores.

Christopher Conte, ex-editor e repórter do The Wall Street Journal, é escritor freelance e aborda várias questões da política pública

Images for Small Business in U.S. History

 

Calvin Coolidge, presidente dos Estados Unidos no decorrer da década de 1920, os “loucos anos 20”, fez uma declaração que ficou famosa: “O negócio dos Estados Unidos são os negócios". No primeiro século da existência do país — até os anos 1880 — teria sido igualmente correto dizer que o negócio dos Estados Unidos eram os pequenos negócios, pois naquele tempo praticamente todas as empresas da nação eram pequenas. Certamente, os empreendimentos de larga escala ofuscaram a pequena empresa de modo significativo desde então, mas a grande maioria ainda é pequena, visto que quase 90% dos empregadores americanos têm menos de 20 empregados. Além disso, a pequena empresa continua a ocupar grande espaço na imaginação do povo americano.

Nos primórdios dos Estados Unidos, as empresas não tinham outra alternativa senão a de serem pequenas. O transporte era moroso e ineficiente, com os mercados muito fragmentados para comportar empreendimentos de grande porte. As instituições financeiras também eram muito pequenas para dispor de financiamentos para grandes empreendimentos. E a capacidade produtiva era limitada em razão dos ventos, da água e da força animal, únicas fontes de energia à época. Independentemente do motivo de as empresas serem pequenas, os americanos gostavam delas dessa maneira. A pequena empresa, acreditavam eles, cultiva o caráter e fortalece a democracia. Como dizia Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos, uma nação de agricultores e pequenos empresários evitaria a dependência que “gera subserviência e vulnerabilidade, sufoca a essência da virtude e molda instrumentos apropriados aos desígnios da ambição”.

A crença americana na pequena empresa começou a ser posta à prova no final dos anos 1800. Surgiram avanços como estradas de ferro, telégrafo, criação de máquinas a vapor e rápido crescimento populacional. E tudo isso criou condições nas quais algumas empresas — especialmente as que demandam grande volume de capital como as indústrias de metais primários, de processamento de alimentos, de maquinário e químicas — puderam se tornar maiores e ao mesmo tempo mais eficientes. Muitas pessoas comemoraram o aumento dos salários e a redução dos preços resultantes da produção em alta escala, mas outras recearam que as qualidades exaltadas por Jefferson pudessem se perder simultaneamente. "Ao mesmo tempo que abraçavam o que consideravam a maior eficiência e produtividade da grande empresa”, escreveu o historiador Mansel Blackford no A History of Small Business in America, “os americanos continuavam a reverenciar os pequenos empresários por sua auto-suficiência e independência”.

LEGISLAÇÃO VERSUS REALIDADE ECONÔMICA

Como descreve Blackford, os formuladores de políticas tentaram inúmeras vezes conciliar a satisfação dos americanos diante dos benefícios que as grandes empresas lhes proporcionavam com sua reverência ao pequeno empresário. Em 1887, o Congresso dos EUA sancionou a Lei de Comércio Interestadual para regulamentar o uso das estradas de ferro, em parte para proteger as empresas menores de um suposto monopólio natural. Em seguida, a Lei Antitruste Sherman (1890) e a Lei Antitruste Clayton (1914) tiveram por objetivo evitar que as grandes empresas exercessem poder excessivo no mercado. Mais tarde, a Lei Robinson-Patman de 1936 e a Lei Miller-Tydings de 1937 visaram controlar as grandes redes de lojas varejistas.

Entretanto, em cada uma dessas leis, os entusiastas das pequenas empresas tiveram que apaziguar os legisladores que se opunham à interferência governamental na economia e consideravam as grandes empresas mais eficientes do que as pequenas. O resultado foi uma série de compromissos que limitava, pelo menos um pouco, a capacidade das grandes empresas de usar seu poder para sufocar a concorrência, mas não as impedia de crescer por meios considerados legais. A Lei Sherman, por exemplo, não combateu propriamente as grandes empresas e, na verdade, foi usada muitas vezes para evitar fraudes entre as pequenas e também entre as grandes. Da mesma forma, a Lei Clayton não condena o crescimento em si, apenas e meramente proibiu métodos “desleais” de concorrência.

Em 1953, os legisladores adotaram uma estratégia diferente: criaram a Administração de Pequenas Empresas — SBA, uma agência federal que oferece treinamento e ajuda as pequenas empresas a garantir financiamentos e contratos de compra e venda de imóveis a prestações com agências governamentais e a levantar capital social. Atualmente é difícil avaliar o impacto da SBA. Porém, os economistas acreditam que a pequena empresa tem sobrevivido ao longo dos anos mais em razão das realidades econômicas – e da sua própria criatividade – do que graças à legislação. Em alguns setores – fábricas de móveis, serrarias e várias empresas de serviços, por exemplo — as pequenas empresas continuaram a exercer importante papel por não praticarem o tipo de economia de escala que permitiu o crescimento das empresas em outros setores.

Em alguns setores, as pequenas empresas encontram nichos de mercado com muito pouca demanda para justificar a produção em larga escala. Blackford cita a empresa Buckeye Steel Castings Company de Columbus, Ohio, fundada em 1881, que por muitos anos prosperou no mercado produzindo engates ferroviários automáticos, por exemplo. Também descreve como muitas empresas têxteis de pequeno porte da Filadélfia sobreviveram no século 20 produzindo roupas para um mercado sazonal em constante mutação. Mais recentemente, surgiram inúmeras empresas de tecnologia da informação produzindo softwares para aplicações altamente específicas em computadores, e várias empresas pequenas da internet vendem produtos voltados para segmentos de mercado muito restritos.

Algumas empresas permaneceram pequenas apenas porque seus proprietários não querem que cresçam. E os economistas observaram outra função das pequenas empresas: em períodos de declínio econômico como a Grande Depressão dos anos 1930 e recessões como as de 1973-1975 e 1980-1982, muitas pessoas que perderam seus empregos em empresas maiores montaram seu pequeno negócio para sobreviver durante os tempos difíceis.

De modo geral, embora o sonho de tocar o próprio negócio tenha alimentado um aumento estável no número de pequenos empreendimentos nos Estados Unidos, tem sido esta a tendência comum desde os anos 1880: as pequenas empresas crescem na proporção do crescimento populacional, mas sua participação relativa na produção econômica diminui tendo em vista que surgem grandes corporações em vários setores. A SBA reconheceu tacitamente a tendência de expansão das empresas ao redefinir para maior o tamanho de uma pequena empresa. Nos anos 1950, a agência classificava como pequenas as indústrias com menos de 250 empregados, mas atualmente empresas com até 500 empregados são consideradas de pequeno porte. Ainda assim, a grande maioria das empresas americanas é pequena. Em 2002, por exemplo, havia apenas 16.845 empresas com mais de 500 empregados, em comparação com 5.680.914 que empregavam um número menor, segundo a SBA.

A IMPORTÂNCIA DO TAMANHO

As pequenas empresas mostraram sua presença duradoura no mercado especialmente durante os anos 1970 e 1980. Nessa época, a concorrência estrangeira levou a um declínio da produção em larga escala em indústrias de base como as de aço, automóveis e têxteis. Na nova economia global, os serviços se tornaram relativamente mais importantes enquanto declinou a importância da produção. Com isso, aumentou a relevância das pequenas empresas que tradicionalmente dominavam muitos setores de serviços. Mas alguns economistas detectaram outros motivos pelos quais as pequenas empresas se tornariam uma parte mais importante no cenário econômico. Em uma economia global altamente competitiva e em rápida mudança, argumentavam eles, empresas capazes de inovar, personalizar produtos e se adaptar com agilidade às circunstâncias em transformação teriam vantagem. As pequenas empresas, com sistemas gerenciais menos hierárquicos e com menos empregados sindicalizados, pareciam apresentar exatamente esses pontos fortes. Além disso, as empresas de pequeno porte ganharam impulso extra porque a redução nos custos de transporte e o surgimento da internet tornou ainda mais fácil para elas concorrer no cenário global.

A onda de entusiasmo em torno das pequenas empresas atingiu o auge em 1987 quando David Birch, economista e fundador da empresa de pesquisa Cognetics Inc., escreveu que as pequenas empresas criam a maioria dos novos empregos na economia. As descobertas de Birch atraíram muita atenção e ainda hoje são citadas. Entretanto, muitos economistas as contestam. Em um estudo de 1993, por exemplo, a Agência Nacional de Pesquisa Econômica descobriu que, embora as empresas com menos de 500 trabalhadores realmente tenham gerado mais empregos entre 1972 e 1988, elas também saíram do mercado com mais freqüência. Portanto, seu efeito líquido sobre a geração de empregos não foi maior do que o das empresas maiores, concluiu a organização privada e apartidária de pesquisas.

De qualquer forma, a pequena empresa pode ter mantido sua participação no mercado nos últimos anos, mas não recuperou a fatia que perdeu para as grandes empresas no século anterior. Em parte porque as grandes empresas se tornaram mais competitivas aprendendo algumas lições com suas concorrentes menores, segundo a revista The Economist. Em 1995, a publicação britânica divulgou que as grandes empresas estavam cada vez mais se comportando como as pequenas “levando a tomada de decisão para esferas mais baixas da administração, reestruturando-se em torno de equipes e unidades de produto e se tornando mais empreendedoras”.

Atualmente, grandes e pequenos empreendimentos parecem ter atingido algum equilíbrio. A participação das pequenas empresas no produto interno bruto americano, por exemplo, que era de 57% em 1958, oscila em torno de 50% desde 1980. Se Calvin Coolidge ainda estivesse vivo, diante desses números possivelmente reiteraria sua crença de que o negócio dos Estados Unidos são os negócios. Mas, talvez acrescentasse que eles proliferam em todos os tamanhos, do grande ao pequeno.

Entrepreneurship and Small Business

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.

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