As responsabilidades do Escritório de Assuntos do Oriente Próximo (NEA) do Departamento de Estado vão do Marrocos, no Oceano Atlântico, às fronteiras orientais do Irã. Na grande burocracia temos grande visibilidade, mas somos surpreendentemente pequenos em termos de pessoal e recursos. Nossa região, com seus 19 países, engloba de pequenos países a civilizações populosas e antigas, como o Egito e o Irã. Inclui dois terços das reservas comprovadas de petróleo do mundo e é berço das três grandes religiões monoteístas. É a terra de Jerusalém e Meca, de Belém e Babilônia, de guerras santas e homens santos. Foi lá onde nasceu a civilização e o alfabeto foi inventado, onde a luz da civilização clássica sobreviveu após bruxulear durante a idade das trevas na Europa. É a região com os problemas de política externa dos EUA mais desafiadores e voláteis. Tenho grande sorte de ter passado parte importante de minha vida adulta trabalhando e vivendo neste pedaço do mundo tão fascinante, frustrante, intenso e lindo. Meus filhos, minha esposa, Gretchen, e muitos amigos e colegas têm por essa região profundo interesse e admiração. O Oriente Médio pode ser inspirador por suas promessas e desapontador por suas tragédias, mas nunca pode ser esquecido. Da beleza natural de Wadi Rum, passando pela vastidão do Quadrante Vazio da Arábia Saudita, até os cedros lendários do Líbano, os mercados exóticos da Cairo antiga, das orgulhosas Alepo e Isfahã à dinâmica Dubai, crescendo a todo vapor no Golfo Pérsico, o Oriente Próximo conta com paisagens estonteantes. Mas isso é pouco perante o mosaico populacional de rápido crescimento de mais de 350 milhões de habitantes inquietos e muito diversos, que não são muito diferentes de nós — buscam também garantir uma vida digna, livre do medo, e têm esperança num futuro melhor para si mesmos e para seus filhos. Muitos deles são meus colegas ou amigos de longa data.
Desafios profundos e persistentes Os desafios dos Estados Unidos no Oriente Médio são profundos e persistentes. Procuramos promover a cooperação contra o terrorismo global e trabalhamos para prevenir atentados contra nós e nossos amigos; defendemos aspirações por dignidade humana e reformas; e lutamos por paz duradoura para Israel, palestinos e seus vizinhos. Todos os nossos objetivos políticos sustentam-se em dois pilares básicos. O primeiro é promover liberdade, justiça e dignidade humana — trabalhar para acabar com a tirania, promover democracias efetivas e ampliar a prosperidade por meio do comércio livre e justo e de políticas sábias de desenvolvimento. O segundo pilar de nossa estratégia global é enfrentar os desafios de nossos tempos colaborando com a crescente comunidade de democracias para resolver muitos dos problemas surgidos — ameaças de pandemias, proliferação de armas de destruição em massa, terrorismo, tráfico humano, desastres naturais — que ultrapassam as fronteiras nacionais e regionais. Enquanto buscamos mudanças positivas que se traduzirão em uma vida melhor para todos os povos da região, trabalhamos em parceria com governos, sociedade civil e outros atores em um amplo espectro de questões prioritárias. Respeitamos profundamente o Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita e buscamos cultivar relações importantes e duradouras com esses países. Aplaudimos suas ações reformistas e os estimulamos a fazer mais. Apoiamos e estimulamos seus esforços para deter ideologias radicais e promover a moderação e a tolerância. Apreciamos seu trabalho construtivo em muitas frentes diferentes, como cooperação regional, promoção do fim de conflitos regionais e combate ao terrorismo. Estamos trabalhando com os iraquianos para garantir um Iraque unido, estável e democrático. O processo de desenvolvimento de um sistema político estável que produza um governo de união nacional competente e forte que reflita as necessidades e os interesses de todos os iraquianos é um esforço iraquiano, mas conta com nosso firme e sincero apoio.
Continuamos a trabalhar em prol da visão do presidente de uma solução de dois Estados, com os israelenses e palestinos vivendo em paz, estabilidade, prosperidade e dignidade. Já se perderam vidas demais em ambos os lados como resultado da violência e do terrorismo. Embora reconheçamos e respeitemos plenamente o processo político que o levou ao poder, temos sérias preocupações com o Hamas. Qualquer governo palestino que estimule ou tolere o terrorismo contra inocentes não apenas contribui para aumentar a violência contra os israelenses, como também prejudica muito os interesses do povo palestino, aumentando ainda mais seu isolamento. Os Estados Unidos não terão qualquer contato com tal governo e estamos trabalhando com muitos outros na região e no mundo para exigir que abandone seu apoio ao terror, reconheça o direito de Israel de existir e aceite acordos anteriores. Estamos concentrados no desafio do Irã à comunidade internacional. O regime de Teerã despreza as normas internacionais e suas responsabilidades perante a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), apóia a violência e o terror no Iraque, Líbano e em todo o mundo e recusa-se a levar à justiça lideranças da Al Qaeda que prendeu em 2003. Continua a dar ao Hezbollah e a grupos terroristas palestinos recursos, treinamento e armas. Como o presidente Bush e a secretária Rice deixaram bem claro, os Estados Unidos ficam ao lado do povo iraniano que sofre a contínua repressão e o desmando econômico do governo. Esperamos um dia ser os melhores amigos do povo iraniano.
Democracia e reformas Continuamos a apoiar a opção por democracia e reformas enunciada pelo governo libanês. O Líbano obteve muitas conquistas no ano passado — forçou as tropas sírias a se retirar do país e realizou eleições livres e justas. Após uma guerra destrutiva provocada pelo Hezbollah, a Resolução 1701 do Conselho de Segurança das Nações Unidas proporciona a base essencial de apoio ao povo libanês, num momento em que este busca reafirmar a independência do país, fortalecer a democracia, restabelecer a soberania do governo libanês e das forças armadas em todo o território e exigir dignidade, verdade e justiça. Estamos envidando esforços para expressar nossa solidariedade ao povo sírio. As aspirações populares por uma vida melhor e mais digna são frustradas por um regime atávico que reprime a sociedade civil síria, procura intimidar os libaneses, não controla sua fronteira com o Iraque e patrocina grupos terroristas palestinos e do Hezbollah. Continuamos a considerar de fundamental importância que o regime sírio cumpra as resoluções 1644, 1636, 1559, 1595 e 1701 do Conselho de Segurança da ONU e mantemos nosso compromisso de pôr fim ao apoio sírio à agressão armada do Hezbollah ao Líbano e de levar à justiça os responsáveis pelo assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Hariri. Na Arábia Saudita, a parceria entre o rei Abdulaziz e o presidente Roosevelt, iniciada em fevereiro de 1945, continua até hoje por meio dos reis e presidentes que os sucederam. A Arábia Saudita é símbolo do mundo islâmico, país onde nasceu o Islã e onde se localizam suas duas cidades mais sagradas. Esperamos que o Reino lidere os esforços para garantir a predominância de uma forma moderada de islamismo e o aumento da participação popular, ampliando as oportunidades para as mulheres e estimulando o desenvolvimento de um setor econômico privado vibrante. O norte da África, região que mantém relações com os Estados Unidos desde nossa independência, está ganhando importância cada vez maior para nossos interesses regionais e estratégicos. Mais da metade dos árabes vive nessa região, contando com o Egito. O restabelecimento de relações mais normais com a Líbia teve como pano de fundo os feitos históricos do país relacionados com sua renúncia ao terrorismo e aos programas de fabricação de armas de destruição em massa e de mísseis balísticos de longo alcance. O Marrocos emerge como líder regional e principal parceiro dos EUA nas reformas. A Argélia também tem trilhado o caminho de reformas sérias após uma década de turbulências internas. Estamos estimulando a Tunísia a aliar seu importante histórico econômico e social a esforços semelhantes em reformas políticas. Esses países têm ainda longo caminho a percorrer nas áreas de reformas políticas e econômicas e respeito aos direitos humanos, mas estamos preparados para ajudá-los. Estamos cientes também de que enfrentam a ameaça comum do radicalismo religioso e criaram a Iniciativa Contraterrorismo Transaariano como forma de luta contra ele. Isso exigirá trabalho contínuo de apoio aos esforços da ONU para resolver a longa disputa pelo Saara Ocidental, cujo fim é a chave para a verdadeira cooperação regional. Conclusão Todas essas questões formam uma pauta de desafios e dificuldades. Algumas dessas crises têm ocupado legisladores e governos por décadas. Porém sabemos que as vozes reformistas, que buscam mudanças positivas e mais humanidade no governo, não se originaram no Ocidente, mas partem de líderes regionais de dentro e fora do governo. Reconhecemos que a democracia prosperará na região com as características e o timing próprios do Oriente Médio. Estamos dando apoio concreto aos reformadores e mantenedores da paz na região para que os conflitos diminuam, a democracia possa prosperar, a educação melhore, as economias cresçam e as mulheres sejam valorizadas. Estamos animados com os avanços recentes no campo dos direitos das mulheres no Kuwait e no Catar. Trabalhamos com afinco para apoiar todas essas mudanças em um ambiente de respeito mútuo e humildade, profundamente conscientes da necessidade de respeitar as tradições e a cultura da região e de ouvir o povo, mesmo quando sua voz se levanta com raiva e críticas.
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