Kids in Need:
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A Organização Internacional do Trabalho (OIT) avalia que haja no mundo mais de 246 milhões de crianças envolvidas no trabalho. Quase 80 milhões delas estão na África Subsaariana que inclui Uganda, meu país de origem. Aqui, se encontra crianças trabalhando em plantações e no setor informal, inclusive no comércio de sexo. A maioria das crianças que trabalha no setor informal em Uganda vive nas ruas. Em 1995, Uganda tinha 10 mil crianças de rua, segundo estimativa do professor Mike Munene da Universidade Makerere em Kampala. Desde então, esse número se multiplicou devido a problemas sociais e econômicos do país como HIV/Aids, pobreza e conflitos internos. ALI e SSEMBI As crianças de rua são as maiores vítimas do trabalho infantil em Uganda. Eu não tinha plena consciência disso até meados de 1996. Havia acabado de concluir a faculdade e me preparava para ser professor universitário. Nesse ano, quando estava na Cidade de Kampala, aconteceu algo dramático. Vi dois garotos maltrapilhos atirando pedras em um carro próximo a um estacionamento bastante conhecido. Isso me interessou de tal forma que decidi segui-los. Não muito além, eles pararam embaixo de uma imensa mangueira em uma praça da cidade onde os desocupados passam o tempo a divagar. Aproximei-me com um cumprimento amistoso que foi respondido por um deles enquanto o outro se afastou zangado. O garoto simpático disse-me que seu nome era Ali e que o outro se chamava Ssembi. Ambos eram crianças de rua que trabalhavam praticamente dia e noite e só descansavam quando não sentiam suas vidas ameaçadas. Seu dia-a-dia começava às 3 horas da manhã e terminava depois da meia-noite. Ali vendia abacaxis para um ambulante e Ssembi era ajudante em um quiosque de engraxate numa das ruas de Kampala. Os dois se conheceram na prisão onde estiveram várias vezes. A vida nas ruas sempre foi instável para crianças. Com o pouco dinheiro que conseguem não podem pagar uma refeição descente por dia. É por essa razão que freqüentemente se envolvem com crimes. E a conseqüência é apanhar de gangues ou passar um tempo na prisão. Não é de surpreender que Ali e Ssembi tivessem inúmeras cicatrizes além de ferimentos recentes em seus corpos. Deixei as duas crianças com a promessa de voltar a vê-las em outra ocasião.
Àquela altura mal sabia eu que Ali e Ssembi levariam à criação de um programa para combater o trabalho infantil entre as crianças de rua. Fiquei muito perturbado ao saber que alguns seres humanos, em especial as crianças, levavam uma vida de cachorro, senão de animais selvagens. Tentei esquecer o assunto por completo, mas foi impossível. Algumas aspirações estão fortemente enraizadas no âmago da alma humana. Não poderia escapar da exigência que se impunha. Poucos dias depois quando fui a Kampala por razões pessoais, um motorista de táxi disse-me que duas crianças maltrapilhas iam todos os dias à praça procurar por um homem de Entebbe. Pela descrição que faziam, o motorista estava convencido de que eu era o homem que procuravam. Diante disso, disse-lhe que avisasse às crianças que iria encontrá-las na sexta-feira daquela semana. Como estava muito atarefado, desci do carro e fui cuidar da vida. Foi ao meio-dia, quando sai para comer alguma coisa, que deparei com meu pior pesadelo. A VIDA DE UMA CRIANÇA DE RUA Comecei a comparar minha refeição com o lixo que as duas crianças envolvidas com o trabalho árduo estariam fadadas a comer. Deparei-me com dois mundos profundamente distintos naquele dia. Decidi de imediato procurar pelos garotos em seus locais de trabalho. Descobri que Ssembi tinha voltado à prisão e que Ali tinha ido morar com uma gangue perigosa para vender drogas e combustível de avião para cheirar. Ele havia emagrecido, estava doente e muito infeliz. Para sobreviver, todas as crianças na gangue tinham que trabalhar muito. Muitas faziam sexo com os adultos por comida ou por uns trocados; outras transportavam cargas pesadas, vendiam drogas ou participavam do crime organizado. A criança que vive nas ruas é ameaçada de
morte de várias formas. Muitas dessas crianças desenvolvem problemas
físicos decorrentes de seu perigoso trabalho. Elas são franzinas, têm
os membros fracos, adquirem tuberculose e apresentam horríveis ferimentos
ulcerosos além de problemas comuns como dores de cabeça. Em conseqüência
disso tornam-se apáticas. Inúmeras crianças de rua não são capazes de se comunicar adequadamente por causa das drogas. Muitas alegam que não podem fazer o que fazem sem a influência das drogas. Uma delas disse-me certa vez que, embora cansada, tinha transportado uma carga pesada por cinco quilômetros para uma senhora que não lhe pagou. E naquela noite, com muita fome e desesperada, comeu detritos humanos que encontrou em uma lata de lixo. As experiências difíceis de Ali e Ssembi levaram-me a pesquisar a vida das crianças de rua em Kampala e a viver com elas. Com a ajuda de Ali, nos meses seguintes comecei aos poucos a fazer contato com várias crianças que trabalhavam nas ruas. Descobri que cada gangue tinha uma característica e localização específica denominada “boca”. Muitas crianças das bocas não queriam dormir ao relento, comer lixo e fazer trabalhos penosos e árduos. Elas se sentiam frustradas. Com a ajuda dos padres Jesuítas em Kampala, foi alugada uma casa para 10 crianças. Dez crianças mudaram-se para essa casa com as caixas de papelão onde dormiam e os sacos de polietileno que usavam para se cobrir e se aquecer quando estavam nas ruas. E assim nasceu a Kids in Need.
KIDS IN NEED A Kids in Needs é voltada para crianças que vivem e trabalham nas ruas de Uganda. O programa identifica crianças que participam ativamente das piores formas de trabalho infantil e aquelas que têm grande probabilidade de serem enredadas por elas. Hoje a Kids in Need dispõe de três centros distritais – em Kampala, Mbale e Wakiso – para oferecer aconselhamento, educação formal e informal, assistência médica e suprir as necessidades básicas de crianças de rua. Também realizamos programas em defesa da criança como medida preventiva para eliminar as piores formas de trabalho infantil. E temos produzido e distribuído cartazes, camisetas, panfletos, jogos e brochuras ao mesmo tempo em que sensibilizamos a comunidade em nossas áreas de atuação com treinamento e mobilização local. As crianças retiradas das atividades perigosas de trabalho infantil são temporariamente levadas para um dos centros de reabilitação. Depois são colocadas em atividades remuneradas antes de serem reintegradas na sociedade. A reintegração pode ocorrer de três formas. Uma criança muito jovem (de 12 anos ou menos) em geral volta a viver com sua família, caso ainda esteja constituída. Uma criança mais velha ou que não possa ficar com sua família muito provavelmente será colocada sob a custódia de parentes ou de um amigo. A última forma de reintegração é a criança assumir as rédeas da sua própria vida. Nesse tipo de reintegração, a criança com 15 anos ou mais e que aprendeu alguma atividade recebe ajuda para encontrar emprego e uma moradia simples – geralmente de apenas um cômodo. Grande parte da assistência para a reintegração tem vindo do Programa Internacional para a Eliminação do Trabalho Infantil (Ipec) da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Outros tipos de apoio, como por exemplo para alimentação, taxas escolares, assistência médica e salários são fornecidos pela organização Terre des Hommes da Holanda voltada para a assistência às crianças e pela agência de cooperação para o desenvolvimento DKA da Áustria. Em quase 10 anos de existência, a Kids in Need ajudou mais de 800 crianças carentes de Uganda a se tornarem membros produtivos em suas comunidades. Essas 800 crianças representam um final feliz para a história da Kids in Need. Mas com milhares de crianças vivendo e trabalhando nas ruas de Uganda, grande parte dessa história ainda está por ser escrita.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.
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