Para Acabar com a Doença e a PobrezaEntrevista com Lee Hall e Peter J. Hotez
| ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|
Pergunta: Dr. Hotez, o senhor se referiu a essas doenças como “doenças bíblicas”. O que esse nome sugere sobre a longa história desses males e com que gravidade assolaram a raça humana? Hotez: As “doenças bíblicas” englobam um conjunto de enfermidades tropicais às vezes conhecidas como doenças tropicais negligenciadas. É um grupo de 13 infecções principais crônicas e incapacitantes por natureza que ocorrem quase exclusivamente entre as pessoas mais pobres do mundo. Dos 2,7 bilhões de pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia, aproximadamente metade sofre de uma ou mais dessas doenças. Suas características comuns são seu caráter incapacitante e o enorme impacto sobre o crescimento e o desenvolvimento das crianças, sobre a gravidez e o parto e sobre a produtividade e a capacidade dos trabalhadores. Devido a essas características e sua natureza crônica e incapacitante, elas mantêm as populações mais pobres mergulhadas na pobreza. As próprias doenças promovem a pobreza. Elas constituem um grupo de enfermidades que atinge os homens desde tempos imemoriais. Encontram-se descrições detalhadas dessas doenças tropicais negligenciadas em textos antigos como a Bíblia, o Talmude, o Bhagavad-Gita, as obras de Hipócrates e os papiros egípcios. Às vezes são chamadas de doenças bíblicas devido a seu caráter muito antigo. Portanto, observando-se as doenças tropicais negligenciadas em conjunto, elas são tão importantes quanto a Aids, a malária e a tuberculose. Agora temos uma grande oportunidade de tomar alguma atitude drástica em relação a elas. P: Dr. Hall, por que não foi dada muita atenção ao desenvolvimento de vacinas para esses males no passado? E como o senhor encara a mudança dessa situação? Hall: Houve muito interesse em intervir nessas doenças por um longo tempo, mas esse interesse diminuiu. No início do século 20, quando forças militares do Ocidente estavam instaladas nessas regiões do mundo, havia realmente bastante interesse. Então, quando essas forças militares foram retiradas, o interesse começou a desvanecer. Durante as últimas décadas, ocorreu uma mudança completa na tecnologia, na biotecnologia e no modo de tratar essas doenças. Normalmente, elas são causadas por organismos bem mais complexos do que muitas outras doenças virais e bacterianas de que nos lembramos. Com tecnologias mais novas, estamos em posição de conhecer melhor o mecanismo dessas doenças e começar a desenvolver novas intervenções. Outro fator primordial que mudou foi o nosso reconhecimento da interconexão mundial. Como disse Peter, as áreas onde essas doenças predominavam eram as mais pobres. Seus habitantes não tinham a capacidade de traduzir essa necessidade médica não atendida em alguma espécie de demanda a ser reconhecida pela indústria farmacêutica e capitalizada para produzir novas intervenções. Isso agora está mudando, e percebemos que essas doenças são o produto da pobreza e contribuem para ela. À medida que novas tecnologias colocam à nossa disposição novas ferramentas, podemos realmente interromper esse ciclo de doenças intervindo onde for mais necessário. Hotez: Um dos grandes desafios que devemos enfrentar agora é o fato de nossa tecnologia ter, de algum modo, avançado mais que nossa capacidade de distribuir os produtos às pessoas deles necessitadas. Como criamos uma empresa para fabricar um produto cujo preço é inacessível para pessoas que vivem com menos de US$ 2 por dia? Não se pode esperar que uma organização que visa lucro e é responsável perante seus acionistas lidere a fabricação dessas vacinas.
Uma das formas de superar esse desafio é o trabalho que realizamos com os Institutos Nacionais de Saúde e a Fundação Bill e Melinda Gates para criar novas organizações sem fins lucrativos para fabricar essas vacinas. Estamos vendo um novo modelo pelo qual as vacinas serão produzidas não somente por grandes companhias farmacêuticas, mas também por uma nova entidade criada por nós — às vezes conhecida como PDPs ou Parcerias para o Desenvolvimento de Produtos —, que vai liderar a fabricação de vacinas para enfermidades como oncocercose ou esquistossomose. Essa iniciativa vai ajudar a revolucionar toda a tecnologia maravilhosa que os Institutos Nacionais de Saúde financiaram durante as duas últimas décadas. Agora essa tecnologia será utilizada na fabricação dessa nova geração de produtos. P: A epidemia de Aids também tornou a comunidade de doadores mais consciente da importância da saúde geral da população para a superação da pobreza e a manutenção da segurança nacional. O reconhecimento de que outras doenças tropicais também merecem atenção não aumentou pelo mesmo motivo? Hotez: Certamente. Existe essa relação fascinante, embora ainda não totalmente definida, entre saúde e segurança. Observando-se as nações do mundo que se envolveram em conflitos durante os últimos 20 anos, percebe-se que a grande maioria delas é assolada por doenças tropicais negligenciadas. Pense onde se encontraram as áreas mais afetadas nas duas últimas décadas. Foram lugares como Somália, Serra Leoa e Libéria. A característica comum entre eles são os altos índices de malária, doenças tropicais negligenciadas e HIV/Aids. Isso pode ser mais do que simples coincidência. Agora há oportunidade de usar a saúde e a prevenção como maneiras de reduzir conflitos e tensões nessas nações terrivelmente devastadas. P: Dr. Hall, vamos explorar mais os avanços em biotecnologia para tratar essas doenças. Onde está havendo avanços? Hall: Tomemos a malária, por exemplo. Sabemos que os três componentes necessários para manter o ciclo de vida do parasita são o próprio parasita, o mosquito vetor e o hospedeiro humano. Já realizamos o seqüenciamento completo dos genomas de todos os três. Isso nos permite estudar de modo muito mais preciso o ciclo total de vida em nível genômico e molecular. No momento estamos começando a adquirir o mesmo nível de conhecimento científico sobre várias dessas doenças.
Por exemplo, já realizamos o seqüenciamento completo dos genomas dos parasitas que causam a leishmaniose, a doença de Chagas e a tripanossomíase africana. Todos eles estão intimamente relacionados e, no entanto, têm certas características distintas. Agora podemos fazer estudos comparativos com eles e compreender melhor como os parasitas realmente funcionam e o que determina sua capacidade de causar doenças. Há grupos de pesquisa que estão seqüenciando os genomas dos vetores que transmitem alguns desses parasitas, como as espécies de mosca que transmitem a tripanossomíase africana humana, e em breve teremos também essas informações. Já seqüenciamos o genoma humano e conhecemos várias vias bioquímicas no hospedeiro humano. Por meio da comparação dos genomas e das vias bioquímicas entre o parasita e o hospedeiro humano, esperamos ser capazes de identificar as vias e os alvos exclusivos dos parasitas, não compartilhados pelo hospedeiro humano. Essas características únicas permitem identificar as pistas para novos medicamentos, diagnósticos e vacinas. Escolhi três parasitas protozoários como exemplo, mas já estamos chegando quase na mesma situação em relação a doenças causadas por vermes parasitários, como a filaríase [também conhecida como elefantíase], e à esquistossomose. P: Dr. Hotez, o senhor mencionou as várias parcerias que estão se formando para ajudar a atingir esses fins. Explique de que forma a cada vez mais sofisticada indústria farmacêutica do mundo em desenvolvimento também está contribuindo. Hotez: Uma das vantagens das Parcerias para o Desenvolvimento de Produtos é o fato de que elas incluirão realmente os chamados fabricantes de vacinas do setor público dos países em desenvolvimento. Dou um exemplo. Eu chefio uma organização chamada Iniciativa para o Desenvolvimento de Vacina contra o Ancilóstomo Humano, que faz parte de nossa Rede Global de Controle de Doenças Tropicais Negligenciadas [http://www.GNNTDC.org] e está sendo desenvolvida no Instituto de Vacinas Sabin. É uma Parceria para o Desenvolvimento de Produtos com a meta de produzir uma nova vacina com antígenos recombinantes contra a infecção por ancilóstomo humano, doença que atinge 576 milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento. Em Washington, D.C., conseguimos fabricar vacina em quantidade para a fase inicial de estudos clínicos em andamento no Brasil. O problema é a limitação da quantidade que pode ser produzida em nossos laboratórios pela PDP aqui de Washington, certamente não o suficiente para vacinar toda a população do Brasil ou das Américas. Assim, agora fizemos parceria com uma organização conhecida como Instituto Butantan, que produz 86% das vacinas do Brasil, inclusive sua própria vacina recombinante contra hepatite B. Portanto, agora nossos cientistas estão trabalhando em colaboração com esse fabricante de vacinas do setor público do Brasil. Eles vêm aqui; e nós vamos até lá e transferimos nossa tecnologia para que eles possam produzir em escala para todas as Américas. Esperamos ansiosamente pela oportunidade de trabalhar com fabricantes de vacinas do setor público desses países de média e baixa renda que também padecem de doenças tropicais endêmicas e têm grandes bolsões de pobreza e que mesmo assim conseguiram de alguma forma superar a pobreza e atingir certo nível de inovação a ponto de fazerem suas próprias vacinas. Chamamos esses países de IDCs (Innovative Developing Countries ou Países em Desenvolvimento Inovadores), países de média e baixa renda que deram um passo à frente para aplicar a biotecnologia de forma bastante sofisticada. Entre eles estão Brasil, China, Indonésia, Índia, Tailândia e Malásia, e acreditamos que eles e seus fabricantes de vacinas do setor público poderiam liderar a fabricação de toda uma geração de produtos para o mundo em desenvolvimento. P: Essa tendência foi impulsionada até certo ponto pela epidemia de Aids nesses países. Dr. Hall, quais são as recentes descobertas sobre a interrelação biológica dessas doenças com a Aids? Hall: Há muitos estudos em andamento tentando definir essa relação e ver como essas doenças poderiam afetar umas às outras, se o HIV as torna mais graves e se essas doenças realmente contribuem para agravar o HIV. Não definimos essa relação com a precisão esperada, mas a base de nossos conhecimentos nessa área está se expandindo rapidamente. Hotez: Em 2006, foram publicados dois trabalhos muito interessantes em AIDS, uma das principais publicações sobre HIV/Aids. Um deles enfocava mulheres do Zimbábue com esquistossomose, uma infecção por vermes, e mostrava que grande porcentagem dessas mulheres — até 75% — tinha lesões resultantes da presença desses vermes parasitários. Como conseqüência, elas correm três vezes mais risco de adquirir o HIV. E se pudéssemos distribuir medicamentos para infecções por vermes parasitários junto com medicamentos para HIV/Aids? Uma vantagem desses medicamentos contra vermes parasitários é o fato de serem baratos, menos de 20 centavos de dólar a dose, e poder ser distribuídos com bastante facilidade para grandes populações. Por isso lançamos essa Rede Global de Controle de Doenças Tropicais Negligenciadas: para descobrir meios de administrar esses medicamentos antiparasitários para grandes populações. Acreditamos que o tratamento dessas infecções por vermes em toda a África Subsaariana trará claros e enormes benefícios para a saúde ao curar as doenças causadas pelos vermes, mas também terá um impacto secundário: a redução evidente da transmissão do HIV/Aids. Mediante acréscimo de 20, 30, 40 ou 50 centavos de dólar às centenas de dólares gastos a cada ano por pessoa com terapia anti-retroviral em grandes programas de tratamento contra a Aids, como o Programa de Emergência do presidente para Combate à Aids, poderíamos dobrar seu impacto. Mas os estudos ainda estão em estágio inicial. P: Dr. Hall, o dr. Hotez mencionou que existem medicamentos bem baratos para tratar de muitos desse males; mas por que as vacinas parecem ser preferíveis mesmo quando existem os medicamentos? Hall: Há vários motivos. Em primeiro lugar, para algumas doenças seria muito difícil produzir vacinas, mesmo com muita tecnologia. Os próprios parasitas são imunologistas fantásticos e desenvolveram formas de escapar à resposta imune, e fazem isso há mais tempo do que imaginamos, portanto é um verdadeiro desafio. Em outras situações, quando podemos fabricar vacinas, assim o fazemos porque gostaríamos de evitar a doença em vez de tratá-la. A patologia dessas doenças é realmente cumulativa, pois ocorre com o passar do tempo, seja ela a esquistossomose, a filaríase ou algumas dessas outras doenças. Há uma escalada gradual da doença, e os tratamentos de uma doença avançada não reverterão necessariamente essa patologia. Gostaríamos de tratar as pessoas a tempo de prevenir a doença e impedir seu surgimento. Hotez: Eu concordo, e na Rede Global o que acreditamos ser importante para ter avanços no combate às doenças tropicais não é a escolha entre medicamentos e vacinas, mas na verdade a necessidade de unir essas duas opções em um programa bem coordenado e controlado. P: Para concluir, há algum empreendimento especial nesse campo indicado pelo senhor como o mais promissor a ser aplicado no curto prazo? Hall: Deve-se encarar as pesquisas como um empreendimento em longo prazo. O ritmo da pesquisa está se acelerando como resultado do êxito com o seqüenciamento do genoma e várias atividades pós-genoma. É aí que realmente veremos grande progresso em futuro próximo. Além disso, diversas vacinas experimentais já começaram a ser desenvolvidas clinicamente. Peter mencionou a Iniciativa para o Desenvolvimento de Vacina contra o Ancilóstomo Humano. Atualmente também estão sendo desenvolvidas vacinas contra a esquistossomose e a leishmaniose. Isso é muito animador. Estamos em um ponto fantástico da pesquisa em que as atividades avançam nessa área e começam a se acelerar graças à tecnologia. Hotez: Temos uma grande oportunidade agora de controlar a morbidade [a incidência da doença] das sete doenças tropicais negligenciadas mais prevalentes — ascaríase, ancilostomíase, tricuríase, esquistossomose, filaríase linfática, oncocercose e tracoma — por meio de um programa de controle integrado que emprega medicamentos doados e genéricos . O maior controle dessas sete enfermidades poderia causar enorme impacto sobre essas co-infecções que ocorrem entre as populações mais pobres da África Subsaariana, do Sudeste Asiático e das Américas. Como conseqüência do uso disseminado desses medicamentos, assistiremos a ganhos dramáticos em saúde, educação e desenvolvimento econômico e, possivelmente, até mesmo em biossegurança. Um dos projetos da Rede Global de Controle de DTNs é a distribuição de um pacote de medicamentos de impacto rápido. Com esse pacote de medicamentos, que trata de forma comprovada, segura e barata essas enfermidades, poderíamos afinal reduzir a morbidade ou controlar as sete doenças tropicais negligenciadas mais comuns. Além disso, para duas das DTNs — filaríase linfática e tracoma — poderíamos até mesmo interromper sua transmissão e eliminá-las dos problemas de saúde pública. Portanto, enquanto administramos de forma ampla o pacote de impacto rápido, queremos concentrar nossos esforços na pesquisa e desenvolvimento de novas vacinas para as outras doenças que queremos erradicar — ancilostomíase, esquistossomose, leishmaniose e úlcera de Buruli — e algumas das outras doenças tropicais negligenciadas importantes.
As opiniões expressas nesta entrevista não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.
|
||||||