Como Quebrar o Ciclo da FomeEntrevista com Josette Sheeran | |||||||
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Meios para cortar pela metade o número de pessoas com fome no mundo existem; o que falta é maior vontade política, tanto dos países beneficiários como dos países doadores, segundo Josette Sheeran, diretora executiva do Programa Mundial de Alimentação (PMA) das Nações Unidas. O editor-gerente Bruce Odessey entrevistou Sheeran alguns meses depois que ela assumiu a liderança do PMA. Os desafios para redução da fome são muitos: Aids, pobreza, governos fracos, mudanças climáticas, preços cada vez mais altos dos alimentos devido aos aumentos dos biocombustíveis e outros. Sheeran demonstrou esperança, no entanto, de que uma ação conjunta possa quebrar o ciclo da fome que passa de geração a geração. Sheeran foi subsecretária de Estado dos EUA para Assuntos Econômicos e Comerciais, inclusive agricultura, e antes disso foi vice-representante de Comércio dos EUA. Pergunta: A fome e as causas relacionadas com a fome matam cerca de 25 mil pessoas por dia, e as Nações Unidas dizem que o número dos cronicamente famintos no mundo aumenta ao redor de 4 milhões por ano. Estamos perdendo a batalha conta a fome no mundo? Sheeran: Obtivemos ganhos contra a fome no mundo durante as últimas décadas. No entanto, devido ao crescimento populacional em algumas das regiões mais pobres do mundo, temos – em números absolutos – mais pessoas com fome atualmente do que nunca. Acredito piamente que podemos vencer a fome; podemos e iremos, mas deveremos aplicar não apenas toda a ciência e tecnologia à nossa disposição como também a vontade política para tanto.
Atualmente, ainda perdemos para a fome uma criança a cada cinco segundos – um número inaceitável. No entanto, estamos agora em um ponto da história em que temos ciência e tecnologia para alimentar a todos na Terra. Espero aumentar a conscientização de como isso pode ser alcançado, bem como agradecer profundamente aos cidadãos de muitos países que tanto contribuem para a luta contra a fome. P: Qual é o envolvimento do Programa Mundial de Alimentação no combate à fome? Sheeran: O Programa Mundial de Alimentação alimenta cerca de metade das pessoas que recebem assistência alimentar, geralmente nos lugares mais difíceis e remotos da Terra. Essa é a nossa missão. Durante muitas décadas, construímos uma imensa capacidade logística que, de tão eficiente, tornou-se o principal braço humanitário da ONU para logística – não apenas para alimentação, mas também medicamentos, barracas, cobertores, o que quer que as pessoas necessitem em situações de emergência. Mas mesmo com um orçamento anual de quase US$ 3 bilhões e milhares de navios, aeronaves e veículos entregando alimentos todos os dias, estamos atingindo apenas 10% das pessoas com fome no mundo. Assim, ainda perdemos 25 mil pessoas por dia devido a causas relacionadas com a fome – o problema de saúde pública número um no mundo, que mata mais pessoas do que TB [tuberculose], malária e Aids juntas. Devemos simplesmente intensificar tudo o que estamos fazendo para ultrapassar a curva da fome. P: Quais são os maiores desafios do PMA em sua opinião? Sheeran: Muitas coisas estão acontecendo. Temos o que chamamos de "tripla ameaça": Aids, pobreza e capacidade fraca de governo – em especial na África Austral – que dificulta a ultrapassagem da curva da fome. Temos também o que poderia ser uma “perfeita tempestade” se formando entre mudança climática, aumento dos custos operacionais e as demandas acrescentadas pelos biocombustíveis ao sistema global de alimentação. Durante os últimos cinco anos no Programa Mundial de Alimentação, vimos os custos da compra de commodities básicas subirem cerca de 50%. Isso se deve a uma combinação de fatores: aumento da demanda global por grãos que – juntamente com o advento dos biocombustíveis – puxou para cima os preços das commodities, bem como a escalada dos custos de combustíveis e transporte. Dessa forma, mesmo que o PMA mantenha o mesmo orçamento ou outro ligeiramente maior, ainda assim estamos alimentando muito menos pessoas. O preço dos alimentos em alta também significa que os mais pobres do mundo estão tendo maior dificuldade com a alimentação no âmbito da família. P: Qual é o impacto dos biocombustíveis? E da mudança climática? Sheeran: Os biocombustíveis representam uma oportunidade significativa para os agricultores pobres, mas também um desafio para as populações famintas, porque os mercados de grãos estão mais difíceis e os preços dos alimentos estão mais altos do que nas últimas décadas. Com a mudança climática, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [grupo de consenso internacional que reflete o trabalho de centenas de cientistas] prevê que, em algumas áreas, a produção agrícola dependente de chuvas diminuirá pela metade até 2020. E, na África, nossa agência-irmã da ONU, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura [FAO], estima que 95% da agricultura é dependente de chuvas. Mesmo que essas previsões não se concretizem completamente, ainda podemos ter grandes desafios pela frente em regiões como a África, que será atingida com mais rigor pela mudança climática – onde as áreas secas se tornarão mais secas e as áreas úmidas, mais úmidas.
P: Quais são os obstáculos políticos para vencer a fome no mundo? Sheeran: Tem de haver vontade política para se obter sucesso em todos os níveis – das aldeias às províncias, em nível nacional e além. P: Você está falando de países beneficiários ou doadores? Sheeran: Estou falando de todos eles, porque todos têm interesse nessa batalha. Para citar um exemplo positivo, sabemos que a Nova Parceria para o Desenvolvimento da África (Nepad), na África, trabalhou com afinco com a União Africana para fazer da agricultura e do combate à fome prioridades máximas para os países africanos. Isso inclui o compromisso de destinar 10% do investimento para a agricultura. Sabemos que a única forma de vencer a pobreza e a fome – na Suazilândia, na Irlanda ou nos Estados Unidos de muitos anos atrás – é descobrir como lidar com as dificuldades do agricultor pobre. Nos países que descobriram isso, vemos desenvolvimento e ganhos econômicos. E vemos a fome extrema e crônica tornar-se coisa do passado. Muitos países quebraram os grilhões da fome, mas faz-se necessária ação conjunta e, quase sempre, ajuda externa com tecnologia e conhecimento e, algumas vezes, investimento. P: Como está o avanço global em relação às Metas de Desenvolvimento do Milênio [MDMs] de diminuir pela metade a proporção de pobreza e fome até 2015? Sheeran: Alguns países, inclusive o Chile, já alcançaram a primeira MDM de cortar a pobreza e a fome pela metade, enquanto Gana e Brasil estão próximos disso. No entanto, como comunidade global, ainda não estamos a caminho de conseguir alcançar as MDMs. O que é revolucionário sobre as MDMs é que finalmente conseguimos que todos os líderes mundiais se sentassem e concordassem com um conjunto limitado de prioridades para eliminar as piores disparidades relativas a pobreza, fome, saúde, educação, etc. Fóruns como o G-8 produziram planos de ação práticos para alcançar essas metas, algo que apoio firmemente. Vencer a fome no mundo é uma enorme e esmagadora missão para a maioria das pessoas. Devemos encontrar formas de tornar isso viável gradativamente. P: O que precisa acontecer? Sheeran: A coisa mais importante na luta contra a fome é quebrar o seu ciclo, que passa de geração a geração. Foi documentado em vários países que mulheres famintas dão à luz crianças desnutridas, uma “fome herdada” que pode persistir por gerações. Então, parte do que estamos tentando fazer no Programa Mundial de Alimentação é cortar esse ciclo de fome diretamente na raiz. Se pudermos quebrar esse ciclo de fome, as comunidades terão a chance de quebrar o ciclo da pobreza. Essas coisas são completamente interligadas. Se uma criança é deficitária fisicamente pela desnutrição, seu cérebro também será subdesenvolvido. Imagine as implicações para o desenvolvimento econômico em países onde a taxa de déficit entre as crianças excede os 50%! Precisamos cortar a fome pela raiz – em crianças pequenas e mulheres grávidas – e, no próximo estágio, tentar levar as crianças à escola. Uma coisa que eu realmente analisei é o efeito incrivelmente poderoso da merenda escolar. Quando as crianças recebem pelo menos uma refeição na escola, todos os outros ganhos sociais acontecem: as taxas de matrícula, em especial entre meninas, aumentam; a freqüência e o desempenho escolar melhoram. A educação também provou ter um forte efeito atenuante contra a infecção por HIV. Essas metas não são inatingíveis. Também estou esperançosa porque as ciências – a ciência das sementes, a ciência do solo e a ciência da embalagem e do transporte de alimentos de forma segura e eficiente – têm agora o potencial para que o mundo esteja apto a atender às necessidades alimentares de todos os cidadãos da Terra. E acredito que juntamente com esses desafios esteja também o potencial para acabar com a fome de forma a corresponder à visão de pessoas como Norman Borlaug e outras que fizeram parte da Revolução Verde, que salvou tantos milhões de vidas na Ásia e em outros lugares. Sabemos que isso pode acontecer porque já vimos acontecer. P: Alguma coisa a acrescentar? Sheeran: Penso que os americanos devem realmente se orgulhar de suas contribuições de várias décadas para o combate à fome. O governo dos EUA não é apenas o doador mais generoso do Programa Mundial de Alimentação, como também alimenta quase metade das populações famintas por meio de ajuda externa a cada ano. O Escritório do Programa Alimentos para a Paz da USAID [Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional] literalmente liderou o caminho desde sua criação por Eisenhower [Dwight Eisenhower, presidente dos EUA] na década de 1950 e sua ampliação pelo presidente [John] Kennedy na década de 1960. O programa Alimentos para a Paz é agora a espinha dorsal da luta contra a fome em âmbito global. As opiniões expressas nesta entrevista não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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