A vitória dos comunistas na guerra civil chinesa em 1949 teve impacto terrível sobre os Estados Unidos. Na primeira metade do século 20, a partir do presidente Theodore Roosevelt, os formuladores de política americana contribuíram para o surgimento de uma China próspera e forte. Presumiram que a China seria amiga dos Estados Unidos. Os americanos fiavam-se nas obras importantes que realizaram na China ao longo de um século. Entre elas, estavam a construção das faculdades cristãs, que foram as precursoras do moderno sistema educacional chinês, e o financiamento, pela Fundação Rockefeller, de programas de reconstrução rural e da faculdade Peking Union Medical College, onde estudaram os principais médicos chineses. Muitos americanos acreditavam que seu país tinha defendido a causa da China contra os imperialistas japoneses e europeus, começando com os "memorandos da política de portas abertas" enviados de Washington para as grandes potências, quando a simples sobrevivência da China como nação esteve ameaçada entre 1899 e 1900. E, mais obviamente, os Estados Unidos haviam liderado a luta para libertar a China da agressão japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Interrupção das relações China-EUA Mas a República Popular da China (RPC), proclamada em 1o de outubro de 1949, não foi amistosa com os Estados Unidos, e poucos chineses compartilhavam da opinião dos americanos sobre o papel histórico dos EUA na China. O novo líder, Mao Tsé-tung, desconfiava das intenções americanas e ordenou uma campanha antiamericana em junho de 1946. Suas forças perseguiram os americanos na China. Um diplomata americano foi espancado pela polícia em Xangai. O cônsul-geral americano em Mukden foi mantido em prisão domiciliar por um ano. O pior de tudo foi a intervenção de tropas comunistas chinesas, em outubro de 1950, na Guerra da Coréia contra as forças da ONU lideradas pelos americanos, na tentativa de rechaçar a invasão da Coréia do Sul pela Coréia do Norte. Como soldados americanos e chineses estavam se matando às dezenas de milhares nos combates, toda intenção de restabelecer relações diplomáticas normais entre Pequim e Washington desapareceu.
Por um período de mais de 20 anos a partir de então, os Estados Unidos e a China se consideraram adversários. Embora seus diplomatas eventualmente se cruzassem em conferências internacionais e mantivessem conversas esporádicas no plano diplomático, nenhum dos países expressou interesse em aproximação. Os americanos continuavam a reconhecer a República da China de Chang Kai-Chek, derrotado no continente e sobrevivendo na ilha de Taiwan, como o governo legítimo de toda a China. Mao e seus colegas persistiam em denunciar o imperialismo americano e recusavam-se a discutir qualquer assunto que não fosse o fim da ajuda americana a Chang e sua proteção a Taiwan. Nos Estados Unidos, a combinação de hostilidade da China, anticomunismo interno intensificado pela Guerra Fria e influência dos amigos americanos de Chang impediam que os formuladores de política nos anos 50 e 60 se aproximassem de Pequim. Na verdade, Washington usou sua influência para manter a República Popular fora das Nações Unidas, embora o presidente Dwight Eisenhower argumentasse ser um erro isolar a China. Contudo, em meados de 1960, a conscientização sobre a cisão sino-soviética e o enfraquecimento do anticomunismo por causa da desilusão com a guerra no Vietnã provocaram uma mudança na opinião americana sobre as relações com a China. Importantes líderes governamentais defendiam com insistência uma política considerada por eles mais realista: aceitar o regime de Pequim como governo legítimo da China e encontrar modos de se aliar a ela. Falavam em "controle sem isolamento". Contudo, o governo do presidente Lyndon Johnson estava por demais envolvido com o Vietnã, e os chineses foram surpreendidos pela Grande Revolução Cultural Proletária. Não se desenvolveu nenhum relacionamento novo. Arrefecimento das tensões Richard Nixon, vice-presidente de Eisenhower e candidato derrotado à sucessão presidencial em 1960, foi um líder americano cujo anticomunismo e hostilidade à China eram de conhecimento geral. Em 1968, foi eleito presidente dos Estados Unidos, e a possibilidade de diminuição das tensões com a China parecia mais remota do que nunca. Mas Nixon concordou com as estimativas de funcionários de primeiro escalão do Departamento de Estado de que a China poderia ajudar os Estados Unidos a acabar com a guerra no Vietnã e apoiar os esforços dos americanos para combater o crescente poder soviético. Reconheceu que a mudança de opinião do público americano mais suas credenciais anticomunistas lhe permitiriam procurar se aproximar da China. Vagarosa e cautelosamente, sem nenhum risco para a segurança dos Estados Unidos, o governo Nixon sinalizou seu desejo de melhorar as relações com a China. O convite de Chu En-Lai, principal diplomata da China, à equipe de pingue-pongue dos EUA e suas mensagens por intermédio do líder do Paquistão evidenciaram que ele tinha o mesmo objetivo. Pouco a pouco persuadiu o cético Mao de que os Estados Unidos não representavam mais uma ameaça à China e poderiam ser úteis aos esforços de Pequim para enfrentar a pressão soviética. O grande avanço aconteceu em 1971. Em seu discurso ao Congresso sobre o Estado da União em fevereiro de 1971, Nixon falou sobre a necessidade de estabelecer um diálogo com a RPC. Exigiu um assento para o governo de Pequim nas Nações Unidas — sem sacrificar a posição da República da China em Taiwan. Anteriormente, o reconhecimento americano do regime de Chang e o apoio a ele representaram um sério obstáculo à reaproximação entre a China de Mao e os Estados Unidos. Tanto Mao quanto Chang insistiam que podia existir somente uma China e nenhum deles concordava com os esforços de Washington de haver duas, uma no continente e outra em Taiwan. Todavia, em 1971, Nixon e Mao estavam ansiosos para se aproximar um do outro e aceitaram uma fórmula conciliatória de "uma única China, mas não agora". De fato, considerando a percepção do valor estratégico de melhores relações com Pequim, Nixon e seu assessor de Segurança Nacional, Henry Kissinger, estavam preparados para fazer mais concessões do que exigências a Mao. Encontrar um parceiro na luta contra a União Soviética era muito mais importante. Em julho de 1971, o mundo soube que Kissinger acabara de retornar de uma missão secreta à China. Nixon anunciou que ele, o presidente dos Estados Unidos, aceitara um convite para visitar a China. Em agosto e setembro, os Estados Unidos, pela primeira vez, apoiaram a participação do representante de Pequim no Conselho de Segurança das Nações Unidas enquanto davam apoio nominal aos esforços de Taipé para conseguir um assento. O pedido americano para que as duas delegações tivessem assento fracassou, minado pela decisão de Kissinger de escolher aquele momento para viajar a Pequim. O pedido albanês para substituir o representante de Pequim por Taipé venceu com facilidade. Foi uma das derrotas diplomáticas menos dolorosas que os Estados Unidos já sofreram. Washington tinha dado mais um passo em direção à política de uma única China. Visita presidencial Em fevereiro de 1972, Nixon foi à China, onde desfrutou de uma audiência pessoal com Mao Tsé-tung. Telespectadores estupefatos no mundo todo viram Nixon assistir a um balé chinês repleto de propaganda comunista e aplaudi-lo calorosamente no final. Era de fato um novo Nixon e um novo relacionamento com a China. No comunicado sino-americano emitido após a semana de Nixon na China, ficou claro que a resistência aos soviéticos foi o motivo da aproximação dos dois países. A declarada oposição à "hegemonia" na Ásia e no Pacífico era uma referência velada à redução da influência de Moscou na região. Taiwan, por outro lado, continuava sendo o principal obstáculo às relações diplomáticas normais, à "normalização". Os americanos reconheciam as reivindicações dos chineses de que Taiwan era parte da China, mas reafirmavam seu interesse em um acordo pacífico sobre o assunto. Nixon atendeu às exigências chinesas de remoção das forças americanas de Taiwan, comprometendo-se com a retirada definitiva dos Estados Unidos e prometendo fazê-la gradativamente conforme as tensões na região (Vietnã) fossem diminuindo. Ao mesmo tempo, ele e Kissinger procuravam reduzir a apreensão de Pequim de que o poder japonês substituiria o dos americanos na ilha. Ele ainda assegurou aos líderes chineses que os Estados Unidos não apoiariam a independência de Taiwan e prometeu tomar as providências desejadas pelos chineses depois de sua reeleição prevista para 1972. De acordo com um tratado de 1954, os Estados Unidos eram obrigados a defender Taiwan. Empresas americanas tinham investimentos de muitos bilhões de dólares na ilha. Pesquisas de opinião pública indicavam que os americanos não estavam dispostos a entregar os habitantes de Taiwan, amigos e aliados aos comunistas. Contudo, o governo Nixon estava preparado para se livrar do tratado de defesa de Taiwan, apostando que, no curto prazo, as pessoas da ilha poderiam se defender e que, no longo prazo, uma solução pacífica poderi a ser encontrada. Normalização Em 1973, China e Estados Unidos abriram "escritórios de contato", que funcionavam como embaixadas nas capitais de ambos os países. Contudo, a normalização foi adiada em virtude do escândalo de Watergate, que acabou levando Nixon a cair em desgraça e a renunciar à presidência. Porém, seus sucessores também estavam comprometidos com a normalização das relações com a China, conseguida no começo de 1979. O intercâmbio secreto de inteligência militar sobre os movimentos soviéticos, iniciado por Kissinger em 1971, nunca foi interrompido. A abertura de Nixon à China resultou em mudança de enorme importância no equilíbrio de poder durante a Guerra Fria. A aliança tácita entre os Estados Unidos e a República Popular contra o poder aparentemente crescente da União Soviética aliviou as ansiedades dos chineses em relação a um possível ataque soviético e possibilitou aos americanos concentrar seu poderio militar na Europa enquanto os soviéticos continuavam a ser confrontados por adversários do Ocidente e do Oriente, que então se uniram contra Moscou. Foi um momento decisivo na história mundial, que em última análise contribuiu para o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria. E, em 1979, o vice-presidente americano, Walter Mondale, viajou a Pequim onde repetiu as palavras pronunciadas por Theodore Roosevelt em 1908 para demonstrar novamente a convicção de que uma China forte e presumivelmente amiga era do interesse dos EUA.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.
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