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Financiamento do desenvolvimento:
investimento em microempresa
Katharine McKee
Diretora da Divisão de Desenvolvimento de Microempresas
Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento
Internacional
Apenas 5% das famílias de baixa renda
em todo o mundo têm acesso a serviços financeiros. No entanto, esses
serviços são agora considerados fundamentais ao desenvolvimento de
pequenos empreendimentos, geração de renda e aumento da oferta de
empregos em todos os países, afirma Katharine McKee, diretora da Divisão
de Desenvolvimento de Microempresas da Agência Norte-Americana para
o Desenvolvimento Internacional (USAID).
McKee descreve as principais estratégias
utilizadas pela USAID em seu programa de apoio às microfinanças, que
atualmente representam a vanguarda das estratégias globais de combate
à pobreza. Os métodos inovadores para atender empreendedores e famílias
de baixa renda, diz ela, incluem encontrar alternativas para as garantias
convencionais, oferecer planos flexíveis de amortização de empréstimos
e uma vasta gama de serviços financeiros, como seguros e contas de
poupança flexíveis.
Para crescer e prosperar, as empresas de
qualquer tamanho e em todos os países precisam ter acesso a serviços
financeiros. Tal acesso é um desafio principalmente para as famílias
pobres do mundo que precisam de empréstimos, crédito e poupança para
abrir, operar e expandir micro e pequenos negócios. Outrora considerada
uma questão periférica na política tradicional de desenvolvimento, o
acesso a serviços microfinanceiros está agora na vanguarda da estratégia
global de combate à pobreza, apresentando um enorme potencial para gerar
renda e expandir a oferta de empregos tanto na esfera local quanto nacional.
Os serviços financeiros também são importantes
na proteção contra as conseqüências imprevisíveis de doença, incapacidade
ou morte de um arrimo de família; de desastres naturais, guerra e outras
crises. O acesso a serviços financeiros permite às famílias pobres manter
os filhos na escola, comprar remédios e superar momentos difíceis quando
há pouco dinheiro e pouca comida.
Apesar da importância desses serviços, tanto
para a redução da pobreza quanto para o crescimento econômico com igualdade,
os analistas calculam que apenas 5% das famílias de baixa renda em todo
o mundo têm acesso a esses serviços. A comunidade internacional da área
do desenvolvimento, com sua proposta denominada "alargamento das
fronteiras do setor financeiro", está promovendo a expansão de
inúmeros serviços financeiros, por meio de uma ampla rede de bancos
e de instituições financeiras não bancárias a uma quantidade cada vez
maior de famílias de baixa renda e de classe média em todo o mundo.
A dotação de recursos para microfinanças
tem sido uma constante nos programas de ajuda externa dos EUA há mais
de 25 anos. A Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional
(USAID) destina mais de US$ 100 milhões por ano a projetos que criam
serviços microfinanceiros de larga escala, eficientes e sustentáveis
para pessoas pobres de países em desenvolvimento e em fase de transição.
Os Estados Unidos complementam seus investimentos
diretos em desenvolvimento de microfinanças por meio de apoio às instituições
financeiras internacionais (IFIs), como o Banco Mundial e a Corporação
Financeira Internacional (International Finance Corporation - IFC),
e a bancos de desenvolvimento regionais. Diversas IFIs, entre elas o
Banco Interamericano de Desenvolvimento, o Banco Asiático de Desenvolvimento
e o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento têm um forte histórico
de apoio a serviços financeiros para micro e pequenas empresas.
Os resultados dos
investimentos da USAID ao longo dos anos são eloqüentes: (ver tabela sobre investimentos em microempresas).
Com o passar do tempo, em alguns países o apoio ao segmento de microfinanças
mudou o panorama financeiro nacional, incorporando
milhares de clientes ao sistema bancário e estimulando inovações que
alteram a forma como os bancos tradicionais operam. Clientes de microfinanceiras
formam agora a maioria dos clientes de serviços financeiros em países
tão diversos quanto o Quirguistão, Uganda e Bolívia. Na Bolívia, por
exemplo, o programa de microfinanças da USAID tem servido como instrumento
para a expansão maciça dos serviços financeiros em termos de número
de tomadores de empréstimo e de poupadores, bem como do desempenho geral
dos mercados financeiros no país.
De acordo com informações reunidas pela USAID,
com base em dados fornecidos pelas autoridades dos bancos centrais,
o patrimônio em dólar das instituições microfinanceiras (IMFs) - grupos
que emprestam dinheiro principalmente a pequenas empresas e a famílias
de baixa renda - que operam na Bolívia cresceu quase 300% entre 1992
e 2001, uma taxa de crescimento oito vezes superior a dos bancos comerciais.
Em 2001, o número de tomadores de empréstimo das IMFs era o dobro do
de bancos comerciais, e 797 mil bolivianos possuíam contas-poupança
nas IMFs ao passo que o número de poupadores em bancos comerciais era
de apenas 658 mil.
A USAID provê a maior parte de seu microfinanciamento
por meio de suas "missões" nos países em desenvolvimento e
em transição. Atualmente, cerca de 50 missões da USAID financiam programas
de microfinanças e desenvolvimento de microempreendimentos. De modo
geral, os recursos são divididos igualmente entre as quatro regiões
da USAID - África, América Latina e Caribe, Ásia e Oriente Próximo,
Europa e Eurásia.
RESPOSTA ÀS NECESSIDADES DE EMPRÉSTIMO
As empresas precisam de empréstimo para capital
de giro, financiamento de longo prazo para compra de equipamentos e
outros investimentos, poupança e serviços de pagamento a fim de gerar
postos de trabalho e aproveitar as novas oportunidades econômicas. As
famílias precisam ter acesso a contas de poupança flexíveis, serviços
de pagamento e de remessa de dinheiro, seguro, empréstimos para compra
de casa, pagamento de taxas escolares, emergências, entre outros, a
fim de aumentar sua renda e patrimônio, reduzir sua vulnerabilidade
às crises e cumprir suas obrigações com relação a eventos como nascimento,
morte e casamento. A USAID tem investido no desenvolvimento de uma ampla
gama de serviços para atender a essas diversas necessidades.
A USAID aprendeu com sua experiência que
é fundamental realizar uma pesquisa de mercado detalhada antes de as
instituições financeiras implantarem novos serviços. Por muito tempo,
por exemplo, a maioria das IMFs ofereceram apenas empréstimos de curto
prazo para capital de giro. Deparando-se com uma nova competição por
clientes, as IMFs agora entendem a importância de adaptar as características
do produto e as técnicas de prestação de serviço às necessidades dos
diversos clientes. Uma IMF que busque atender as famílias de agricultores
em áreas rurais remotas, por exemplo, precisa ajustar suas condições
de amortização de empréstimo e serviços de poupança aos ciclos de fluxo
de caixa das famílias e da comunidade, que podem variar dramaticamente
conforme a estação do ano e o ciclo agrícola. A mesma IMF pode concluir
que, em vez de abrir uma agência no local, é preferível criar um serviço
móvel, com agentes de crédito percorrendo o interior para atender os
clientes.
O segmento de microfinanças avançou muito
desde o tempo em que poucos acreditavam que os pobres pudessem honrar
seus empréstimos para necessidades domésticas e de negócios tanto quanto
os clientes dos bancos mais bem-sucedidos. Muitos sequer acreditavam
que os pobres pudessem ser bons poupadores e construir seu próprio patrimônio
financeiro. Como ocorreram esses avanços nos sistemas de microcrédito
e micropoupança? Alguns princípios importantes foram fundamentais para
esse sucesso - cobrança de taxas de juros que cubram os custos do empréstimo,
administração cuidadosa da inadimplência e adaptação dos produtos financeiros
de forma a torná-los flexíveis em termos de garantia e planos de amortização
(ver "Melhores Práticas no Desenvolvimento de Microempreendimentos:
uma Perspectiva da USAID").
As IMFs reconhecem que poucos dos novos clientes
possuem o tipo de garantia exigida por muitos bancos para assegurar
os empréstimos. Assim sendo, desenvolveram garantias alternativas -
produtos destinados a incentivar o pagamento do empréstimo. Uma dessas
técnicas é o sistema de "empréstimos graduais". Os empréstimos
iniciais são pequenos e de curto prazo, mas empréstimos maiores com
prazos mais longos de vencimento tornam-se disponíveis aos tomadores
de empréstimo com fichas impecáveis de pagamento. Outra alternativa
de garantia é o programa de empréstimo em grupo que, essencialmente,
força os clientes a garantirem que todos os membros do grupo cumpram
os prazos de amortização; se um tomador de empréstimo atrasa um pagamento
os outros não poderão receber empréstimos, o que motiva os colegas a
pressionar e apoiar uns aos outros.
Outra iniciativa toma como base para crédito
a renda de toda a família em vez de apenas o rendimento real ou projetado
do empreendimento para o qual o empréstimo foi solicitado. Essa
iniciativa reconhece que o dinheiro das famílias é fungível.
As inovações não se limitaram aos programas
de crédito. Inovações nos sistemas de poupança incluem a criação de
uma equipe móvel para arrecadar diariamente as poupanças de clientes
e a implantação nas áreas rurais de caixas automáticos que utilizam
tecnologia de reconhecimento de impressão digital, permitindo assim
aos clientes analfabetos acessar suas contas.
VÍNCULO ENTRE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS
E MERCADOS
A segunda estratégia importante da USAID
para as microfinanças é o investimento em várias instituições financeiras
de varejo capazes de atender diferentes mercados. Com o apoio da USAID,
muitas organizações não-governamentais (ONGs), associações e cooperativas
de crédito, bem como bancos comerciais estão conseguindo se capacitar
para oferecer serviços de microcrédito e poupança e demais produtos
financeiros a clientes mais pobres e empresas menores.
Nos países com pouca experiência em microfinanças,
a USAID sempre apóia a criação de "líderes de mercado" - organizações
financeiras que comprovam que os clientes pobres são merecedores de
crédito e usuários responsáveis dos diversos serviços financeiros. Igualmente
importante é o fato de a iniciativa confirmar que os serviços financeiros
para esse segmento de mercado podem ser lucrativos, o que incentiva
outros atores comerciais a ingressar em mercados carentes de atendimento.
A USAID fornece recursos para formação de
capital inicial, capital para empréstimos e sistemas de informações
gerenciais a fim de ajudar a abertura de centenas de IMFs especializadas,
líderes de mercado. As dotações seguintes permitem que essas instituições
cresçam e atinjam a sustentabilidade, de forma que os rendimentos das
operações cubram totalmente os custos da oferta de serviços, inclusive
prejuízos com empréstimos concedidos, inflação e os custos de financiamento
de crescimento futuro por meio de recursos emprestados.
Proporcionar acesso à assistência técnica especializada e capacitação
às IMFs iniciantes tem sido um ingrediente fundamental de seu sucesso.
As principais redes internacionais de microfinanças, como a ACCION International,
FINCA International e Opportunity International têm ajudado suas afiliadas
a se tornarem líderes de mercado e comprovam a viabilidade das microfinanças
em diversos países do mundo. Com a ajuda da USAID, o enfoque "primeiro
poupança" do Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito, segundo
o qual as comunidades usam suas próprias poupanças como capital de empréstimo,
está funcionando com sucesso em mais de uma dúzia de países, financiando
redes de cooperativas de crédito locais que oferecem um modelo atraente
de poupança, crédito e outros serviços às famílias de baixa renda e
da classe trabalhadora.
As garantias de empréstimo e outros reforços
de crédito, fornecidos via a Autoridade de Crédito para o Desenvolvimento,
da USAID, possibilitaram às IMFs bem-sucedidas acesso aos mercados de
capital locais e internacionais para financiar o crescimento rápido
por meio de dívidas e títulos. Assistência técnica e pequenas dotações
especiais também têm ajudado os bancos e outras instituições financeiras
tradicionais a trabalhar com microfinanças. Esses serviços são sempre
prestados por afiliadas especializadas que adaptam seus produtos e métodos
de prestação de serviços às necessidades das empresas menores e das
famílias mais pobres de uma comunidade.
APOIO À INFRAESTRUTURA DE MERCADO E À
REFORMA REGULATÓRIA
Em alguns países com mercados microfinanceiros
mais maduros a USAID mudou sua forma de assistência, passando do apoio
individual a cada instituição de varejo para uma estratégia de concessão
de apoio mais amplo a todo o setor microfinanceiro e à infraestrutura
de mercado necessária para que o setor progrida. Isso freqüentemente
acarreta concorrência de projetos de financiamento para desenvolvimento
de novos produtos, ou investimentos em instituições especializadas,
como centrais de informação de crédito e agências de classificação de
instituições microfinanceiras. A crescente concorrência resultante pode
ser um caminho eficaz rumo à inovação de produtos, maior eficiência
e serviços e preços melhores para os clientes.
Na base de sustentação das três estratégias
da USAID estão os esforços para aperfeiçoar os ambientes jurídico e
regulatório para as microfinanças. Por exemplo, se houver limitação
de taxas de juros, as instituições financeiras provavelmente não poderão
cobrar o suficiente para cobrir os custos mais elevados e os riscos
de atender clientes mais pobres e moradores de locais mais remotos.
Leis aprovadas com o objetivo de proteger os pobres podem bloquear o
acesso dessas pessoas aos serviços financeiros de que necessitam. Os
bancos podem não conseguir atendê-los se a documentação exigida para
a concessão de empréstimos e os requisitos de reserva não forem ajustados
para refletir o gerenciamento de risco específico e os métodos de controle
de custos empregados em microfinanceiras bem-sucedidas. As ONGs que
operam como IMFs bem-sucedidas e se mostraram capazes de emprestar a
longo prazo nesse segmento de mercado podem ser bons candidatos a oferecer
os serviços de poupança flexíveis que os clientes mais pobres geralmente
necessitam. No entanto, se não houver mudanças na legislação bancária,
elas podem ser proibidas de captar depósitos do público em geral.
A assistência da USAID às políticas do setor
busca eliminar essas barreiras jurídicas e regulatórias que atualmente
impõem às ONGs e a outros fornecedores especializados restrições para
o fornecimento de serviços microfinanceiros. Os recursos da USAID também
têm capacitado os órgãos reguladores de instituições bancárias e cooperativas
de crédito para proteger as poupanças de pessoas pobres. Órgãos reguladores
capacitados ajudam a garantir que as microfinanceiras sejam adequadamente
fiscalizadas. À medida que as ONGs de microcrédito de primeira linha
tornam-se captadoras de depósitos regulamentadas, os órgãos de supervisão
bancária podem precisar adaptar suas regras, sistemas e pessoal.
APOIO À EXPANSÃO DE MICROEMPRESAS BEM-SUCEDIDAS
A atenção começou a se voltar para uma nova
lacuna no mercado financeiro - o "intermediário perdido".
À medida que os microempreendimentos mais eficientes se expandem, poderão
precisar de mais capital do que as IMFs e os programas de microfinanças
podem fornecer. Em muitos países, empresas de pequeno e médio porte
acham que seu acesso a serviços financeiros adequados é ainda mais limitado
do que o de microempresas e trabalhadores autônomos. Iniciativas recentes
de assistência externa dos EUA começam a enfocar o intermediário perdido
numa tentativa de garantir que as micro,
pequenas e médias empresas nas economias em desenvolvimento e em transição
não padeçam da falta de capital necessário para gerar novos empregos,
aumentar a produtividade, atualizar tecnologias e abrir novos mercados
e oportunidades de exportação.
Uma importante iniciativa que trata dessa
lacuna no setor financeiro é o novo Fundo Africano para Pequenas Empresas.
Esse programa piloto de US$ 225 milhões é uma joint venture entre o
braço de concessão de empréstimos do Banco Mundial, a Associação Internacional
para o Desenvolvimento e sua afiliada no setor privado, a IFC. O programa
africano tem como base um forte histórico de microfinanças, em especial
a eficiente colaboração entre o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento
e a IFC e a USAID, entre outros, para criar bancos de alto desempenho
especializados em micro e pequenos empreendimentos nos países em transição
como Geórgia, Kosovo, Sérvia e Rússia.
O primeiro projeto a ser aprovado no âmbito
do Fundo Africano de Apoio às Pequenas Empresas é um crédito do Banco
Mundial no valor de US$ 32 milhões para a Nigéria. Em resposta à solicitação
do governo nigeriano de ajuda para intensificar seu crescimento econômico
de baixo para cima, o programa de empréstimo a pequenos empreendimentos
destinará recursos para fortalecer as instituições financeiras e não
financeiras locais que dão apoio às pequenas empresas. Dessa forma elas
poderão operar com mais eficiência e prestar serviços comercialmente
sustentáveis.
O governo dos Estados Unidos está comprometido
em contribuir para a criação de setores financeiros vigorosos nos países
em desenvolvimento e em transição em todo o mundo. Os serviços financeiros
impulsionam o amplo crescimento econômico e promovem a geração de empregos
e de novas oportunidades para todos os cidadãos. Conseqüentemente, representam
um elemento fundamental na luta mundial pela erradicação da pobreza.
| Investimentos
da USAID em microempresas |
|
1999 |
2000 |
2001 |
2002 |
| Clientes
de empréstimo |
1.997.839 |
2.175.198 |
2.904.152 |
2.723.146 |
| Total da
carteira de empréstimo |
$655.906.588 |
$883.273.258 |
$934.253.554 |
$1.269.622.200 |
| Clientes
de poupança |
3.069.604 |
3.155.100 |
3.514.200 |
3.196.300 |
| Total da
carteira de poupança |
$349.663.487 |
$533.500.000 |
$424.800.000 |
873.400.000 |
| Clientes
BDS* |
401.530 |
254.809 |
835.458 |
668.808 |
| Clientes mulheres
(MF) |
69% |
70% |
73% |
69% |
| Clientes
mulheres (BDS) |
61% |
75% |
47% |
48% |
| Clientes
muito pobres (MF) |
67% |
67% |
69% |
59% |
| Muito pobres
(BDS) |
29% |
18% |
30% |
53% |
| *
Serviços de Desenvolvimento de Negócios (Business Development Services -
BDS) MF Microfinanças |
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