Oceanos Compartilhados, Futuro Comum
Questões Globais, abril de 2004
Viveiros MarinhosColin Woodard A aqüicultura marinha é uma experiência internacional em desenvolvimento, perturbada por controvérsias ambientais há uma década. Agora, finalmente, essa tecnologia parece estar prestes a se tornar sustentável. Deixadas na areia, as gaiolas de salmão utilizadas no setor de aqüicultura de Passamaquoddy Bay assemelham-se a uma frota de delicadas espaçonaves de alienígenas aguardando reparo. Meia dúzia de enormes flutuadores em formato de anel — cada um deles com seis metros de diâmetro — esparrama-se pelas praias seixosas de Deer Island em New Brunswick, Canadá, uma comunidade pobre que vive no centro da baía. Quando terminam os reparos e suas redes são presas novamente, as gaiolas marinhas flutuantes se reúnem a centenas de outras, ancoradas nas costas dessa baía de águas limpas na fronteira EUA-Canadá. Trazem suas redes cheias de salmão do Atlântico destinado às mesas dos norte-americanos. Mas as gaiolas são lançadas em águas agitadas por controvérsias sobre o possível impacto ambiental do setor de aqüicultura marinha. Em termos globais, a aqüicultura marinha cresceu mais que o dobro na última década, ao passo que a aqüicultura em geral responde atualmente por mais de 30% do abastecimento de peixe do mundo, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, com sede em Roma. Salmão, camarão e mexilhão criados por empresas de aqüicultura agora estão mais baratos na maioria dos mercados do que as mesmas espécies capturadas na natureza, e os pesquisadores dizem que o mesmo se aplicará ao bacalhau, ao halibut e ao vermelho em futuro não muito distante. Mas esse setor também vem sofrendo as dores do crescimento, a maioria delas associada à criação de camarão e salmão, duas das espécies mais lucrativas. Os tanques de criação de camarão na Ásia foram implicados na destruição dos manguezais, importantes berçários naturais de muitas criaturas marinhas. Os espécimes que escapam dos viveiros de salmão dos EUA e do Canadá contribuem para o declínio do salmão do Atlântico na natureza, onde os estoques naturais estão sobreexplotados e próximos da extinção. Os dois setores sofreram enormes perdas decorrentes de surtos de doenças como a anemia infecciosa do salmão e a síndrome de Taura do camarão. Impactos ambientais “Alguns tipos de aqüicultura exercem impactos mínimos ou até positivos sobre o meio ambiente, porém, assim como na agricultura terrestre, há alguns tipos de cultura que causam sérios problemas”, diz Rebecca Goldburg, cientista sênior da Defesa Ambiental [Environmental Defense], organização não-governamental de Nova York, e autora de vários relatórios sobre esse setor. A grande maioria do setor de aqüicultura mundial pratica sua atividade com pouco impacto sobre o ambiente. Carpas de água doce, bagres e tilápias alimentam-se de plantas e normalmente são criados em tanques especiais onde ajudam a transformar resíduos orgânicos potencialmente prejudiciais em carne comestível de peixe. Moluscos como mexilhões, vieiras e ostras filtram as algas e o plâncton da água do mar, reduzindo o risco de florescências de algas que se desprendem e consomem todo o oxigênio, desencadeando a formação de “zonas mortas”. Mas a criação de outras espécies — particularmente camarão e peixes carnívoros como o salmão — pode ser extremamente destrutiva, como os habitantes do Maine e de New Brunswick aprenderam em primeira mão. A área de Passamaquoddy Bay, com suas marés de seis metros, água limpa e litoral pouco desenvolvido, tornou-se o epicentro da indústria de salmão do Atlântico na América do Norte. Iniciando com uma única gaiola experimental em Deer Island em 1978, o setor ampliou-se para 125 viveiros de salmão, com vendas anuais perto de US$ 100 milhões em 2000. Emprega atualmente várias centenas de pessoas nos dois lados da fronteira e, na parte mais a leste do Maine, paga em média ao trabalhador US$ 39 mil ao ano, mais de duas vezes a renda média de lá. Mas há também surtos freqüentes de doenças e parasitas em gaiolas muito cheias, cada uma delas com dezenas de milhares de peixes. Surtos de anemia infecciosa do salmão forçaram a matança de 1,2 milhão de peixes em 1998 e de 2,3 milhões em 2002. Os fazendeiros tentaram manter os peixes saudáveis alimentando-os ou banhando-os com antibióticos e pesticidas, mas ficou comprovado em laboratório que alguns deles tinham efeito tóxico para lagostas e outras espécies marinhas. Estudos realizados pela Federação do Salmão do Atlântico [Atlantic Salmon Federation] — um antigo defensor do setor — mostraram que a proporção de salmão criado em viveiros nos cursos d’ água naturais locais aumentou de 5,5% em 1983 para 90% em 1990. O salmão criado em viveiro pode ter vantagens competitivas em relação a seus parentes criados livremente, mas não está adaptado geneticamente para viajar rio acima para se acasalar e assim não se reproduz e não repõe os estoques. Como mais uma evidência de que a aqüicultura estava rompendo o equilíbrio ecológico, os moradores culparam os viveiros de peixes pelo aumento do crescimento de algas detectado no litoral, reclamando que as fezes e os alimentos que sobram e caem das gaiolas estavam causando as florescências de algas. Quando o setor tentou se expandir pela costa do Maine, algumas comunidades locais se rebelaram, recusando-se a conceder licenças por medo da poluição. Resolução dos problemas No entanto, de modo geral, o setor de aqüicultura está começando a se livrar de muitos problemas, diz Leroy Creswell, pesquisador de aqüicultura do Escritório do Sea Grant na Universidade da Flórida e antigo presidente da Sociedade de Aqüicultura Mundial. “A aqüicultura vem pagando pelos pecados da agricultura terrestre por estar ser conduzida segundo normas bem mais severas”, afirma. “Mas a intenção do setor de aqüicultura é ser sustentável e oferecer produtos de alta qualidade sem provocar poluição.” A Noruega, que foi pioneira na criação de salmão no final da década de 1960, conseguiu resolver muitos dos problemas que afligem os criadores dos Estados Unidos, Canadá e Chile, explica Ole Torrissen, diretor associado do Instituto de Pesquisa Marinha [Institute for Marine Research] em Bergen. Antes de serem colocados nas gaiolas, todos os peixes são vacinados, praticamente eliminando a necessidade de antibióticos. Em conseqüência, a quantidade de antibióticos usada nos viveiros de salmão e truta da Noruega diminuiu de 50 mil quilos em 1987 para menos de 500 quilos atualmente, embora a produção tenha aumentado mais de dez vezes. A atenção redobrada com as correntes nos locais de viveiros eliminou os problemas de poluição por nutrientes. As correntes carregam as fezes e os resíduos que caem fora dos viveiros, mantendo assim as concentrações em níveis aceitáveis. O setor de aqüicultura da Noruega também faz uso de rações de modo mais eficiente do que os setores de avicultura e suinocultura na Europa. “Sem dúvida alguma, a criação de salmão representa definitivamente a produção de carne mais sustentável que se tem na Europa”, declara Torrissen, embora observe que o problema dos salmões que escapam dos viveiros ainda não tenha sido resolvido. Marius Holm, pesquisador da Fundação Bellona, o grupo ambiental mais influente da Noruega, concorda. “Se você comparar a produção de salmão com a de outras carnes, verá que não é nada mal”, diz ele, sentado em uma sala de imprensa na sede da fundação em Oslo. A Noruega definiu “o rumo que os viveiros de salmão deverão tomar em outras partes do mundo”. Enquanto isso, os criadores da Noruega estão se voltando para o bacalhau, peixe cuja população foi dizimada pela sobrepesca em muitas partes do mundo. O primeiro viveiro comercial de bacalhau foi aberto no ano passado, estocando cinco milhões de filhotes. Segundo Torrissen, no ano que vem o setor espera fazer a pesca, colocando entre 10 mil e 20 mil toneladas métricas de bacalhau no mercado. Nos Estados Unidos e no Canadá, os pesquisadores dizem que estão prestes a tornar comercialmente viável a criação de bacalhau, halibut, linguado e outras espécies. Nova tecnologia Mas, de acordo com Leroy Creswell, se o setor de aqüicultura marinha dos EUA quiser crescer, terá que se afastar da beira do mar. “A menos que se trate de criação de moluscos, vai ser quase impossível conseguir licença para criar peixes ao longo da costa”, afirma, observando a resistência com que os donos de propriedades costeiras, pescadores, barqueiros e ambientalistas recebem essas propostas. A solução, segundo ele, é partir para a criação de viveiros em terra ou em alto mar. Na Flórida — onde os altos custos das propriedades tornam proibitivos os tanques de criação de camarão — alguns criadores de camarão seguiram a orientação dos aqüicultores de água doce e mudaram-se para o interior. O camarão branco do Pacífico, afirma Creswell, atualmente é criado em águas doces ricas em minerais, bombeadas de aqüíferos profundos do interior da Flórida, com sistemas intensivos de recirculação. “O lançamento de dejetos é nulo e o custo da produção, muito mais baixo”, diz. O principal obstáculo para a expansão terrestre do setor nos Estados Unidos é a economia competitiva. As empresas de aqüicultura dos EUA poderão produzir peixes com preços competitivos em relação às importações baratas da China e de outros países asiáticos, em que as normas ambientais são permissivas e os custos trabalhistas, baixos? Fora o camarão, futuramente a maioria das espécies marinhas poderá ser criada em gaiolas submersas no oceano e ancoradas em águas federais a vários quilômetros da terra. A nova tecnologia para projeto de gaiolas — que foi aperfeiçoada em grande parte por pesquisadores da Universidade de New Hampshire [UNH] — permite que peixes e moluscos sejam criados em gaiolas totalmente fechadas fundeadas a nove ou dez metros de profundidade, abaixo da atividade das ondas da superfície e dos cascos dos navios. Segundo os pesquisadores, estando elas presas em águas profundas com fortes correntes, os resíduos e outros poluentes dos viveiros marinhos não atingem concentrações prejudiciais, como acontece em baías e águas costeiras mais calmas, contribuindo para uma indústria mais sustentável. Acredita-se que as gaiolas, bem resistentes, sejam razoavelmente à prova de fuga e, cuidadas e monitoradas por meio de bóias de alimentação automática, parecem produzir bons resultados. “Até o momento, os projetos de demonstração que estão em andamento indicam que não há praticamente nenhum impacto ambiental a qualquer distância e que os resíduos não estão se acumulando abaixo dos redis”, afirma Linda Chaves, coordenadora de aqüicultura da Administração Nacional Oceanográfica e Atmosférica [National Oceanic and Atmospheric Administration — Noaa], que está elaborando um projeto de lei para permitir que o governo federal arrende locais para criação aos aqüicultores. “A criação de peixes em alto-mar parece realmente promissora.” Os pesquisadores da UNH envolvidos no Projeto de Aqüicultura em Mar Aberto [Open Ocean Aquaculture Project] vêm trabalhando com halibut, bacalhau, hadoque, linguado legítimo e mexilhão azul, com recursos da Noaa. Outros pesquisadores estão criando cobia em gaiolas submersas no mar de Porto Rico, enquanto um viveiro comercial do Havaí está comercializando um tipo de carpa do Pacífico criado em gaiolas em águas profundas que ficam à deriva nas correntes. Autoridades dos EUA esperam que os investimentos nas pesquisas sobre o alto-mar ajudem Washington a atingir a meta de ampliar cinco vezes a indústria da piscicultura dos EUA até 2025. O objetivo do Departamento de Comércio ao estabelecer essa meta é atender à demanda crescente por frutos do mar nas mesas dos norte-americanos, uma demanda que excede a capacidade da pesca de estoques selvagens. Continuam as preocupações Os ambientalistas continuam preocupados com a sustentabilidade de uma indústria que continua se concentrar em espécies carnívoras criadas em viveiros, que consomem alimentos constituídos, em parte, por peixes capturados na natureza. “Simplesmente não há peixe suficiente [nos mares] para triturar e produzir ração de peixe e óleo”, afirma Rebecca Goldburg da Defesa Ambiental. “E praticamente todos os peixes [utilizados para ração de aqüicultura] poderiam ser usados para consumo humano nos países em desenvolvimento... A aqüicultura é um consumidor líquido dos estoques selvagens.” É verdade que a indústria da maricultura concentra-se em espécies carnívoras relativamente caras — e lucrativas — como o camarão, o salmão e o bacalhau. Embora eles possam ser criados de modo mais eficiente que o gado ou os porcos, ainda são caros demais para os pobres do mundo. Como o salmão e o camarão criados em viveiros são alimentados com ração e óleos fabricados com peixes pequenos e comestíveis de cardumes como a cavala, o capelim, a sardinha e a anchova, os críticos chamam atenção para o fato de que os viveiros estão competindo com os pobres do mundo por essas espécies de alimento. A prática de alimentar espécies carnívoras com peixes menores também ocasionou uma preocupação com a saúde humana. Foi descoberto em estudos recentes que peixes criados em viveiros de algumas procedências apresentam concentrações mais altas de produtos químicos — alguns dos quais são provável ou reconhecidamente carcinogênicos, principalmente os bifenis policlorados, PCBs, presentes nos peixes criados livremente. É possível que os peixes criados em viveiros alimentados com peixes menores possam desenvolver uma concentração desses produtos químicos. Os órgãos reguladores do governo dos EUA sugeriram que as mulheres grávidas ou em fase de aleitamento limitem o consumo de certas espécies de peixes criados em viveiros. Além disso, sugeriram ainda que o consumo de produtos químicos suspeitos de serem prejudiciais pode ser reduzido se não se ingerir a pele ou a gordura desses peixes. É provável que em breve tenhamos mais pesquisas sobre o assunto em pauta. Quanto aos impactos ambientais da aqüicultura, Goldburgh concorda que os viveiros em alto-mar causam menor impacto do que seus correspondentes costeiros, mas mostra preocupação de que os viveiros em alto-mar possam ser construídos em tal escala que venham a ser ecologicamente prejudiciais. “Não há dúvida que o modelo de produção da aqüicultura em alto-mar será bastante parecido com a atual avicultura e suinocultura, em que se coloca grande quantidade de animais em um local onde recebem muita ração”, diz ela. “Será que, em última análise, vamos construir uma nova indústria de suinocultura [em escala industrial] há três milhas do litoral?” Linda Chaves da Noaa diz que não espera que a aqüicultura em alto-mar se torne um problema ambiental tão cedo. “Para produzir 600mil toneladas métricas de peixe precisaríamos de aproximadamente 250 quilômetros quadrados de área, o que não é muito se levarmos em consideração que temos milhões de quilômetros quadrados” disponíveis para uso em águas territoriais dos EUA, observa. “Mas se realmente aparecerem problemas ambientais, certamente serão levados em conta.” O jornalista Colin Woodard é o autor de Ocean’s End: Travels Through Endagered Seas and The Lobster Coast: Rebels, Rusticators, and the Struggle for a Forgotten Frontier. Vive em Portland, Maine, e mantém um site em http://www.colinwoodard.com/. Este artigo baseia-se em um levantamento de fatos e opiniões atuais e não reflete necessariamente a posição ou as políticas do governo dos EUA. |