Reduzir, Reutilizar, ReciclarEntrevista com Laurie Batchelder Adams e Jaime Lozano
|
|||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
Pergunta: Por que os governos locais estão achando que desviar o lixo de aterros sanitários é uma boa decisão? Batchelder Adams: Tudo começou em 1987 quando a vergonhosa barcaça Mobro deixou uma cidade do Estado de Nova York carregando mais de 3 mil toneladas de lixo. O barco vagou pela costa do Atlântico durante meses, sem conseguir encontrar uma comunidade disposta a receber essa enorme quantidade de lixo. Essa embarcação de lixo ambulante recebeu grande atenção da mídia, e a mensagem que o incidente deixou ao público americano foi que “não tínhamos mais aterros sanitários no país”. Muitos defensores da reciclagem aderiram a essa causa, mas a crise do lixo era apenas parte da verdade, já que não faltavam espaços naquela época − como não faltam hoje − para criação e manutenção de aterros sanitários. A reciclagem ganhou muita popularidade com esse episódio. Todo mundo reciclava. Uma onda de publicidade invadiu o país. A reciclagem passou a ser considerada uma das formas mais atraentes de gastar os dólares destinados a obras públicas. No início, houve muita reciclagem de tipo fácil. Uma grande quantidade de materiais fáceis podia ser recolhida e levada para reciclagem. A sociedade estava entusiasmada em participar. Lozano: A barcaça Mobro representou o momento da razão. De repente as pessoas começaram a olhar aquilo e pensar: “Oh, meu Deus, esse pode ser o nosso futuro?” Embora não exista mandato federal para programas de reciclagem e de alternativas para a destinação do lixo no âmbito estadual, os legislativos começaram a analisar como foram projetados seus programas de lixo e se eram coerentes. O Estado da Califórnia emitiu uma determinação a diversas jurisdições em âmbito municipal. O Projeto de Lei 939 da Assembléia Legislativa (Assembly Bill - A.B. 939) determinou que todas as cidades e condados reduzissem seu lixo em 25% até 1995 e em 50% até 2000. Essa meta foi fundamentada em estudos realizados em 1990 para estabelecer um ano base ou um ponto de partida para a futura redução do lixo. A lei dispunha que as cidades e condados que não conseguissem implementar esses programas poderiam ser multados em US$ 10 mil por dia retroativamente. Muita gente, em especial a comunidade ambientalista, apoiou esse projeto de lei. Parecia que todos haviam decidido que era importante participar da solução. P: As taxas de reciclagem atuais para materiais diferentes certamente variam muito. De acordo com os números da Agência de Proteção Ambiental, essas taxas são de 42% para papel, 55% para latas de alumínio e 60% para o aço. O que determina as diferentes taxas de reciclagem para os diversos tipos de material? Batchelder Adams: Também há subcategorias diferentes para cada tipo de material. Papelão é uma subcategoria do item papel. A taxa de reciclagem do papelão e de alguns papéis de alto valor está em torno de 70%. O programa básico de reciclagem por meio de coleta porta-a-porta recolhe cerca de 70% a 75% de papel, o resto do material recolhido são embalagens. A reciclagem de papel tem sucesso devido à quantidade relativamente grande de material recolhido. Existem também muitas indústrias de papel neste país e no exterior, de forma que temos consumidores finais em abundância querendo papel gerado nos programas de reciclagem. O mercado é forte. São muitas as pessoas que querem o produto e o preço é alto o bastante para que este seja um ramo relativamente lucrativo nos negócios. Esses fatores fazem da reciclagem de papel uma atividade benéfica para todos. O alumínio sempre foi um produto forte no mercado, mas hoje estamos vendo uma queda. Hoje em dia se faz menos embalagens de alumínio. Outros materiais estão assumindo essa fatia do mercado de embalagens, portanto, os programas de reciclagem também não estão produzindo tanto. Além disso, uma grande quantidade desse tipo de material está sendo usada longe de nossos lares, de forma que não entram em nossos programas de coleta domiciliar para reciclagem. Lozano: Isso é muito importante. Os materiais reciclados precisam ter mercado para que todo o processo de coleta, seleção, empacotamento e armazenamento compense. Portanto, se não tivermos mercados, ficaremos em uma situação muito difícil. Uma das coisas sobre as quais temos conversado é tentar injetar recursos na comunidade empresarial para que sejam criadas organizações que usem de fato material reciclado na confecção de novos produtos. Como disse a Laurie, existem indústrias de papel em número suficiente para comprar material reciclado. Isso significa que é praticamente certo que as comunidades terão mercado para o papel reciclado. Uma vez coletado, se não estiver contaminado, pode ser levado ao mercado. Mas e os diversos tipos de plástico? É possível que uma comunidade encontre compradores para todos os tipos de plástico usados no setor de embalagem? Se for para coletar todos os tipos de plástico, haverá mercado para todos eles ou ficarão encalhados? Essas são algumas coisas que a comunidade precisa começar a analisar. É preciso ter um consumidor final, e por isso é tão importante. Se você não compra reciclados, você não está reciclando. É preciso fechar o círculo.
P: Os industriais e a comunidade empresarial estão vendo esta disponibilidade de material e apresentando novas idéias sobre o que fazer com ele? Lozano: Sem dúvida. Estamos vendo diversos setores declararem que querem usar materiais diferentes para fazer novos produtos. O que é fantástico é que esses empreendimentos estão gerando empregos. Empregam-se catadores ou coletores de lixo particulares na cidade. Empregam-se pessoas para selecionar, lavar e secar os materiais. E depois um número maior de pessoas é empregado na empresa que vai realmente pegar esse material e produzir novos artigos. Eles confeccionam novas garrafas ou madeira plástica. Eles fazem fios para serem usados em calças ou jaquetas, coisas assim. P: Sra. Adams, quais os usos mais inovadores e estimulantes que a senhora viu serem desenvolvidos nos últimos anos para materiais reciclados? Batchelder Adams: Esses mencionados pelo Jaime são fabulosos. Temos visto uma evolução lenta, mas extremamente necessária em produtos de vidro. Os programas comunitários de reciclagem neste país estão na verdade enfrentando uma batalha com o vidro. Isso se torna um grande problema para os programas locais porque o vidro é muito pesado e de caro manejo em relação aos outros materiais. Algumas comunidades estão eliminando o vidro de seus programas. Para as comunidades rurais onde tenho trabalhado muito, e para os países que estão iniciando seus programas, o desenvolvimento de mercado é o fator mais importante. Áreas com densidade populacional mais baixa enfrentam duas sérias dificuldades. Uma delas é a baixa tonelagem das coletas, o que encarece o custo por unidade coletada. A segunda é que essas comunidades são bastante isoladas em termos geográficos. Elas estão longe de qualquer mercado e o custo para transportar o material até o comprador absorverá qualquer lucro possível. Diante desses problemas, é fundamental que essas comunidades consigam desenvolver mercados locais, ao menos para os materiais reciclados de baixo valor, como papéis ou vidros de baixa qualidade, como já disse. Materiais de valor mais alto – papelão, jornal, papel de escritório, aço – permitem a prática de preços mais elevados que cobrem os altos custos do transporte e ainda são lucrativos. O mercado internacional para materiais reciclados é promissor. Diversos países em desenvolvimento estão comprando reciclados dos EUA, mas a China é o maior mercado. Os chineses estão comprando todo o material secundário deste país e os mercados finais dos EUA estão sendo prejudicados pela concorrência de preços criada por essa tendência. Estamos perdendo consumidores finais aqui, como por exemplo, as indústrias de papel. Elas estão fechando porque não agüentam concorrer com as exportações para a China. Se os processadores de materiais secundários nos Estados Unidos fecharem, chegará o dia em que não teremos capacidade interna suficiente para usar material reciclado. P: Os governos locais nunca se envolveram muito com o manejo e coleta de matérias-primas e atividades do gênero. Descobrir como organizar esses programas, como administrar algo de caráter tão empresarial como a reciclagem tem sido um grande salto de aprendizagem para os governos locais? Lozano: Acho que sim. Eu mesmo venho do setor privado e aprendi com os negócios que evitar custos é um fator importante para uma história empresarial de sucesso. Em 1995, fui chamado pela prefeitura de Carson, na Califórnia, para desenvolver o programa de reciclagem logo depois que a A.B. 939 entrou em vigor. Aprendi com essa experiência que as pessoas que trabalham nesses programas de redução de lixo precisam se informar sobre como funciona uma empresa e começar a perceber o que pode ser feito para que as empresas de sua comunidade participem da solução. Batchelder Adams: Os governos municipais, em geral, não podem se dar ao luxo de ter pessoal com conhecimento de mercado. Eles não têm tempo para compreender a dinâmica do mercado. Geralmente contratam terceiros para processar e vender o material reciclado que coletam. Na realidade, eles não se preocupam com o empreendimento como um todo, mas apenas com o lucro proveniente da venda do material. Os governos locais só teriam a ganhar se tivessem uma perspectiva mais abrangente da geração de lixo e de todo o ciclo. Os governos locais também enfrentam uma verdadeira batalha com o conceito de “pensar em âmbito global e agir no âmbito local”. Pense no que isso significa. Significa que o governo local entra com o dinheiro, os recursos, o tempo e as agruras do programa para o benefício de todos nós. Uma das dificuldades enfrentadas por qualquer gestor de reciclagem é convencer o conselho municipal ou a comissão do condado disto: eles estão pagando pelo bem-estar do mundo. Embora seja a coisa certa, os recursos são limitados. É uma verdadeira dicotomia.
Tenho uma lista de três coisas que recomendo a qualquer comunidade que esteja começando um programa de reciclagem. Primeiro, é preciso ter o apoio da sociedade. Envolva seus cidadãos na campanha o máximo possível. Mas tenha claro que esse apoio terá altos e baixos e é preciso estar preparado para isso. Segundo, seu programa estará em permanente mudança, seja em razão do nível de apoio público ou da existência de mercados para os materiais, seja por causa da tecnologia utilizada. É preciso estar preparado para mudanças constantes. Terceiro, seja qual for o seu programa ou o quanto você dependa do setor privado, os governos precisam estar no controle dos serviços prestados por meio da implementação de políticas básicas e estratégias de preços que mantenham a participação da sociedade na medida necessária. Refiro-me a políticas tais como freqüência de coleta, cobertura de cargas, determinações para que as empresas de coleta de lixo também ofereçam serviços de reciclagem e diretivas que imponham certas obrigações à atividade de coleta de lixo de forma a incentivar a reciclagem, se essa for a meta do seu programa. P: Sr. Lozano, o senhor tem viajado pela América Central e América do Sul e conversado com autoridades locais sobre a importância da reciclagem e sobre como montar programas de reciclagem. Os conselhos da sra. Batchelder Adam são bons pontos de partida para as comunidades que o senhor visitou no exterior? Lozano: São excelentes – principalmente no que diz respeito ao controle e ao engajamento dos cidadãos. As autoridades que estão desenvolvendo esses programas precisam trabalhar com a comunidade para conscientizá-la de que a responsabilidade pela redução do lixo e operação dos aterros não é exclusiva dos governos. As empresas e os moradores precisam reconhecer sua própria parcela de contribuição aos problemas do lixo para que se tornem parte da solução. Em vários países que visitei, testemunhei o anseio da população para se tornar parte da solução. As pessoas querem participar, mas querem aprender mais. É preciso muita informação. O Estado da Califórnia tem um ótimo programa chamado Fechando o Círculo. É um programa para a iniciativa lixo integrado que abrange desde o jardim de infância até o último ano do ensino médio. Esse programa está disponível em espanhol. Acho que El Salvador aceitou formalmente o programa e o implementou como parte de seu programa de educação ambiental, pelo menos três províncias da Argentina o adotaram e o Chile tem intenção de fazer o mesmo. É preciso envolver os educadores, os governos locais e nacional e a comunidade empresarial. Por fim, é preciso encontrar formas de gerar dinheiro para fazer com que as coisas aconteçam. P: Outro elemento dessa equação é a redução na origem – em primeiro lugar é preciso reduzir a quantidade de resíduos sólidos gerados em sua comunidade. Em que medida os governos locais têm obtido sucesso no tratamento desse componente do ciclo? Batchelder Adams: Devo dizer que de pouco a moderado. Acompanhar e mensurar é algo difícil. É também extremamente difícil vender o projeto ao público, porque isso exige que as pessoas mudem seu estilo de vida, que é a coisa mais difícil de mudar. Temos visto melhorias com as políticas de compra verde. Os governos municipais estão comprando produtos recicláveis para atender às suas próprias necessidades de abastecimento e estão ajudando a estimular o mercado. Lozano: A redução na origem é uma meta muito difícil de ser atingida, mas muito importante. Em nosso trabalho, o lema agora é reduza, depois reutilize e então recicle. É muito importante começarmos a intensificar essas atividades de redução. Reutilização de papel, por exemplo. Por que a maioria das organizações só imprime o papel em um dos lados? Isso é um desperdício de 50%. As empresas podem fazer coisas simples para atingir essas metas. Fizemos uma inspeção na Nissan da América do Norte, em Carson, quando a empresa estava se preparando para comprar novas máquinas copiadoras. Sugerimos que programassem suas máquinas para fazer cópias nos dois lados do papel em vez de em um lado só. Isso significa que se quisessem tirar cópias apenas de um lado, teriam de ser proativos e fazer um esforço de mudar a programação e pressionar o botão. De repente, a Nissan viu suas despesas mensais com papel que eram de US$ 50 mil baixarem para US$ 25 mil. E a quantidade de papel que estavam descartando – seja para reciclar ou para jogar fora – também caiu pela metade. P: Que dificuldades as comunidades têm tido para avaliar os custos e os benefícios desses programas? Batchelder Adams: Os governos locais precisam acompanhar de fato e de maneira abrangente todos os custos envolvidos no programa de reciclagem, inclusive o ciclo de vida dos equipamentos e os custos evitados em transporte e descarte. Com o tempo, todos seremos capazes de identificar e acompanhar os custos que extrapolam o sistema direto de reciclagem/aterro. Por exemplo, pesquisadores e alguns governos locais dos Estados Unidos estão analisando a reciclagem versus o descarte em termos do impacto no meio ambiente mais amplo. Isso leva a fatores como prevenção da poluição e de problemas de saúde pública que podem estar associados com poluição do ar e gases de efeito estufa. Lozano: E o custo para a saúde pode ser enorme. Em minhas viagens, vi pessoas morando nos aterros. E isso é extremamente prejudicial à saúde. Acredito que há um potencial de doenças que ainda não descobrimos que podem ser transmitidas às pessoas pelos aterros e depois retransmitidas à comunidade em geral. É parte de um círculo que precisamos interromper. Batchelder Adams: Se analisarmos os custos totais e efetivos do descarte de resíduos nos Estados Unidos, veremos que em termos de magnitude o descarte é mais caro para o país do que a reciclagem. Conseguir avaliar dessa forma a completa sustentabilidade econômica e ambiental da reciclagem é uma nova capacidade que teremos dentro de poucos meses e anos.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos Estados Unidos.
|
|||||||||