Afeganistão:
um Modelo de
Ação Contra Minas
Terrestres
Este artigo e os dois
a seguir analisam o problema das minas terrestres no Afeganistão,
Camboja e Moçambique e a contribuição dos Estados Unidos para ajudar
a eliminá-las. Os artigos foram preparados por Hayden Roberts da
divisão de Remoção e Redução de Armas do Escritório
de Assuntos Políticos e Militares do Departamento de Estado dos
Estados Unidos. Roberts observa que
o uso indiscriminado de minas terrestres persistentes (minas que
não se autodestroem nem autodesativam) no Afeganistão deixou o país
possivelmente com o maior nível de contaminação por minas do mundo.
Desde 1988, os Estados Unidos vêm ajudando o país na remoção desse
legado mórbido, treinando a população para evitar minas terrestres
e oferecendo assistência aos sobreviventes de acidentes com esses
artefatos.
O PROBLEMA DAS MINAS TERRESTRES
O
Afeganistão é um dos países mais seriamente afetados por minas terrestres
do mundo. O uso indiscriminado de minas persistentes por mais de duas
décadas por vários exércitos e facções tem sido um dos aspectos
mais desumanos dos conflitos no Afeganistão. A contaminação por
minas atinge quase todas as regiões - mais de 1.500 vilas em 27
das 29 províncias do país tinham problemas relacionados com minas
em 2002, segundo a Organização das Nações Unidas. Embora a ONU avalie
que o país esteja infestado com 5 a 7 milhões de minas terrestres,
algumas organizações não-governamentais (ONGs) afirmam que, com
base em suas experiências de limpeza de áreas minadas, a avaliação
das Nações Unidas está superestimada. De qualquer forma, o Afeganistão
continua seriamente afetado. As áreas mais seriamente comprometidas
são as províncias nas fronteiras com Irã e Paquistão. As minas estão
localizadas em terras agrícolas, canais de irrigação e pastos, bem
como em estradas e áreas comerciais e residenciais. As minas terrestres
também circundam as principais cidades, os aeroportos, os edifícios
do governo e as instalações de distribuição de energia. As estimativas
são de 150 incidentes por mês provocados por minas terrestres.
Em outubro de 1988, após
exame minucioso da grande ameaça das minas terrestres causada pela
ocupação soviética do país, os Estados Unidos começaram a dar assistência
à desminagem com a criação de um programa abrangente para remoção
de minas. Esse programa, que foi praticamente assumido pelo Serviço
de Ação contra Minas das Nações Unidas (UNMAS), Programa de Ação
contra Minas do Afeganistão (MAPA), é o maior e mais eficiente esforço
de desminagem do mundo e seu efetivo é quase totalmente composto
por afegãos. O uso de administradores e empregados locais pelo MAPA,
a transparência de suas operações e sua diversificada fonte de recursos
serviram de exemplo a outros programas de desminagem humanitária
mundo afora. A assistência por meio do MAPA e de outros órgãos continuou
quando os Estados Unidos criaram o Programa Humanitário Antiminas
dos Estados Unidos (hoje denominado em caráter oficial de Programa
de Ação Humanitária e de Combate às Minas) em outubro de 1993.
PARCERIAS DOS EUA
A ação contra minas dos
EUA no Afeganistão é feita de forma direta e também por meio da
ONU. Empresas contratadas e ONGs fornecem capacitação técnica, treinamento
e orientação geral para operações de desminagem no país. O objetivo
principal tem sido limpar e recuperar a terra para devolvê-la ao
uso produtivo, criar um ambiente seguro para a atividade de reconstrução
e orientar a população em geral sobre o perigo das minas terrestres.
Desde 1993, os Estados Unidos
concederam aproximadamente US$ 51 milhões em fundos para a ação
humanitária contra minas no Afeganistão. Essa assistência tem subsidiado
programas de capacitação sobre os riscos das minas, marcação dos
locais de minas terrestres, treinamento de pessoal para a desminagem,
remoção de minas, assistência a sobreviventes de acidentes com minas,
equipamentos e cães treinados para detectar minas. O Afeganistão
é atualmente o maior receptor do mundo da assistência para a ação
contra minas do governo dos EUA. No ano fiscal de 2003, quase 17%
das verbas governamentais para ações contra minas do mundo (US$
8,3 milhões de US$ 49 milhões) foram para o Afeganistão. O Fundo
Leahy para as Vítimas de Guerra, administrado
pela Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional
(USAID), concedeu US$ 1 milhão em assistência a programas de reintegração
sócio-econômica de sobreviventes e mutilados e treinamento de técnicos
em ortopedia afegãos. Os Estados Unidos concederam um contrato de
US$ 2,3 milhões à RONCO para capacitar as ONGs locais em técnicas
antiminas, financiar o MAPA e dar treinamento sobre descarte de
artefatos explosivos (EODs). A HALO Trust, uma organização sem fins
lucrativos especialista em desminagem, recebeu US$ 2,1 milhões para
operações de remoção de minas e a UNMAS US$ 2,6 milhões para subsidiar
ONGs locais que trabalham no Afeganistão. Atualmente o Departamento
de Estado está fornecendo pessoal qualificado e experiente para
ajudar o MAPA e administrar a transmissão de conhecimento e a capacitação
da Agência de Desminagem do Afeganistão (DAFA) e de outras ONGs
apoiadas pelo MAPA. O Departamento de Estado também está fornecendo
equipamento limitado ao MAPA.
Além disso, o Departamento
de Estado incentiva associações civis norte-americanas e estrangeiras,
organizações não-governamentais, instituições de caridade e empresas
a colaborar com parcerias entre os setores público e privado para
fortalecer a ação humanitária contra minas no mundo inteiro. Uma
ONG sediada na Califórnia chamada Roots of Peace,
usa dinheiro doado por empresas e até mesmo por crianças das escolas
dos EUA para ajudar equipes de desminagem no Vale Shomalli do Afeganistão.
A Roots of Peace está levando seu bom trabalho avante apoiando o
replantio de uvas e de outras frutas pelas quais o Vale já foi famoso
para que seus agricultores possam voltar a ter meios de sustento
próprio.
PREOCUPAÇÕES DO PROGRAMA
No final de 2002, o MAPA
expandiu suas operações para 253 grupos de remoção de minas empregando
mais de 7 mil afegãos. Entretanto, a segurança tornou-se uma preocupação
constante. Muitas operações para remoção de minas no Afeganistão
têm se limitado à área de Kandahar. Em 8 de maio de 2003, após vários
ataques a equipes de desminagem, o Centro de Ação da ONU contra
Minas suspendeu as atividades em trechos da estrada entre Cabul
e Kandahar e após novo ataque em meados de maio, comunicou que a
equipe que atuava em seis províncias viajaria com escoltas armadas
cedidas pelas autoridades locais para garantir sua segurança. Apesar
das preocupações com a segurança, as operações foram retomadas.
REALIZAÇÕES DOS EUA
O apoio dos EUA à ação humanitária
contra minas no Afeganistão apenas em 2002 possibilitou que mais
de 1,8 milhão de refugiados e pessoas deslocadas no país voltassem
para suas casas. Além disso, os 23.825.611m2 de áreas de alta prioridade que foram limpas no primeiro
trimestre de 2002 permitiram ao MAPA empregar mais de 9.200 agricultores
e trabalhadores da indústria. As receitas da agricultura (avaliada
em US$ 14,2 milhões) e da produção pecuária (avaliada em US$ 43,4
milhões) aumentaram.
Em 2002 e 2003, operações de desminagem da Halo Trust
cobriram uma vasta área geográfica removendo milhares de minas dos
campos. Durante o mês de junho de 2003, as equipes de desminagem
trabalharam nas províncias de Cabul, Parwan,
Baghlan, Balkh, Kunduz e Takhar removendo um total de 11.608
minas. Uma área de 1.015,129m2 foi limpa por equipes manuais e 279.688m2 por equipes mecânicas. Além disso, foram inspecionados 1.335,748m2.
Em junho de 2003, os Estados Unidos auxiliaram na destruição de
mais de 10 mil minas antitanques na província de Kandahar no Afeganistão. Essas minas terrestres estavam em um local
de suprimento de munição sem segurança onde os terroristas tinham
acesso ao material explosivo. Equipes da RONCO, DAFA e da Handicap
International (Bélgica) destruíram as minas em nove dias. Também
houve progresso na desminagem do projeto de construção da estrada
Cabul-Kandahar. Com
fundos de doadores internacionais, entre eles EUA e ONU, organizações
não-governamentais também criaram vários programas de capacitação
e campanhas para orientação sobre os riscos de minas em diversas
áreas. Resumindo, todos os lugares conhecidos e acessíveis afetados
por munições não detonadas durante a Operação Liberdade Duradoura
foram inspecionados e estão agora sendo limpos.