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O desenvolvimento sustentável Questões globais


Conservação da Diversidade Biológica,
Incentivo da Sustentabilidade no México e América Central

Elsa Chang, Diretora,
Projeto Corredor Biológico da América Central e do México,
Instituto de Recursos Mundiais

Projeto ambicioso para criar sustentabilidade ambiental e econômica sendo planejado na América Central. Os governos da região, organizações internacionais, organizações não governamentais e a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional estão contribuindo com o plano. Este artigo é baseado em um estudo abrangente da busca desse objetivo - "Defining Common Ground for the Mesoamerican Biological Corridor" (Definição de Campo Comum para o Corredor Biológico da América Central e do México) da Sra. Chang e seus associados Kenton Miller e Nels Johnson.


Por milhões de anos, a América Central e o México serviram de ponte do Hemisfério Ocidental, ligando a América do Norte e do Sul. Plantas e animais migraram através desse istmo ao longo dos milênios, resultando em enorme biodiversidade através dos muitos ecossistemas distintos que existem nesse cenário diverso.

Recifes de coral, gramados, florestas tropicais em planícies, florestas em montanhas e savanas de pinheiros são apenas algumas das eco-regiões identificadas pelos biogeógrafos na região da América Central e do México, que engloba os cinco estados meridionais do México e os países centro-americanos de Belize, Costa Rica, Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Panamá. Somente a pequena Belize é lar de mais de 150 espécies de mamíferos, 540 espécies de pássaros e 152 espécies de anfíbios e répteis. No Panamá, foram identificadas 929 espécies de pássaros, mais do que no Canadá e nos Estados Unidos juntos.

Essas terras também são lar de populações humanas que conheceram mais que sua parcela de miséria. Os conflitos civis na região, nas últimas décadas, trouxeram sofrimento humano, destruição material e de infra-estrutura, antigos e agravados problemas de ineqüidade social, subdesenvolvimento econômico e declínio ambiental. Atualmente, quase a metade da população permanece abaixo da linha da pobreza e muitos não têm acesso a cuidados básicos de saúde, educação e água limpa. O rápido crescimento populacional e a dependência econômica da agricultura resultaram na exploração insustentável dos recursos naturais, poluição aquática disseminada, erosão do solo e desflorestamento.

Apenas 10% das florestas originais da região permanecem, das quais a maior parte foi convertida em fazendas ou substituída por plantações de árvores. Cerca de 60% das 700 áreas protegidas existentes e propostas da região não são de mais de dez mil hectares, muito pequenas para que as espécies animais sustentem suas populações frente às mudanças ambientais.

A escala e a velocidade de perda e fragmentação do habitat em uma das áreas biologicamente mais ricas do mundo fizeram com que alguns conservacionistas considerassem a América Central e o México um "ponto importante" para a biodiversidade Os governos da região, nações doadoras e grupos de conservação domésticos e internacionais estão reagindo a essas tendências com uma série de iniciativas e abordagem regional integrada.

Mais notável e ambicioso é o Corredor Biológico da América Central e do México (MBC), iniciativa regional destinada a conservar a diversidade biológica e dos ecossistemas de maneira que incentive o desenvolvimento sócio-econômico sustentável. A visão para o MBC é ligar as áreas protegidas através de "corredores" de habitats naturais e restaurados que se estendem do sul do México ao Panamá, incorporando abordagem holística do relacionamento entre as terras selvagens e as que sofreram o impacto humano.

Em uma cúpula de 1977, os chefes de Estado regionais endossaram publicamente o MBC, comprometendo-se com o desenvolvimento de um sistema de planejamento do uso da terra que melhoraria as vidas dos centro-americanos, mantendo os serviços de ecossistemas e biodiversidade. Os objetivos do MBC são de (a) proteger locais fundamentais para a biodiversidade; (b) conectar esses locais a corredores administrados de forma a permitir o movimento e dispersão de animais e plantas; e (c) promover formas de desenvolvimento sócio-econômico nessas áreas que conservam a biodiversidade e em volta delas, sendo socialmente eqüitativas e culturalmente sensíveis.

A Comissão Centro-Americana sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CCAD) é responsável pela coordenação do planejamento regional e implementação do MBC. Este organismo regional foi criado em 1989, quando os presidentes regionais assinaram o Acordo Básico para a Proteção do Meio Ambiente, e incorpora uma visão unificada da cooperação ambiental regional.

O coração da iniciativa MBC é um esquema proposto que estabeleceria quatro categorias para uso da terra, com cada um abordando uma necessidade diferente:

  • As zonas centrais são áreas protegidas, em que são mantidos os habitats selvagens e a biodiversidade. A América Central e o México possuem grande número de áreas protegidas já em funcionamento que atuarão como zonas centrais do MBC, mas muitos deles necessitariam ter seu tamanho aumentado para proteger adequadamente uma região ecológica.

  • As zonas-tampão são as áreas em volta das zonas centrais, que servem para reduzir distúrbios para as zonas centrais de locais adjacentes de uso humano e vice-versa. Essas zonas criariam um espaço físico entre as áreas protegidas que contêm terras selvagens e áreas adjacentes a fazendas, florestas ceifadas e outros usos humanos.

  • As zonas de corredor proporcionariam caminhos para água ou terra que liguem as zonas centrais entre si, permitindo que plantas e animais dispersem-se, migrem e adaptem-se às pressões das mudanças de clima e condições de habitat.

  • Diversas zonas de uso fariam a distinção entre as terras selvagens e as áreas dedicadas à agricultura, florestas administradas e assentamentos humanos. Essas zonas poderão ser aplicadas de forma mais ampla para incentivar a diversidade das práticas de uso da terra, reconhecendo que a biodiversidade é melhor mantida com um mosaico de terras produtivas, florestas e pântanos.

Com financiamento e apoio de uma série de governos, organizações internacionais e organizações não-governamentais (ongs), CCAD está trabalhando para desenvolver planos operacionais e estratégia abrangente para coordenar e mobilizar as ações para o MBC. As organizações de apoio estão buscando independentemente uma série de projetos relevantes para os objetivos a longo prazo do MBC. A Conservação Natural, o Fundo Mundial para a Vida Selvagem e a Universidade de Rhode Island com sede nos Estados Unidos, por exemplo, estão concentrando-se na conservação e administração do sistema de Barreira de Recifes da América Central e do México, com financiamento da Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Na Costa Rica, o escritório nacional do MBC está coordenando esforços das ONGs para o estabelecimento de corredores biológicos que conectarão reservas indígenas, áreas protegidas, pântanos e regiões costeiras.

Na faixa de atividade mundial para atingir maior sustentabilidade, o MBC é particularmente significativo devido ao escopo e à complexidade de seus objetivos e a série de instituições e participantes sociais que envolve. Essas características imbuem o MBC com grandes promessas, mas também apresentam importantes desafios que necessitarão ser abordados para que a iniciativa tenha impacto positivo sobre a região.

Permanecem questões significativas entre os muitos povos da região que detêm interesses no futuro do MBC. O projeto cresceu para englobar preocupações de sustentabilidade econômica e eqüidade social, pois as propostas iniciais concentraram-se unicamente na preservação da biodiversidade, preocupando muitos grupos indígenas que temiam a expropriação das terras dos seus ancestrais e a expansão de áreas protegidas para o seu território. À medida que os objetivos se ampliam para atender a essas preocupações, entretanto, os conservacionistas passaram a preocupar-se com a tomada de problemas sócio-econômicos pelo MBC que este não pode aspirar a resolver, de forma a criar a possibilidade de expectativas irreais, uma série de desapontamentos e erosão do apoio.

O sucesso do MBC dependerá do desenvolvimento de visão regional compartilhada dos seus objetivos e funções; visão que reconhece as necessidades divergentes em questão e identifica o interesse comum compartilhado por todos os participantes regionais para atingirem sustentabilidade ecológica e sócio-econômica. A capacidade de estabelecimento de confiança e segurança entre os diversos participantes do MBC determinará o seu destino.

Análise de três anos do andamento da iniciativa conduzida por este autor e um conjunto de outros participantes conclui que muito permanece a ser feito antes de atingir-se visão compartilhada dos objetivos do MBC. A consciência pública, o apoio local e o envolvimento das agências públicas e privadas permanecem limitados. Dentre os que são abordados pela iniciativa, moradores urbanos e rurais e outros grupos envolvidos freqüentemente possuem opiniões diferentes das agências envolvidas na implementação. Prevalece atitude de desconfiança e ceticismo devido à falta de clareza sobre os planos e propósitos e devido ao limitado acesso do público à informação.

Nossa análise conclui que o destino do Corredor Biológico da América Central e do México depende da disposição dos governos, sociedade civil e do setor privado para serem mais participativos e responsáveis. Ele também dependerá da capacidade de resolução dos conflitos existentes sobre direitos de propriedade e posse da terra e devolução da tomada de decisões das agências do governo central para os grupos locais. Devido à sua vasta faixa geográfica e ao envolvimento de tantos participantes, o estabelecimento do corredor exigirá abordagem "de baixo para cima". Aos moradores locais, deve-se conceder papéis no planejamento e administração das diversas zonas do corredor, para obter seu apoio e aceitação desse ambicioso compromisso regional.

O MBC encontra-se agora em limite crítico entre o conceito e a realidade. Sua visão não se realizará, a menos que a maior parte das pessoas da região compreenda o propósito do MBC e comprometa-se com seus propósitos e objetivos.


O Instituto de Recursos Mundiais ( http://www.wri.org/wri) é uma organização de análise e pesquisa ambiental que também trabalha para criar formas práticas de proteção da Terra e melhoria da vida das pessoas.

As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, as opiniões ou políticas do governo dos Estados Unidos.