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Mídia Nova Versus Mídia Antiga
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Nos anos 1970, perguntaram ao primeiro-ministro da China, Zhou Enlai, o que ele considerava mais significativo na Revolução Francesa de 1789. Segundo consta, ele permaneceu em silêncio por um instante e depois respondeu: “Ainda é muito cedo para saber.” O mesmo poderia ser dito quando se avalia o impacto do que está sendo chamado de revolução da mídia cidadã no discurso político dos Estados Unidos. Há preocupações justificáveis sobre possíveis desdobramentos negativos à medida que passamos de uma era tradicional de jornalismo gatekeeping (seleção de informações) para um jornalismo moldado, ao menos em parte, por uma blogosfera descentralizada para a qual os cidadãos se voltam hoje em dia a fim de obter informações sobre a Casa Branca, o Congresso, a guerra no Iraque e outras questões de política externa de fontes não profissionais. Defensores dessa nova forma de jornalismo argumentam que as novas fontes não pertencentes ao cenário da mídia dominante irão, com o tempo, enriquecer e não prejudicar a qualidade do discurso público. É bem possível que as duas coisas sejam verdadeiras até certo ponto. Avaliar esse equilíbrio pode levar décadas, não anos, e seu impacto na democracia dos Estados Unidos só será conhecido quando a metamorfose estiver completa.
A bola da vez Grande parte da preocupação com o crescimento do jornalismo cidadão (exemplo: blogues, wikis, YouTube) gira em torno da idéia de que a informação é menos precisa porque pode não ter sido confirmada da forma tradicional como sempre fizeram os editores nas redes de jornais e televisão. É só lembrar do escândalo que atormentou o candidato democrata à Presidência John Kerry em 2004 por seu suposto envolvimento com uma jovem estagiária. Matt Drudge, considerado o “jornalista mais influente dos Estados Unidos” pela revista New York, no início deste ano declarou que no auge das primárias presidenciais de 2004, o senador John Kerry teria se envolvido com uma mulher bem mais jovem (cujo nome Drudge não revelou) e que esse relacionamento teria posto fim às suas esperanças de vencer George Bush naquele ano. Não há indícios de que Drudge tenha entrevistado essa moça ou alguém da campanha de Kerry para confirmar a alegação antes de publicar a reportagem no Drudge Report, o sexto site de notícias mais popular nos Estados Unidos segundo dados da Hitwise da semana de 22 de setembro de 2004. Tanto Kerry quanto a jovem negaram qualquer relacionamento dessa natureza e, por fim, nunca se encontraram provas contundentes que confirmassem o caso. As principais organizações noticiosas recusaram-se a divulgar a história de forma categórica por julgarem as evidências “extremamente inconsistentes”. Kerry foi em frente e conseguiu a indicação de seu partido, mas essa história contribuiu para o cinismo que os americanos demonstram com relação às suas autoridades eleitas? Como disse à revista New York David Frum, ex-redator de discursos de Bush que escreveu sobre o relacionamento de Kerry no site National Review, o material divulgado na internet pode converter mito em realidade em um período de tempo incrivelmente curto: “Li sobre [o boato] no jornal, ouvi a respeito, comentei sobre [isso], mas não noticiei o caso. Brinquei com o assunto na internet, como faria durante um jantar. Depois aprendi que a internet é como publicar, e não como fazer comentários durante um jantar.” Embora os tradicionalistas receiem o jornalismo sem confirmação da notícia, é possível que os entusiastas da nova mídia considerem seu ofício completamente diferente do que é praticado pelo New York Times ou pelo Wall Street Journal, dois baluartes da grande imprensa nos EUA. Segundo pesquisa do Pew Internet & American Life Project, apenas um terço (34%) dos blogueiros vêem o blogue como uma forma de jornalismo; cerca de dois terços (65%) não o consideram dessa forma. Somente 56% disseram que “às vezes” ou “freqüentemente” despendem tempo adicional tentando confirmar as notícias que colocam em seus blogues. As novas mídias também são criticadas pela prática de criação de blogues anônimos. A mesma pesquisa do Pew revelou que 55% dos blogueiros escrevem suas páginas usando pseudônimo. A preocupação é que os blogueiros fiquem mais propensos a publicar boatos falsos, já que é mais difícil rastreá-los até a sua origem quando não se consegue associar um nome à informação colocada no blogue. E, além disso, há o receio de que essa aparente falta de responsabilidade venha a inspirar os blogueiros não apenas a fornecer informações apócrifas, mas também a contribuir para um tom imaturo e grosseiro nos quadros de mensagens dos blogues. Se isso acontecer, será que somente os mais “aficionados políticos” serão capazes de tolerar esse ambiente, desestimulando e afastando ainda mais o eleitorado?
Qual a importância dos blogues? Se os políticos americanos foram ou não seriamente prejudicados pelos jornalistas cidadãos nos últimos anos é uma questão de debate acirrado nos círculos políticos e jornalísticos. Mas dados econômicos e de pesquisas sugerem que o alcance da mídia cidadã talvez não vá tão longe quanto alguns afirmam. Primeiro, analisemos a propaganda política on-line. De acordo com estimativas, nas eleições de 2006 foram gastos US$ 40 milhões em propaganda na web, 38% acima dos US$ 29 milhões gastos nas eleições de 2004. É um montante considerável, mas ainda responde por apenas 1% do total dos dólares gastos em propaganda política em todas as mídias em 2006; e os blogues são apenas um subconjunto desse 1%. Segundo, embora a porcentagem de pessoas que apontam a internet como sua principal fonte de notícias tenha aumentado para 26%, a grande maioria dos americanos ainda recebe as notícias pela TV. Um levantamento do Centro de Pesquisa Pew para a População e a Imprensa revela que dois terços dos americanos dizem preferir a televisão. Mais uma vez, os blogues e outras formas de mídia cidadã são apenas um componente das notícias on-line, cujos maiores índices de audiência são gerados em grande parte pelos sites das empresas de mídia mais ricas, como CNN.com da Time Warner, Yahoo News, AOL News e USA Today.com da Gannett. O noticiário nesses sites é de natureza preponderantemente tradicional, o que sugere que a maioria dos americanos, quando está on-line, ainda consome notícias que seguem os princípios consagrados de precisão e veracidade. Outros sinais sugerem ainda que os americanos continuam hesitantes em deixar o tipo de jornalismo praticado pela mídia tradicional, mesmo que estejam abandonando alguns formatos dessa mídia, como os jornais de modo geral. Outro levantamento do Centro de Pesquisa Pew para a População e a Imprensa revelou que 68% das pessoas preferem obter informações de fontes imparciais, enquanto apenas 23% querem notícias que confirmem suas opiniões. A tendência ao jornalismo opinativo não se limita à mídia on-line. Nas emissoras de TV a cabo, algumas das maiores atrações são personalidades como Bill O’Reilley e Keith Olbermann, que oferecem soluções altamente politizadas para os problemas do país. Em outubro de 2007, escrevendo para a Nation, a principal revista liberal dos Estados Unidos, Marvin Kitman declarou que “o estilo objetivo, ‘é assim que as coisas são’ usado nos noticiários noturnos de todas as redes é muito antiquado e ultrapassado”, e pediu às redes que adotassem sua própria versão da tendência esquerdista de Olbermann. Uma mudança dessa natureza representaria um afastamento radical do compromisso histórico das redes de televisão com a neutralidade, como disse certa vez o falecido Richard Salant, presidente da CBS News nos anos de 1960 e 1970: “Nossos jornalistas não fazem reportagem com base em seus pontos de vista. Eles as apresentam com o ponto de vista de ninguém." O montante de recursos investidos na coleta de notícias é outra questão que afeta a mudança do ambiente jornalístico nos Estados Unidos. Com a eliminação substancial de postos de trabalho nos jornais, há bem menos repórteres disponíveis para cobrir eventos do que no início desta década. Dados da Sociedade Americana de Editores de Jornais mostram uma redução de aproximadamente 3 mil funcionários em tempo integral nas redações, comparando-se com o recente pico do setor de 56.400 profissionais em 2000. Muitas pessoas receiam que isso venha a enfraquecer rapidamente o papel de fiscalizador das ações do governo e das grandes empresas exercido pelos jornais. Parece que ao menos alguns blogueiros percebem esse vazio aparente e uns poucos talvez estejam tentando preenchê-lo. Como ressaltou recentemente David Glenn na revista Columbia Journalism Review, a reportagem original feita pelo blogueiro Joshua Micah Marshall e sua equipe revelou os principais escândalos políticos, incluindo a demissão de procuradores pela Casa Branca e um acordo questionável sobre terras envolvendo a senadora do Alasca, Lisa Murkowski. Outros blogueiros, como os dos sites Huffington Post [www.huffingtonpost.com] e Pajamas Media [www.pajamasmedia.com], também estão fazendo sua própria reportagem original, sugerindo que talvez haja mais convergência do que divergência entre a mídia tradicional e a nova. Conclusão O debate sobre o efeito do jornalismo cidadão na democracia por enquanto talvez ainda se limite a um “E se…” A impressão de que os blogues estão prejudicando nossa infra-estrutura cívica é, de modo geral, episódica e teórica. Mas, sem dúvida, o mundo da mídia está mudando. O poder está passando das pessoas que produzem as notícias — sejam elas jornalistas ou blogueiros — para aquelas que as consomem. Os cidadãos têm muito mais opções e estão se fragmentando no espectro dessas opções. O resultado final não é de fato o surgimento de um discurso cívico melhor ou pior, mas o surgimento de um discurso diferente. A tendência que parece mais clara no momento é que à medida que o público se segmentar, as fontes de notícias irão se tornar mais dirigidas para nichos ou temas e opiniões específicas. A questão, ao menos por enquanto, é como voltar a convergir para um ponto central.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | ||||||
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