Viagem Musical Pelos Estados UnidosJohn Edward Hasse, PhD
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Mesmo as pessoas que nunca visitaram os EUA estão familiarizadas com sua música. Durante seus quase 230 anos como nação, o país produziu uma impressionante quantidade de música original que surpreende pela variedade, energia, criatividade e realização artística. Passando pelos timbres musicais, desde as melodias mais simples do banjo e as danças tradicionais do interior ao blues obcecante de Robert Johnson e às brilhantes cadências jazzísticas de Charlie Parker, a música americana é uma das mais importantes contribuições dos Estados Unidos à cultura universal. Possivelmente, nunca uma nação em toda a história criou tamanha riqueza de estilos musicais vibrantes e influentes como os Estados Unidos. A música americana reflete a vitalidade, a diversidade, o espírito e a criatividade de seu povo. Não é preciso entender inglês para sentir a força de Aretha Franklin, o lamento de Hank Williams, a alegria de viver de Louis Armstrong, a franqueza de Johnny Cash, o virtuosismo de Ella Fitzgerald ou a energia de Elvis Presley. Esses músicos e os gêneros musicais que os acompanham estão disponíveis a todos no mundo inteiro por meio de gravações, downloads, internet, rádio, transmissões de programas da Voz da América, televisão e vídeo. Mas, para realmente apreciá-los e entendê-los, não existe nada melhor do que visitar os lugares onde nasceram e onde suas criações musicais ganharam forma e são preservadas. O presente artigo oferece aos visitantes uma viagem única pelos Estados Unidos, pesquisando museus e templos da música em todo o país. Outras tradições musicais que entraram no país pelas mãos de imigrantes mais recentes — como salsa e mariachi — e outros novos estilos dos EUA, inclusive grunge, rap, e hip-hop, ainda precisam fazer sua história em museus dedicados ao assunto ou em marcos históricos. Entretanto, é fácil encontrá-los em casas noturnas e festivais ou então na Rede Mundial de Computadores. Casas noturnas abrem e fecham em ritmo alucinante, e novos festivais aparecem o tempo todo, de modo que aqui procuramos nos concentrar mais naqueles lugares que provavelmente continuarão a existir nos anos futuros. Jazz. O jazz foi a música mais importante, influente e inovadora surgida nos Estados Unidos, e Nova Orleans, na Louisiana, é amplamente conhecida como o lugar onde o jazz nasceu. Nenhuma cidade, com exceção talvez de Nova York, recebeu a visita de tantos aficionados por jazz como Nova Orleans. Na esteira do golpe devastador do furacão Katrina sobre a “Cidade Crescente” em 29 de agosto de 2005, os entusiastas do jazz do mundo inteiro precisam agora infelizmente concentrar sua atenção nas reportagens sobre a reconstrução de Nova Orleans. Os habitantes de Nova Orleans e admiradores do jazz no mundo inteiro aguardam ansiosamente a abertura do Bairro Francês e do Preservation Hall [http://www.preservationhall.com/], um par de salas despojadas construídas em madeira que se tornaram, desde 1961, uma espécie de templo do som original do jazz tradicional de Nova Orleans. Entre outros tesouros de Nova Orleans a serem restaurados destacam-se a exposição sobre jazz do Museu Estadual de Louisiana [http://lsm.crt.state.la.us/site/] − completa com os instrumentos musicais de Louis Armstrong, Bix Beiderbecke e outros antigos mestres − e o Centro de Visitantes do Parque Histórico Nacional de Nova Orleans[http://www.nps.gov/jazz], que oferecerá novamente visitas autônomas a pé e outras informações da sua sede na rua North Peters.
Nos anos 1920 e 1930, a Cidade de Kansas City, Missouri, era um dos berços do jazz — Count Basie, Charlie Parker, Mary Lou Williams e outros grandes nomes do gênero ali se apresentaram. Um bom lugar para sentir o espírito da música é a antiga zona de jazz em volta das ruas 18 e Vine, onde fica o Museu Americano do Jazz [http://www.americanjazzmuseum.com/] e o histórico Teatro Gem. Na Cidade de Nova York, o jazz de todos os períodos pode ser ouvido em muitas casas noturnas históricas como os clubes Village Vanguard [http://www.villagevanguard.net/frames.htm], Blue Note [http://www.bluenote.net] e Birdland [http://www.birdlandjazz.com]. O Teatro Apollo do Harlem [http://www.apollotheater.com] também já recebeu muitos grandes artistas, a exemplo do Carnegie Hall [http://www.carnegiehall.org] situado entre a rua 57 e a Sétima Avenida. O mais novo templo de jazz da cidade é o Jazz at Lincoln Center [http://www.jazzatlincolncenter.org], complexo de US$ 130 milhões, inaugurado em outubro de 2004, que possui três salas de espetáculo: uma sala de concerto com capacidade para 1.200 pessoas, uma segunda sala, para 400 pessoas, com uma vista deslumbrante do Central Park, e outra, para 140 pessoas, abriga a casa noturna, Dizzy’s Club Coca-Cola. É no distrito de Queens, na Cidade de Nova York, que fica a casa de Louis “Satchmo” Armstrong (1901-71), o mais influente músico de jazz dos EUA, em minha opinião. A Casa de Louis Armstrong [http://www.satchmo.net] é aberta ao público e abriga uma pequena loja de presentes. Ragtime. Essa música sincopada, pianística por excelência, é uma das raízes do jazz. Uma pequena exposição de objetos de Scott Joplin, "Rei dos compositores de ragtime", pode ser vista na Faculdade Comunitária State Fair em Sedalia, Missouri — a cidade onde Joplin compôs sua famosa música Maple Leaf Rag. Sedalia organiza anualmente o Festival de Ragtime Scott Joplin. Em uma cidade muito maior como St. Louis pode-se visitar uma das casas onde Joplin morou, hoje transformada no Sítio Histórico Estadual da Casa de Scott Joplin [http://www.mostateparks.com/scottjoplin.htm]. Blues. O blues de doze compassos é possivelmente a única forma musical criada por inteiro nos Estados Unidos; e o Estado do Mississipi é muitas vezes considerado o berço do blues. O Estado produziu com certeza muitos músicos notáveis de blues, inclusive Charley Patton, Robert Johnson, Howlin' Wolf, Muddy Waters, e B.B. King. A maioria veio de uma zona sujeita a inundações, conhecida como Delta do Mississipi, que percorre 322 quilômetros ao longo do rio Mississipi, desde Memphis, no sul do Tennessee, a Vicksburg, no Mississipi. Esta região do Mississipi possui três modestos museus de blues: O Museu de Blues do Delta [http://www.deltabluesmuseum.org] em Clarksdale, o Museu do Hall da Fama do Blues e suas Lendas [http://www.bluesmuseum.org] em Robinsonville, e o Museu do Blues da Rodovia 61 [http://www.highway61blues.com] em Leland. A rodovia 61 é uma espécie de estrada do blues, por onde os músicos viajavam rumo ao norte, para Memphis, Tennessee. Em Memphis está a estátua de W.C. Handy, autor de St. Louis Blues e Memphis Blues, na famosa rua Beale [http://www.bealestreet.com], bem como o Clube de Blues de B.B. King [http://www.bbkingclubs.com]. Música bluegrass. A música bluegrass — estilo sincopado executado em instrumentos de cordas e que tem suas raízes nas colinas rurais e "lamentos" (depressões ou vales) no leste dos Montes Apalaches, nos EUA — passou a ter um público cada vez maior entre os moradores da cidade. Você pode visitar o Museu Internacional de Música Bluegrass [http://www.bluegrass-museum.org] em Owensboro, Kentucky e outro menor, o Hall da Fama Bluegrass de Bill Monroe [http://www.beanblossom.com] em Bean Blossom, Indiana. Uma recém-designada rota de direção, a chamada Crooked Road: A Trilha da Herança Musical da Virgínia [http://www.thecrookedroad.org], é um caminho de 402 quilômetros no pitoresco cenário do sudoeste da Virgínia, que liga sítios como o Museu Ralph Stanley, a Congregação da Família Carter, o Centro de Música Blue Ridge e o Museu do Berço da Música Country.
Música country. Há muito tempo epicentro da música country, Nashville, no Tennessee, orgulha-se do Grand Ole Opry [http://www.opry.com], palco da transmissão do mais antigo programa de rádio ao vivo do mundo, com apresentações que destacam a diversidade da música country todas as sextas-feiras e sábados à noite, além do impressionante Hall da Fama da Música Country [http://www.countrymusichalloffame.com]. Em exibição permanente, Sing Me Back Home: Uma Jornada da Música Country recorre a uma rica coleção de trajes, coisas dignas de serem lembradas, instrumentos, fotografias, manuscritos e outros objetos para contar a história desse gênero musical. Perto está o Histórico Estúdio B da RCA, onde Elvis Presley, Chet Atkins e outras estrelas realizaram gravações, e Hatch Show Print, uma das mais antigas oficinas de impressão tipográfica dos EUA, com pôsteres que mostram muitos dos maiores intérpretes de música country do país. Pode-se ver ainda em Nashville o Auditório Ryman [http://www.ryman.com], ex-residência do Grand Ole Opry, bem como muitas atrações noturnas, como o Bluebird Café [http://www.bluebirdcafe.com], um dos principais pontos de encontro de compositores promissores do país. Em Meridian, Mississippi, o Museu Jimmie Rogers [http://www.jimmierodgers.com] presta homenagem a um dos criadores da música country.
Rock, rhythm and blues e soul. O rock 'n' roll abalou o país e o mundo e, mais de 50 anos após o seu surgimento, continua a fascinar e animar centenas de milhões de ouvintes ao redor do globo. A cidade de Memphis, no Tennessee, abriga a casa de Elvis Presley, mansão de gosto duvidoso, mas que não deixa de ser interessante, conhecida como Graceland [http://www.elvis.com]; o Estúdio Sun [http://www.sunstudio.com] onde Elvis realizou suas primeiras gravações (e onde depois outros músicos famosos também gravaram); o Museu Stax do Soul Americano [http://www.staxmuseum.com] abrangendo as gravadoras Stax, Hi e Atlantic Records; e os sons do Memphis and Muscle Shoals. O Museu do Rock e Soul de Memphis apresenta um excelente espetáculo smithsoniano que liga a história de Memphis, dos anos 1920 aos anos 1980, enfocando o blues, o rock e o soul – começando com W. C. Handy e passando por Elvis, Booker T. e os MGs . A cidade de Detroit, em Michigan, é sede do Museu Histórico da Motown [http://www.motownmuseum.com] com lembranças dos Supremes, Temptations, Stevie Wonder, Marvin Gaye, Aretha Franklin e outros intérpretes de soul que pertenceram à gravadora Motown Records. Para quem é grande admirador de Buddy Holly, o melhor é tomar o caminho do Centro Buddy Holly [http://www.buddyhollycenter.org] em Lubbock, Texas. O magnífico Hall da Fama do Rock ‘n’ Roll [http://www.rockhall.com] em Cleveland, Ohio ocupa um prédio estonteante projetado pelo renomado arquiteto I.M. Pei, com centenas de peças e lembranças, e amostras audiovisuais. Em Seattle, Washington, o Projeto de Experiência Musical no prédio projetado por Frank Gehry [http://www.emplive.org] é um museu interativo único, cujo foco é a música popular e o rock.
Música folk. A maioria dos países tem sua própria música nacional — na Europa e nos Estados Unidos ela é geralmente rotulada como "música folk". A música folk é passada de uma pessoa à outra por tradição oral ou auricular, isto é, ela é ensinada por ouvido em vez de partituras. A origem das canções e das músicas instrumentais é envolta em mistério e existem muitas variantes diferentes (ou versões) de cada peça, aguçadas por ouvidos, vozes, dedos e sensibilidades dos mais variados intérpretes. A melhor maneira de ouvir essa música ao vivo é ir a um dos muitos festivais de música folk realizados nos Estados Unidos. O maior deles é o Festival Smithsoniano de Folclore [http://www.folklife.si.edu] realizado todos os meses de junho e julho no National Mall em Washington, D.C. O 40o festival anual será realizado em 2006. Música latina. Os Estados Unidos são naturalmente uma nação de imigrantes do "Novo Mundo", e cada novo grupo étnico que chega ao país traz consigo suas próprias tradições musicais que, por sua vez, continuam inevitavelmente a mudar e evoluir enquanto criam raízes em solo estrangeiro. Os hispânicos são hoje o maior grupo minoritário nos EUA, e eles cultivam muitas tradições musicais. Tocada por conjuntos de trompete, violino, violão, vihuela e guitarrón, a música mariachi mexicana pode ser ouvida em muitos locais do sudoeste americano; a coisa que mais se aproxima de um templo mariachi é La Fonda de Los Camperos, restaurante no 2501 Wilshire Boulevard em Los Angeles, que, em 1969, foi o pioneiro na criação de um teatro-restaurante mariachi. Líder de conjunto e violonista, Nati Cano foi agraciado com a maior condecoração do governo dos EUA para as artes folclóricas e tradicionais, e sua idéia de teatro-restaurante mariachi espalhou-se por Tucson, Arizona; Santa Fé, Novo México; San Antonio, Texas; e outras cidades.
A música vibrante, dançante, chamada salsa, trazida para a Cidade de Nova York por emigrados cubanos e porto-riquenhos, pode ser ouvida e dançada em casas noturnas de Nova York, Miami e outras cidades cosmopolitas. Exposição de museu chamada ¡Azúcar! A Vida e Música de Celia Cruz, tendo como destaque a Rainha da Salsa, que viveu a maior parte da carreira nos Estados Unidos, foi montada no Museu Nacional da História Americana do Instituto Smithsoniano, em Washington, D.C. Estará em cartaz até 31 de outubro de 2005. Uma exibição on-line pode ser vista em [http://www.americanhistory.si.edu/celiacruz/]. Música cajun. O Centro Cultural Acadiano da Pradaria em Eunice, Louisiana (cerca de três horas de carro a oeste de Nova Orleans), conta a história dos povos acadianos ou cajuns — que emigraram para este Estado depois de serem expulsos do Canadá nos anos 1750 —, trazendo com eles sua música e cultura francófonas características [http://www.nps.gov/jela/pphtml/facilities.html]. O Teatro Liberty abriga o programa de rádio ao vivo, com duas horas de duração, Rendez-vous des Cajuns, que dá destaque a bandas cajun e zydeco, números musicais únicos e comediantes cajun, todo sábado à noite. Eunice é também morada do Hall da Fama da Música Cajun [http://www.cajunfrenchmusic.org], e a Universidade Estadual da Louisiana, em Eunice, mantém um site dedicado a músicos contemporâneos que tocam música crioula, zydeco e cajun. [http://www.nps.gov/jela/Prairieacadianculturalcenter.htm]. Trilhas de espetáculos e música clássica. Nenhuma viagem musical nos Estados Unidos estaria completa se não fossem mencionadas outras grandes atrações: trilhas de espetáculos e música clássica. Embora a segunda tenha se originado na Europa, compositores nacionais como Aaron Copland e Leonard Bernstein deram um novo toque ao gênero clássico com seu estilo americano exuberante. O Lincoln Center [http://www.lincolncenter.org/index2.asp] e o histórico Carnegie Hall, na Cidade de Nova York, [http://www.carnegiehall.org/jsps/intro.jsp] são os locais mais conhecidos por suas muitas opções de música clássica, embora outras excelentes apresentações de algumas orquestras sinfônicas possam ser realizadas em todo o país [http://www.findaconcert.com/] Para os entusiastas das trilhas de espetáculos, a Broadway é o templo americano do teatro ao vivo. Broadway é o nome de uma das ruas mais famosas de Nova York. Também se refere à área de 12 quarteirões ao seu redor, conhecida como "O Grande Caminho Branco" dos letreiros luminosos dos teatros. Nos Estados Unidos, reestréias de musicais da Broadway são feitas durante todo o ano em teatros regionais. Instrumentos musicais. O Museu Metropolitano de Arte de Nova York [http://www.metmuseum.org/Works_of_Art/department.asp?dep=18] exibe instrumentos musicais raros como obras de arte. O Museu Nacional da História Americana do Instituto Smithsoniano, em Washington, D.C., tem uma coleção de instrumentos de cordas Stradivarius decorados, pianos, cravos e violões, além de exposições dedicadas às lendas do jazz Ella Fitzgerald e Duke Ellington. Em Carlsbad, Califórnia — não muito distante de San Diego — o Museu de Produção Musical [http://www.museumofmakingmusic.org] mostra mais de 500 instrumentos e amostras de áudio e vídeo interativas. O Museu Fender de Música e Artes [http://www.fendermuseum.com] no subúrbio de Corona em Los Angeles, Califórnia, apresenta uma exposição sobre os 50 anos de história da guitarra Fender. Na cidade das Grandes Planícies, Vermillion, Dakota do Sul, o Museu Nacional de Música [http://www.usd.edu/smm] exibe 750 instrumentos musicais. Não importa aonde se vá nos Estados Unidos, o que se percebe é um povo apaixonado por “sua” música – seja ela jazz, blues, country do oeste, rock ‘n’ roll, ou qualquer outra forma miríade — e feliz por poder compartilhá-la com visitantes. É uma forma divertida e informativa de viajar por todas as regiões dos EUA. LEITURA RECOMENDADA Bird, Christiane. The Da
Capo Jazz and Blues Lover’s Guide to the U.S. 3a ed. Nova York: Da Capo
Press, 2001.
John Edward Hasse, Ph.D., é historiador musical, pianista, autor premiado e produtor de discos. Atua como curador de Música Americana no Museu Nacional da História Americana do Instituto Smithsoniano, onde criou a Orquestra Smithsoniana de Obras-Primas do Jazz e o Mês de Apreciação do Jazz internacional. É o autor de Beyond Category. The Life and Genius of Duke Ellington, o editor de Jazz: The First Century, produtor e autor do livro e do conjunto de três discos, The Classic Hoagy Carmichael, pelo qual recebeu duas indicações para o Grammy. Realiza conferências sobre música americana nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.
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