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A Nova Mídia e a Política dos EUA

Thomas B. Edsall

U.S. Elections 2008

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
Nova Tecnologia, Novas Vozes
Do Jornalismo Cidadão ao Conteúdo Gerado pelo Usuário
Todo Cidadão, um Repórter
Governos e Empresas Impedem Livre Expressão na Internet
O Dilema da Indústria da Informação
Jornalismo Cresce e Depois Tropeça na República da Geórgia
A Nova Mídia e a Política dos EUA
Tabela - Principais Sites de Notícias
Mídia Nova Versus Mídia Antiga
Força-Tarefa Global pela Liberdade na Internet
Sites Realmente Locais
Recursos na Internet
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Operador de câmera trabalha na frente de uma grande tela de vídeo montada no palco da CNN/YouTube para o debate das primárias republicanas realizado em São Petersburgo, na Flórida, em novembro de 2007. O debate foi o segundo de dois que utilizaram o formato de perguntas feitas pelos cidadãos via videoclipes transferidos para o YouTube.com. Os presidenciáveis do partido Democrata participaram do debate na CNN/YouTube em julho Operador de câmera trabalha na frente de uma grande tela de vídeo montada no palco da CNN/YouTube para o debate das primárias republicanas realizado em São Petersburgo, na Flórida, em novembro de 2007. O debate foi o segundo de dois que utilizaram o formato de perguntas feitas pelos cidadãos via videoclipes transferidos para o YouTube.com. Os presidenciáveis do partido Democrata participaram do debate na CNN/YouTube em julho (© Matt Campbell/epa/Corbis)

As novas tecnologias com seus usuários mais experientes estão deixando sua marca em muitas campanhas eleitorais nos EUA – expondo gafes de candidatos, aumentando a captação de recursos e remodelando o ciclo de noticiários.

Thomas B. Edsall é professor da cátedra Joseph Pulitzer II e Edith Pulitzer Moore de Reportagens sobre Assuntos Nacionais na Escola de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade de Colúmbia, na cidade de Nova York. Edsall cobriu a política americana por 25 anos no Washington Post e atualmente é correspondente para a New Republic, editor contribuinte da National Journal, e editor político do Huffington Post, uma publicação on-line.

A Rede Mundial de Computadores e a explosão de “nova mídia” que a acompanhou revolucionaram a política dos EUA em pelo menos quatro áreas, criando: 1) formas inovadoras de chegar até os eleitores; 2) um sistema de notícias radicalmente transformado; 3) uma multidão sem precedentes de pequenos doadores; e 4) grupos de interesse poderosos de esquerda e de direita.

O que mais chama a atenção é que vários candidatos iniciaram a campanha oficial em 2007 anunciando na internet sua intenção de concorrer à Presidência, um distanciamento radical da tradição de fazer essas declarações diante de multidões locais, em geral na cidade de origem do candidato.

A senadora democrata Hillary Clinton, por exemplo, para anunciar a formação de seu comitê exploratório presidencial — evento importante —, utilizou um vídeo na internet em que aparecia sentada no sofá de sua sala de visitas em Chappaqua, Nova York.

“Vamos conversar. Vamos bater papo. Vamos iniciar um diálogo sobre as suas idéias e as minhas”, disse Clinton aos expectadores. “E embora eu não possa estar nas salas de todos vocês, posso tentar. Com uma pequena ajuda da tecnologia moderna, estarei on-line esta semana, a começar na segunda-feira, para bater papo ao vivo com vocês. Então, vamos iniciar a conversa.”

As vantagens para o candidato são substanciais. Diferente de um evento público em que a imprensa faz perguntas, o anúncio pela internet está sob controle total da campanha; pode ser retocado muitas vezes, até ficar impecável, ao mesmo tempo que passa uma sensação de intimidade e espontaneidade.

O democrata James Webb anuncia sua vitória na disputa por uma cadeira no Senado dos EUA em 2006, enquanto segura as botas de combate usadas pelo seu filho, fuzileiro naval em serviço no Iraque. A vitória de Webb veio depois que seu oponente republicano, o candidato à reeleição George Allen, cometeu uma gafe de campanha que foi gravada em videotape e amplamente divulgada O democrata James Webb anuncia sua vitória na disputa por uma cadeira no Senado dos EUA em 2006, enquanto segura as botas de combate usadas pelo seu filho, fuzileiro naval em serviço no Iraque. A vitória de Webb veio depois que seu oponente republicano, o candidato à reeleição George Allen, cometeu uma gafe de campanha que foi gravada em videotape e amplamente divulgada (Ron Edmonds/© AP Images)

Armadilhas e possibilidades

Muitos outros avanços tecnológicos que sustentam a nova mídia não são tão vantajosos para as campanhas. Na verdade, eles criaram um novo cenário de armadilhas em potencial.

Sempre que aparecem em algum evento público , os candidatos agora estão sujeitos à observação constante pelas equipes e simpatizantes de seus adversários, equipados com pequenas câmaras digitais e gravadores fáceis de usar.

Em 2006, o senador George Allen, republicano da Virgínia que era favorito para vencer a reeleição, acabou perdendo para o democrata James Webb. A campanha de Allen foi irreparavelmente prejudicada depois que ele ridicularizou um membro da equipe de Webb que o filmava: “Este camarada aqui, de camisa amarela, macaca, ou qualquer que seja o seu nome. Ele trabalha para o meu adversário. Ele nos segue em todos os lugares... Vamos dar as boas-vindas para o macaca aqui. Bem-vindo à América e ao mundo real da Virginia.” Em algumas culturas européias, “macaca” é um termo pejorativo usado para descrever imigrantes africanos.

O assim chamado vídeo do macaca tornou-se um importante evento da campanha, visto centenas de milhares de vezes no YouTube, o site de vídeo da internet acessível ao público, e exibido repetidas vezes na televisão, tanto local quanto nacional.

Um presidenciável que foi muito beneficiado pela nova tecnologia foi o representante republicano Ron Paul, do Texas. Embora dificilmente consiga a indicação de seu partido para presidente nas eleições de 2008, os princípios libertários de Paul deram-lhe muitos simpatizantes na internet, onde é muito popular em sites como MySpace e YouTube.

Para Paul, a internet valeu a pena, ajudando-o a levantar US$ 5,3 milhões no terceiro trimestre de 2007, quase tanto quanto o muito mais conhecido senador John McCain, republicano do Arizona, que conseguiu US$ 5,7 milhões.

Três outros usos sem precedentes da nova mídia já afetaram as eleições presidenciais de 2008. Em um, um assessor de campanha do senador Barack Obama, democrata de Illinois — trabalhando não oficialmente — pegou um anúncio da Apple Computer que comparava o papel dominante da Microsoft ao governo ditatorial descrito no romance 1984, de George Orwell, e o converteu em outro que retratava Hillary Clinton como uma ditadora todo-poderosa.

A campanha de Obama declarou não ter relação com o anúncio e o assessor demitiu-se, mas o pseudo-comercial foi visto cerca de 1 milhão de vezes no YouTube, para constrangimento de Hillary Clinton.

Obama, por sua vez, ficou constrangido com um vídeo produzido de maneira independente e postado no YouTube, conhecido como “Obama Girl”. Nele, a modelo e atriz Amber Lee Ettinger cantarolava uma música, “I Got a Crush... on Obama” [Tenho uma queda... por Obama] enquanto dançava sedutoramente.

O vídeo foi muito menos danoso para a campanha de Obama do que uma seqüência de filme gravada secretamente — também postada no YouTube — do candidato democrata à presidência John Edwards sendo maquiado antes de aparecer na televisão. Ao som de música e letra de uma canção do musical West Side History, Edwards é mostrado penteando e afofando seu cabelo repetidamente. A letra da canção usada como música de fundo diz: “I feel pretty, oh so pretty, oh so pretty and witty tonight...” [Estou lindo, oh tão lindo, oh tão lindo e espirituoso esta noite...]

A ampla distribuição desse vídeo na internet não teria sido tecnicamente viável em 2004.

O deputado Ron Paul cumprimenta eleitores no estado de New Hampshire em campanha para sua indicação para presidente pelo partido Republicano O deputado Ron Paul cumprimenta eleitores no estado de New Hampshire em campanha para sua indicação para presidente pelo partido Republicano (© Jim Cole/AP Images)

Efeitos discretos

Ao mesmo tempo, houve uma série de desenvolvimentos mais sutis e menos visíveis originados pela expansão dos recursos da nova mídia. Entre eles:

  • A internet tornou-se o veículo de mobilização da esquerda contra a guerra, transformando-se num influente grupo de interesse democrata que todos os candidatos e líderes do Congresso agora precisam tratar com respeito e deferência especial.

  • Sites como o OpenLeft, o Atrios e o DailyKos, juntamente com um provedor de hospedagem de blogues que arquiva noticiários para esses e outros sites, constituem uma base eleitoral que os candidatos democratas evitam ofender. Pelo contrário, muitos candidatos e os principais membros de sua equipe realizam teleconferências regularmente com a comunidade da blogosfera de esquerda e procuram a cobertura mais favorável possível.

  • O sucesso do candidato presidencial democrata Howard Dean na captação de grandes somas de dinheiro de pequenos doadores por meio de links de cartões de crédito na internet em 2004 foi agora reproduzido por todos os principais candidatos democratas às eleições de 2008 e, em dimensão menor, mas significativa, pelos candidatos republicanos. Uma conseqüência foi o aumento enorme no número de pequenos doadores e a diminuição do valor médio das contribuições. Principalmente para Barack Obama, essa tendência tornou viável uma candidatura improvável para um candidato relativamente novo na política nacional.

  • Para os democratas e os comitês do partido Democrata, a onda de pequenos doadores na internet contribuiu significativamente para o equilíbrio no campo de atuação financeiro em 2004 e até para ganhos maiores no ciclo atual (2007-2008). Pela primeira vez em no mínimo três décadas, os democratas em geral este ano estão mantendo uma vantagem financeira substancial sobre os republicanos, partido que tem sido tradicionalmente capaz de obter recursos financeiros consideráveis para financiamento de campanha.

  • Os sites políticos na internet estão amadurecendo, tornando-se, sob muitos aspectos, tão ou mais importantes do que os jornais. Os sites Politico, Huffington Post, Salon, Slate, National Review Online e Wall Street Journal Online tornaram-se, em apenas alguns anos, agentes principais na cobertura de eleições e formulação de políticas.

  • O Huffington Post, por exemplo — do qual participo atualmente no desenvolvimento de cobertura política —, em muitos aspectos reproduz todo o conteúdo que os jornais impressos oferecem, com uma “primeira página” de notícias nacionais e estrangeiras, bem como uma página de política, uma página de mídia e seções de entretenimento e social. Uma vantagem das entidades de mídia on-line é a nova capacidade tecnológica de hiperligar-se com facilidade a literalmente milhares de outras novas fontes, desde versões on-line de recursos da “mídia tradicional” — como o New York Times [www.nytimes.com], o Washington Post [www.washingtonpost.com], o Los Angeles Times [www.latimes.com] e assim por diante — a grandes quantidades de “listas de blogues favoritos” conservadores e progressistas que, por sua vez, conectam os usuários a sites políticos variados, tais como RealClearPolitics, TalkingPointsMemo, Instapundit, Taegan Goddard's PoliticalWire e Drudge Report.

  • Em 2000, as campanhas lidaram com um ciclo noticioso adaptado para noticiários de televisão que iam ao ar das 18h às 19h e para jornais com fechamento entre 21h e 23h. Atualmente, administradores de sites de internet estão sempre procurando novos desdobramentos, e um evento político importante às 14h já produziu na internet, até a hora do noticiário vespertino de televisão, múltiplas rodadas de reações e críticas de adversários e analistas.

  • O surgimento de sites de internet de esquerda, de direita e neutros criou uma caixa de ressonância instantânea para a difusão de reações à mudança de sorte das campanhas políticas. Nos debates presidenciais, por exemplo, as equipes de campanha estão constantemente buscando comentários na internet que elogiem o desempenho de seus candidatos e critiquem o desempenho dos outros. Esses comentários, por sua vez, são imediatamente enviados por e-mail como press releases para jornalistas da grande imprensa, ou mídia tradicional, e da nova mídia, assim como para outros comentaristas que cobrem o debate.

A rapidez das mudanças no cenário político atual, resultado de tecnologias de comunicação e de informação inovadoras, se as tendências passadas servirem como guia, vão se acelerar, sugerindo que as novidades da campanha de 2008 são um modesto precursor da transformação radical que ocorrerá em 2012 e 2016.

 

Principais Sites de Notícias

A tabela apresenta números de visitantes exclusivos de sites de internet dedicados à cobertura de notícias e eventos públicos, calculados por Nielsen Online, serviço da Nielsen Company, conhecida como uma das líderes mundiais em medição de audiência. A tabela reflete dados de outubro de 2007, os últimos disponíveis para a imprensa. Os dados são do painel Net View, serviço da Nielsen para estações independentes.

Marca ou Canal Audiência exclusiva
(em milhares)
Tempo por pessoa/mês
(hh/mm/ss)
Todos os eventos atuais e notícias globais 95.701 1h24m02s
     
Yahoo! News 33.171 0h25m38s
CNN Digital Network 30.218 0h36m27s
MSNBC Digital Network 29.841 0h26m18s
AOL News 20.672 0h30m19s
NYTimes.com 17.502 0h34m53s
Gannett Newspapers 13.560 0h23m59s
Tribune Newspapers 13.031 0h12m15s
WorldNow 11.851 0h10m57s
Google News 11.114 0h11m12s
ABCNEWS Digital Network 10.847 0h07m34s
Fox News Digital Network 9.480 0h41m05s
USATODAY.com 9.469 0h16m13s
CBS News Digital Network 9.394 0h08m48s
McClatchy Newspaper Network 9.300 0h08m48s
washingtonpost.com 8.681 0h17m22s
MediaNews Group Newspapers 7.723 0h10m52s
Hearst Newspapers Digital 7.418 0h14m24s
Advance Internet 6.713 0h15m08s
Topix 6.425 0h04m:11s
IB Websites 6.298 0h15m22s
Usado com permissão

A Mídia Faz Mudanças

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.

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