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Em 2001, era muito difícil ser jornalista na República da Geórgia. Havia um veículo que não recuava, não desistia e resistia como nenhum outro no mundo pós-soviético. Era o canal de televisão Rustavi 2. Em 2001, reportagens duras resultavam em reações duras. O âncora da Rustavi 2 Giorgi Sanaya, de 26 anos, foi assassinado. Muitos acreditam que foi em retaliação às suas reportagens. Sanaya questionou as políticas e as práticas do presidente Eduard Shevernadze, mas não estava sozinho no questionamento do governo de Tbilisi. Akaki Gogichaishvili, âncora e criador do programa investigativo 60 Minutes, afirmou que seu pai foi demitido de seu emprego público em retaliação a reportagens que fez. O âncora investigativo disse que todos os membros de sua equipe haviam sido ameaçados. Jornalistas relataram que atendiam ao telefone e ouviam uma voz dizer: “Você será morto amanhã” ou “Vamos raptar seus pais”. Em 2001, ameaçar jornalistas não era suficiente. O diretor de Notícias e principal âncora da Rustavi 2, Nick Tabatadze, recebeu um telefonema ameaçando toda a estação. Segundo Tabatadze, o ministro do Interior da Geórgia ameaçou enviar soldados militares para revistar a estação. Tabatadze respondeu informando a ameaça no noticiário da noite. Na semana seguinte, o governo deu o troco. O ministro da Segurança enviou agentes que exigiram os registros financeiros da estação. De novo, Tabatadze respondeu noticiando o que estava acontecendo; mas dessa vez fez isso ao vivo. Instruiu os fotógrafos a ligar as câmeras. Em minutos, a Rustavi 2 estava transmitindo a incursão do governo em uma redação de tevê para todos os televisores da Geórgia. Para mostrar seu apoio à Rustavi 2, os cidadãos foram para a frente da estação e fizeram vigília durante toda a noite; no dia seguinte, marcharam para o Parlamento. Era um momento perigoso, porém estimulante, para ser jornalista na Geórgia. Aí veio a Revolução das Rosas. Shevernadze recuou. O líder pró-democracia Mikhail Saakashvili interveio. Os jornalistas da Geórgia dizem que a mídia não compartilhou dos benefícios da Revolução das Rosas.
Seguindo a linha do partido Duas estações, a Channel 9, que tentou diligentemente fazer um noticiário isento, e a Iberia, fecharam. Na Rustavi, mudou a direção e também a linha de reportagem. Desde então, Natia Abramia está fora do país, mas passou oito anos fazendo reportagens na Geórgia e esteve na Rustavi 2 antes e depois da revolução. Apesar da atmosfera ameaçadora da era Shevernadze, Abramia lembra-se da considerável liberdade da mídia naquela época. “Não era profissional e responsável, mas era livre.” Segundo Abramia, após a Revolução das Rosas todo mundo começou a falar de “autocensura”. A Rustavi 2, estação que já desafiou destemidamente as autoridades do governo para que explicassem suas ações, agora telefona para pedir conselhos sobre o que dizer. “Presenciei jornalistas lendo suas reportagens para funcionários do governo ao telefone”, contou Abramia. Segundo ela, os jornalistas que não seguiam a linha oficial tiveram “problemas”. Um jornalista profissional que não quis ser identificado para não colocar em risco seu emprego na Rustavi 2, descreve o ambiente de trabalho dos jornalistas com uma única palavra: “degradante”. O processo editorial por ele descrito lembra os tempos soviéticos. “Não temos permissão para criticar o presidente, o ministro da Economia, o ministro da Defesa ou o ministro de Assuntos Internos. A cobertura dessas estruturas governamentais inclui apenas tópicos ‘positivos’.” Outro produtor, editor e videógrafo veterano, que deixou a redação mas mantém contato com jornalistas de todas as estações de Tbilisi, diz com tristeza: “Não deveria ser do jeito que é agora.” Por razões profissionais, ele também pediu para não ser identificado. Solicitado a comparar a situação do jornalismo na Geórgia hoje com antes da Revolução das Rosas, ele simplesmente diz: “Está pior.” Natia Abramia concorda: “Os jornalistas locais consideram que está cada vez mais perigoso investigar, questionar ou criticar o governo.” Tentando fazer a diferença
A jornalista Nino Zuriashvili e o editor-videógrafo Alex Kvatashidze costumavam produzir algumas das reportagens investigativas mais completas da Rustavi 2. Mas Zuriashvili agora descreve a estação que costumava ter uma postura jornalística tão agressiva como “nada além de uma voz do governo”. E ela não acha que a Geórgia estará bem servida pela empresa de televisão MZE, que foi comprada pelo irmão do ministro de Relações Exteriores. Frustrados com o declínio do jornalismo sério desde a Revolução das Rosas, em janeiro de 2007, com recursos da Comissão Européia, Zuriashvili e Kvatashidze abriram sua própria empresa de produção investigativa, a Monitor Studio. Encontrar reportagens com conteúdo não foi problema, mas encontrar pessoas dispostas a transmiti-las tem sido. Zuriashvili e Kvatashidze receberam a informação de que dois georgianos inocentes haviam sido presos, torturados e condenados com base em provas forjadas, plantadas por agentes de segurança do governo sob as ordens de um alto funcionário do governo da Geórgia. A equipe de reportagem não foi a única a confirmar os fatos; o ouvidor do governo, defensor público da Geórgia, também confirmou. Sozar Subari convocou uma coletiva de imprensa para anunciar os resultados de suas apurações. Era uma coletiva de imprensa típica. Os microfones de todas as estações estavam lá. “Surpreendentemente”, diz Alex Kvatashidze, nos noticiários daquela noite “não havia nada”. Os noticiários das tevês não informaram sobre as descobertas negativas, apesar de terem vindo de uma fonte do governo. Zuriashvili e Kvatashidze fizeram uma apresentação especial de sua investigação, convidando funcionários de embaixadas, dirigentes de organizações não-governamentais, jornalistas e diretores de Notícias dos principais veículos de comunicação de Tbilisi, capital da Geórgia e sede das principais empresas de mídia. A equipe de reportagem ofereceu a investigação completa a qualquer empresa jornalística que estivesse interessada, gratuitamente. Nenhuma estação de Tbilisi noticiou a reportagem. Mesmo quando as emissoras não querem noticiar, hoje a tecnologia faz com que seja praticamente impossível para governos e empresas controlar a comunicação. A Rustavi 2 pode ter, como dizem os críticos, se tornado a voz do governo. Mas a tecnologia está permitindo aos jornalistas fazer o que sempre fizeram: reportagens de substância e significância para as pessoas. E é essa combinação de tecnologia e perseverança jornalística que mantém Kvatashidze otimista. “Nós (e outros como nós) ainda estamos tentando passar a mensagem para o público”, diz, acrescentando com certeza: “O jornalismo não está morto na Geórgia.” A investigação da Monitor Studio sobre a prisão ilegal de dois georgianos está disponível em http://tinyurl.com/2rpo3g.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | |||||||
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