Cura da DisparidadeDonald Burke, médico; Thomas Cook, PhD; Patricia Garcia, médica, mestre em Saúde Pública
| ||||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
|
Cura da Disparidade: Epidemiologia em Silício
Para isso, simulamos uma população para o Sudeste Asiático com foco na Tailândia. Nossa simulação distribuiu 85 milhões de indivíduos em um mapa, de acordo com densidades populacionais. Nós os colocamos em domicílios, escolas e locais de trabalho — basicamente criando uma sociedade artificial no computador. Simulamos no computador a liberação de um vírus de gripe na população e estudamos os padrões de transmissão resultantes. Daí, avaliamos o que aconteceria se a Tailândia tratasse os casos e as famílias, fechasse as escolas ou restringisse a movimentação das pessoas em áreas geográficas. Estamos testando políticas — planos, procedimentos e ações destinados a levar a cabo a meta governamental desejada, nesse caso, o controle da epidemia — na simulação, a qual chamamos de "epidemiologia em silício".
A rigor, não é possível testar políticas antes da explosão de uma epidemia, mas, ao fazê-lo com uma simulação que mantém certa fidelidade aos padrões naturais, podemos perguntar se há probabilidade de certas combinações de políticas serem mais eficazes sob certas circunstâncias. Publicamos nossas descobertas na revista Nature (7 de setembro de 2005). A principal conclusão foi que se reagíssemos a uma epidemia em estágio razoavelmente inicial — menos de 50 casos — e aplicássemos uma estratégia ousada de tratar todos os indivíduos da área geográfica com medicamentos antivirais, poderíamos conter ou sufocar o surto antes de ele se tornar uma epidemia. A segunda parte de nossa tentativa de modelagem, publicada na Nature de 26 de julho de 2006, consistiu em fazer o mesmo nos Estados Unidos — criar uma simulação da densidade populacional, padrões de movimentação, domicílios, locais de trabalho, escolas, distribuição de viagens aéreas e viagens locais. A diferença nos Estados Unidos é que não esperamos ser possível conter uma epidemia por completo. No auge de uma pandemia mundial, uma porcentagem tão grande de viajantes em potencial estaria incubando ou manifestando gripe que mesmo com a interrupção de 99% das viagens aéreas para os Estados Unidos haveria ainda um grande número de pessoas infectadas entrando no país por via aérea. Esses modelos requerem uso intensivo do computador. Rodamos os modelos milhares de vezes porque cada vez que o fazemos, assim como o acaso influencia a realidade, conseguimos resultados um tanto diferentes. Para avaliar uma política, temos que rodar uma simulação muitas vezes para verificar, em média, o efeito de uma opção de política de intervenção-estratégia sobre a epidemia. Dependendo da simulação, cada operação pode levar meia hora em um supercomputador. Em meados de 2005, estávamos terminando o trabalho de modelagem para reprimir um surto no Sudeste Asiático quando surgiu a oportunidade, por meio do Centro Internacional Fogarty, de aumentar a participação da Tailândia. Os tailandeses tinham muita experiência em questão de políticas, mas faltava-lhes sofisticação em modelagem, pois a maioria dos epidemiologistas da Tailândia não tem conhecimentos de modelagem e simulação por computador. Com a ajuda do Fogarty, trabalhamos com o programa tailandês de capacitação em epidemiologia do Ministério da Saúde e propiciamos oportunidades de treinamento em modelagem. O principal colaborador de lá é o Dr. Kumnuan Ungchusak, diretor do Escritório de Epidemiologia do Departamento de Controle de Doenças do Ministério de Saúde Pública. Nosso grupo está trabalhando com os tailandeses em três níveis. Em primeiro lugar, trabalhamos diretamente com eles nas pesquisas para elaborar modelos. Eles foram muito úteis nesse ponto — não poderíamos ter completado nossa primeira tentativa de modelagem sem nossos colegas tailandeses. Em segundo lugar, trabalhamos mais com interações voltadas para a sala de aula, onde grupos maiores aprendem a tecnologia mas também têm contato com abordagens computacionais para modelagem em epidemiologia. Em junho de 2006, os estudantes tailandeses terminaram um curso de epidemiologia de campo. Além do curso regular de epidemiologia, meu assistente, Dr. Derek Cummings, deu uma série de aulas sobre oportunidades de modelagem para 25 ou 30 alunos do grupo. Na terceira etapa, ainda em curso, pois estamos no início do programa, identificaremos alguns pós-graduandos para trabalhar em projetos relacionados em parte com modelagem e simulação. Cura da Disparidade: Saúde Ambiental e Ocupacional
para Democracias em Desenvolvimento
Entre as questões de saúde ambiental estão a qualidade da água e os efeitos da baixa qualidade da água sobre a saúde, a poluição industrial e do ar e a poluição do solo por fertilizantes, pesticidas, metais pesados e outros contaminantes. Questões referentes à saúde ocupacional incluem ferimentos e traumatismos no local de trabalho, ferimentos no ambiente industrial e agrícola e exposições a produtos químicos relacionados com o trabalho. Há estreita conexão entre as questões de saúde ocupacional e ambiental, particularmente em áreas rurais. Nosso foco na Universidade de Iowa é a saúde rural. Na década de 1950, fundamos um dos primeiros centros de medicina rural nos Estados Unidos, portanto, estamos muito interessados em questões da saúde no campo e temos muita experiência e conhecimento em certos assuntos como envenenamento por pesticidas e contaminação da água em áreas rurais. Algumas pessoas acreditam que viver no interior é saudável e maravilhoso, mas os dados mundiais mostram um panorama diferente — grande número de problemas graves de saúde afeta populações de áreas rurais e remotas. Entre esses problemas encontram-se a falta de serviços de saúde preventiva e de emergência para pessoas que vivem distante dos postos de saúde e a contaminação da água por pesticidas e fertilizantes. Em vários países da Europa Central e Oriental, chegam a 80% os vilarejos rurais com mananciais contaminados por produtos químicos ou biológicos.
Ajudamos pessoas da Europa Central e Oriental a lidar com problemas ambientais e ocupacionais mediante a capacitação de médicos e profissionais de saúde pública em ampla gama de especialidades — pessoas que sabem como testar água de poço, reconhecer problemas de saúde e coletar dados para conseguir mudar políticas, normas e leis. Treinamos enfermeiras, engenheiros, médicos, epidemiologistas e especialistas em mídias de saúde pública. Em cada país, identificamos pelo menos uma instituição responsável pela saúde rural e ambiental e trabalhamos com ela para selecionar e capacitar as pessoas necessárias para a tarefa. Por exemplo, o Instituto Nofer de Medicina Ocupacional em Lodz, Polônia, é a principal instituição de saúde ocupacional do país. Em breve, receberemos o sétimo profissional de saúde daquela instituição para nosso programa de capacitação no campus da Universidade de Iowa. Nosso modelo é chamado pelo Centro Internacional Fogarty de capacitação intermediária, em que os estudantes freqüentam a Universidade de Iowa por um semestre de 15 semanas. Nós e nossos colaboradores escolhemos um estudante, de comum acordo, que viaja para os Estados Unidos e faz cursos de pós-graduação na Faculdade de Saúde Pública ou faculdade similar. O estudante também é assistido por um mentor do corpo docente com experiência em sua área de especialização.
Enquanto cursam a Universidade de Iowa, os estudantes elaboram um pequeno projeto de pesquisa que será financiado e terá continuidade quando voltarem ao seu país de origem. Um ano após o retorno do estudante ao seu país, seu mentor viaja para lá e juntos apresentam um programa de educação continuada para colegas e outros profissionais da região. Com isso, os trainees são reconhecidos como especialistas e podem passar adiante o que aprenderam. Cremos que esse é um grande programa. Leva alguns anos para a capacitação trazer compensação, para compor uma quantidade significativa de especialistas em cada país. No noroeste da Romênia, por exemplo, a terceira maior cidade do país, Cluj-Napoca (com 350 mil habitantes), fica em área rural. Até o presente momento, tivemos cinco trainees dessa cidade, médicos jovens e dinâmicos que trabalham muito para ampliar a abrangência e o impacto da saúde pública em seu país. Conseguimos recursos para enviar especialistas para realizar seminários e workshops e ampliamos de forma significativa o uso de programas de formação pela internet para ajudar nos esforços de capacitação em toda a região. Cura da Disparidade: Saúde Global no Peru
Meus colegas — Dr. Eduardo Gotuzzo, Dr. Hector Garcia e Dr. Bob Gillmann — e eu, da Cayetano Heredia, estamos projetando um programa multidisciplinar sobre saúde global e doenças infecciosas que inclui pessoas das escolas de medicina, saúde pública, ciências (biologia, química e matemática) e saúde mental. Também estamos envolvendo colegas de outras áreas que têm muito a contribuir para o estudo de amplas questões sociais e econômicas relacionadas com a saúde. Especialistas em ciências sociais, educação, medicina veterinária e odontologia participam de nosso programa, assim como economistas, sociólogos, advogados e comunicadores de saúde. Pretendemos oferecer curso de mestrado em saúde global aos nossos alunos de graduação e convidamos pessoas de outros países a vir e aprender sobre questões de saúde pública em âmbito global e no ambiente que cerca nossa instituição. Nosso Programa de Demonstração de Saúde Global aqui no Peru foi o único programa fora dos Estados Unidos que a Fogarty financiou por completo durante três anos. Ao treinar uma nova geração de estudiosos da saúde na Universidade Cayetano Heredia, queremos fortalecer a transformação da pesquisa em políticas e práticas de saúde e aumentar a colaboração e a participação de pesquisadores de países em desenvolvimento na agenda de saúde global. Basicamente, propomo-nos a elaborar um currículo multidisciplinar de saúde global para estudantes de graduação e pós-graduação e a criar um mestrado em saúde global com foco inicial em doenças infecciosas, mas também em outras áreas que consideramos importantes, como doenças crônicas. Queremos também projetar e implementar programas de ensino a distância, aumentar o intercâmbio internacional de membros do corpo docente e desenvolver a especialização em saúde global em nossa universidade, atualmente não disponível no Peru. Estamos a ponto de encerrar o primeiro ano do programa. A idéia era elaborar um sistema administrativo que permitisse o trabalho conjunto de diferentes faculdades de nossa universidade — normalmente muito complicado em uma instituição — e ter um currículo que possibilitasse a estudantes de diferentes faculdades freqüentar cursos juntos para promover abordagens multidisciplinares. Neste ano também lançamos nossa página da Web (http://www.globalhealthperu.org) e dois cursos piloto — Fundamentos e Conceitos Básicos em Saúde Global. Em julho de 2006, terminamos o Conceitos Básicos em Saúde Global, curso de uma semana para estudantes de graduação que inclui a participação de diferentes profissionais. É uma abordagem ampla da saúde global cobrindo aspectos econômicos, aspectos sociais, diferentes doenças de importância mundial e trabalho de campo. Subimos os Andes durante um dia, de modo que os estudantes pudessem associar questões de saúde ao meio ambiente. No próximo ano, planejamos ampliar o curso para duas semanas e abri-lo para estudantes estrangeiros.
Outro projeto realizado em nosso primeiro ano foi uma conferência internacional, a Primeira Conferência Internacional sobre Problemas de Saúde com Impacto e Relevância Globais, realizada em agosto de 2006 em Lima, no Peru, para estudantes e profissionais de ciências da saúde. Para nosso segundo ano, a se iniciar em setembro de 2006, nossa meta é organizar um curso de mestrado em saúde global e promover a pesquisa nesse campo como parte do programa. Isso também fará parte do terceiro ano. Nos dois anos receberemos estudantes estrangeiros — a interação entre estudantes estrangeiros e estudantes nacionais é primordial para a questão da saúde global. O governo de Taiwan forneceu recursos para o lançamento do portal de saúde do Peru (http://portal.globalhealthperu.org). É para pessoas interessadas em vir ao Peru ou aprender sobre doenças que ocorrem no país. Atualmente, descrevemos somente doenças infecciosas, mas nossa idéia é incluir também distúrbios mentais e outras questões. Elaboramos recomendações sobre saúde para viajantes e estamos criando um banco de dados de estudos feitos por pesquisadores peruanos sobre diferentes doenças no Peru. O curso de Fundamentos em Saúde Global é aberto a estudantes de pós-graduação e tem cerca de 80 alunos. A idéia desse curso é avaliar o interesse nesses assuntos e criar um fórum para discussão de problemas de saúde global. Ao final do curso, os estudantes apresentarão monografias sobre questões de saúde global e publicaremos os melhores trabalhos em um livro que será lançado em janeiro de 2007. É uma grande oportunidade de promover a melhoria da saúde global, a interação entre pesquisadores peruanos e de outras nações e os interesses de estudantes de graduação e pós-graduação em saúde global. Gostaria de convidar estudantes de outros países interessados no programa a visitar nosso site e saber como participar desses cursos e, quem sabe, da pesquisa que será feita durante esse programa.
As opiniões expressas nos artigos não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
||||||||||||