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Depois da Guerra Fria

Walter Laqueur

ÍNDICE
Sobre esta edição
Apresentação
Destino dos Estados Unidos Ligado Indissoluvelmente ao de Outras Nações do Mundo
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O Canal do Panamá: Uma Ligação Marítima Vital para o Mundo
A Guerra Fria: Teste do Poder Americano e Prova de Ideais
O Plano Marshall: Uma Estratégia Que Deu Certo
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O Plano Marshall: Uma História em Fotos
A Crise de Suez: Uma Crise que Mudou o Equilíbrio de Poder no Oriente Médio
Exposição Universal e Internacional de Bruxelas (Expo 1958)
Nixon na China: Momento Decisivo na História Mundial
Diplomacia do Pingue-Pongue Restabelece Relações EUA-China
Comércio e Economia: Uma Força nas Relações Exteriores dos EUA
Depois da Guerra Fria
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Alguns Eventos Significativos das Relações Exteriores dos EUA
Bibliografia
Recursos na internet
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"A história mostra que o terrorismo funciona apenas em sociedades livres ou relativamente livres. Não havia terrorismo na Alemanha nazista nem na Rússia de Stalin; nem existia (ou existe) mesmo em ditaduras mais brandas. Mas isso significa que, em certas circunstâncias, se o terrorismo passou a ocupar espaço demais e se tornou mais que um estorvo, é preciso pagar um preço elevado em termos de liberdade e direitos humanos para sua eliminação."

Walter Laqueur é co-presidente do Conselho de Pesquisas Internacionais do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um centro de pesquisas públicas com sede em Washington. Foi professor das Universidades Brandeis e de Georgetown, bem como professor visitante das Universidades de Harvard, de Chicago, de Tel Aviv e Johns Hopkins.

O ex-presidente americano Ronald Reagan (à esquerda) e o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev exibem seus chapéus de caubói em momento de descontração, em 2 de maio de 1992, no Rancho Del Cielo, de Reagan, propriedade de 688 acres nas montanhas, 48 km ao norte de Santa Bárbara, Califórnia
O ex-presidente americano Ronald Reagan (à esquerda) e o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev exibem seus chapéus de caubói em momento de descontração, em 2 de maio de 1992, no Rancho Del Cielo, de Reagan, propriedade de 688 acres nas montanhas, 48 km ao norte de Santa Bárbara, Califórnia
(© AP/WWP)

Quando a Guerra Fria chegou ao fim, em 1989, com a derrocada do Muro de Berlim, quando os países da Leste Europeu reconquistaram sua independência e quando finalmente a União Soviética se desintegrou, o mundo inteiro se uniu no sentimento comum de que por fim a paz universal tinha descido à Terra. Não havia mais o temor de guerra com armas de destruição em massa. Um importante cientista político escreveu um livro intitulado O Fim da História. Obviamente, embora isso não significasse que a história tinha acabado, ele queria dizer que não havia mais conflitos graves e decisivos e que agora havia consenso em torno de determinados princípios básicos.

Foi um belo momento, mas a euforia durou pouco. Os céticos (incluindo este escritor) temiam que ainda restassem muitos conflitos no mundo, os quais haviam sido, porém, ofuscados ou reprimidos pela Guerra Fria. Em outras palavras, enquanto o confronto entre os dois lados continuasse, todos os outros, aparentemente menos importantes na época, passariam despercebidos. Pelo contrário, mesmo que de modo perverso, a Guerra Fria havia conseguido preservar alguma ordem no mundo e se constituído em fator de estabilização.

Também era verdade que havia certo exagero sobre os perigos de mais uma terrível guerra mundial. É que havia o equilíbrio do terror, pautado pela dissuasão mútua, exatamente por existir um grande arsenal de armas devastadoras. Como ambos os lados do conflito agiam de forma racional, por terem consciência das conseqüências de uma guerra desse tipo, a paz foi preservada.

Será que essa dissuasão mútua seria capaz de sobreviver ao fim da Guerra Fria? Ou a nova era seria marcada por uma grande desordem? A Guerra Fria não havia acabado com a proliferação de armas nucleares e de outros meios de destruição em massa, embora com certeza tenha contribuído para a desaceleração do processo. Hoje já não é mais assim; não existe apenas o risco de mais alguns outros países obterem essas armas.

A ameaça real e concreta é que a aquisição dessas armas por uns poucos provocará uma corrida generalizada em busca delas, porque seus vizinhos se sentirão expostos e ameaçados. Além disso, será que os novos donos de armas de destruição em massa serão tão racionais como os dois lados da Guerra Fria? Ou será que eles, movidos pelo fanatismo religioso, nacionalista ou ideológico, esquecerão o risco suicida que correrão se usarem as armas? Ou será que terão a ilusão de poder usar essas armas contra seus inimigos com impunidade e, ainda assim, apagar todos os seus vestígios em uma guerra por procuração?

O presidente George Bush (à esquerda) cumprimenta Lyudmila Putin e o presidente russo, Vladimir Putin, (no centro), na chegada destes ao rancho de Bush em Crawford, Texas, em 14 de novembro de 2001. Ao chegar, Lyudmila Putin entrega uma flor a Laura Bush
O presidente George Bush (à esquerda) cumprimenta Lyudmila Putin e o presidente russo, Vladimir Putin, (no centro), na chegada destes ao rancho de Bush em Crawford, Texas, em 14 de novembro de 2001. Ao chegar, Lyudmila Putin entrega uma flor a Laura Bush
(© AP/WWP)

Busca por liderança

Estas são perguntas preocupantes, surgidas nos últimos anos e cada vez mais prementes. Não há árbitro ou autoridade máxima para a resolução de conflitos. As Nações Unidas deveriam ter preenchido essa função. Mas não conseguiram fazer isso, como aconteceu com a Liga das Nações entre as duas guerras mundiais. As Nações Unidas são compostas de quase 200 Estados-membros, grandes e pequenos, democráticos e autoritários, com todos os tipos de gradações intermediárias. Alguns respeitam os direitos humanos; outros, não. São países com interesses conflitantes; falta-lhes poderio militar para intervir em uma emergência. Podem às vezes ajudar nas negociações para obter um acordo, mas são impotentes se as vias diplomáticas não funcionarem.

Quando a Guerra Fria terminou, os Estados Unidos emergiram como a única superpotência, e isso acarretou grandes responsabilidades no que dizia respeito à paz mundial. Nenhum outro país estava em posição semelhante para enfrentar os riscos à paz mundial − não apenas à sua própria segurança. Mas até mesmo uma superpotência não é onipotente; há limites à sua capacidade de cumprir suas obrigações internacionais. Ela não pode nem deve caminhar sozinha, mas sim atuar como líder nas ações internacionais por persuasão e também por pressão, se necessário.

No entanto, as superpotências nunca são populares. Esse tem sido o caso desde os dias do Império Romano e de todos os outros impérios, antes e depois. Elas são vistas com suspeita por nações mais fracas, não apenas pelos vizinhos. Esse é um dilema para o qual não há saída. Por mais sensato e honesto que seja seu comportamento, sempre existe o temor de que sua disposição e modo de agir possam mudar de repente. Existe a tendência de nações menores se unirem contra o líder. Por mais que a superpotência possa tentar, não existe panacéia para a popularidade − a não ser por meio da renúncia. Uma vez perdido o status de muito poderosa, suas chances de ganhar popularidade aumentam muito. Mas são poucas as superpotências que escolheram esse caminho ao longo da história.

Com o fim da Guerra Fria, verificou-se a ascensão de novos centros de poder, como a China e a Índia. Essas duas nações conseguiram progressos econômicos espetaculares, considerados quase impensáveis há uma década. Mas até agora esses países não mostraram intenção de desempenhar papel proporcional à sua importância econômica na política mundial. São grandes forças regionais que sem dúvida se revelarão plenamente no devido tempo. Isso, no entanto, pode estar ainda muito distante e, enquanto isso, não se mostraram inclinadas a assumir responsabilidades na manutenção da ordem mundial.

Por algum tempo, depois do fim da Guerra Fria, parecia que a Europa poderia desempenhar esse papel ao lado dos Estados Unidos, embora nem sempre em plena sintonia. Conforme chegaram a afirmar alguns observadores do cenário político, o século 21 seria o século da Europa, principalmente porque seu modelo era tão cheio de atrativos que poderia ser copiado pelo resto do mundo. Essa era a idéia da Europa como superpotência civil e moral.

Nos últimos tempos, essas vozes otimistas têm sido poucas e esparsas. É bem verdade que a Europa teve muito a oferecer ao resto da humanidade, e o movimento rumo à unidade européia depois de 1948 tem sido uma grande história de sucesso. Porém, o movimento perdeu interesse quando o Mercado Comum se tornou realidade, e até mesmo a economia funcionou menos bem do que havia sido esperado; não houve crescimento suficiente para financiar o Estado do bem-estar social, o orgulho do continente. Muitos dos novos membros haviam se juntado à União Européia, mas não havia uma política externa européia propriamente dita, muito menos uma força militar.

Ao longo de muitos anos, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) havia dado proteção à Europa e continua a fazê-lo. Algumas vozes chegaram a sustentar que a Otan havia perdido sua raison d'être pelo menos em parte, simplesmente porque, para começar, não existia mais a ameaça responsável pela formação da aliança. Mas, se as velhas ameaças haviam desaparecido, novas ameaças as haviam substituído.

Os que duvidavam da Otan teriam sido mais bem-sucedidos se tivessem estabelecido sua própria organização de defesa, o que não aconteceu.Tudo isso, combinado com a fragilidade demográfica da Europa − o encolhimento e o envelhecimento do continente − eram sinais de fraqueza. Suas iniciativas diplomáticas independentes, como as no Oriente Médio, não foram bem-sucedidas, e quando uma sangrenta guerra civil bateu à sua porta, nos Bálcãs, ela se mostrou incapaz de tratar do assunto sem ajuda externa. A era de uma superpotência moral, por mais desejável que fosse como um ideal, obviamente ainda não havia chegado.

Poucos sustentariam que chegou a hora de abolir a polícia e outras forças de segurança no nível interno. Porém, muitos agiram como se nenhuma força de manutenção da ordem fosse necessária no nível internacional, numa época em que os perigos como armas de destruição em massa são mais ameaçadores que nunca, pois os danos e desastres causados por elas podem ser infinitamente maiores que em qualquer época passada.

Tensões e terrorismo

Poucos têm se oferecido para atuar como polícia do mundo − uma tarefa reconhecidamente sem atrativos, sem remuneração e que desperta pouca gratidão. Será, talvez, desnecessário? Será que a ordem internacional talvez possa dar um jeito de cuidar de si mesma?

É possível, mas ao rastrear o cenário mundial não há muitos motivos para otimismo exagerado. A Rússia ainda não aceitou sua nova posição no mundo; é natural que ainda persistam ressentimentos devido à perda do império. A tendência de tornar responsável todo tipo de fatores externos é forte, e alguns sonham com a recuperação do poder e da glória do antigo regime.

Há a África, com seus milhões de vítimas de terríveis guerras civis, que a comunidade internacional não conseguiu impedir.

Acima de tudo, existe o Oriente Médio, com suas muitas tensões e terrorismo, nacional e internacional. O terrorismo não é fenômeno novo nos anais da humanidade; é tão velho quanto Matusalém. Tem assumido diversas formas e aparências, como o nacionalismo separatista, inspirado pela extrema esquerda e pela direita radical. Mas o terrorismo contemporâneo, impulsionado pelo fanatismo religioso e nacionalista, operando em Estados falidos, e algumas vezes instigado, financiado e manipulado pelos próprios governos, mostra-se mais perigoso que nunca.

Houve e continua havendo muitas concepções errôneas sobre as origens do terrorismo. Sustenta-se, com freqüência, que a pobreza e a opressão são as causas principais. Uma vez removidas a pobreza e a opressão, o terrorismo desaparecerá. No entanto, o terrorismo não surge nos países mais pobres, e raramente os conflitos étnicos são resolvidos com facilidade; e se dois grupos reivindicarem o mesmo território e não quiserem transigir?

O perigo real não está, é claro, na vitória do terrorismo. A história mostra que tal fenômeno só funciona em sociedades livres ou relativamente livres. Não havia terrorismo na Alemanha nazista nem na Rússia de Stalin; nem existia (ou existe) até mesmo em ditaduras mais brandas. Mas isso significa que, em certas circunstâncias, se o terrorismo passou a ocupar espaço demais e se tornou mais que um estorvo, é preciso pagar um preço elevado em termos de liberdade e direitos humanos para sua eliminação. Naturalmente, as sociedades livres relutam em pagar tal preço. Esse é um dos grandes dilemas da nossa época, e até agora ninguém encontrou uma solução indolor.

Eventos Significativos das Relações Exteriores dos EUA (1900 - 2001)

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.

Eventos Significativos das Relações Exteriores dos EUA (1900 - 2001)