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Um Novo cenário AssistencialCarol C. Adelman
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Embora estrelas do rock e líderes do G8 identifiquem o aumento da ajuda governamental como elemento fundamental na assistência aos pobres do mundo, essa assistência vem perdendo importância para o mundo em desenvolvimento. Os fluxos de capital privado e a filantropia privada — inclusive remessas de valores enviadas pelos imigrantes a seus países —, que atendem a necessidades tradicionais como educação, habitação e assistência médica, agora diminuem a importância da ajuda governamental oficial. Além disso, parcerias público-privadas criativas, o crescimento expressivo das doações via internet e novas tecnologias moldaram um novo cenário assistencial. Os governos devem entender isso e adequar suas contribuições de forma apropriada para ajudar os pobres de maneira mais eficaz. O Índice de Filantropia Global de 2007, preparado pelo Centro para a Prosperidade Global do Instituto Hudson, revela que em 2005 (dados completos mais recentes disponíveis) os americanos doaram US$ 95 bilhões para o mundo em desenvolvimento por meio do setor privado, incluindo fundações, corporações, organizações voluntárias e privadas, faculdades, universidades e instituições religiosas, bem como por meio do voluntariado e da remessa de valores[http://gpr.hudson.org/files/publications/IndexGlobalPhilanthropy2007.pdf]. Isso é quase três vezes e meia a ajuda oficial dos EUA. As empresas americanas investiram e emprestaram outros US$ 69 bilhões em capital privado. Essas iniciativas privadas representaram cerca de 86% de todo o fluxo econômico americano para os países em desenvolvimento.
A magnitude desse engajamento do setor privado e o sucesso comprovado das abordagens do setor privado e das parcerias inovadoras do setor público-privado sugerem que os modelos de ajuda externa tradicional precisam de uma revisão. Os programas da era do Plano Marshall, que forneciam assistência principalmente por meio de governos anfitriões, muitas vezes por meio de consultores caros e infra-estruturas administrativas complicadas, são obsoletos e muitas vezes ineficientes. Esses programas de ajuda externa tradicionais foram elaborados para um mundo no qual eram mínimas as iniciativas de investimento privado e de filantropia internacional dirigidas ao mundo em desenvolvimento. Portanto, avaliar a assistência internacional americana simplesmente por meio da ajuda do governo distorce a magnitude e a eficácia da generosidade americana para com as nações pobres. Quando somamos nossas doações privadas à ajuda externa oficial de nosso governo, podemos entender melhor as verdadeiras dimensões da assistência americana. Quando avaliamos a natureza e a essência da assistência do setor privado, vemos abordagens que freqüentemente funcionam melhor — investimento de dinheiro nos mercados globais, emprego de tecnologia que liga os doadores privados diretamente às pessoas carentes, redução de custo do fornecimento da assistência e melhora da qualidade daquilo que é fornecido. Estratégia efetiva Estudos de casos dessas iniciativas do setor privado e de outros “novos modelos” revelam expressões práticas dos ideais americanos de responsabilidade pessoal, soluções práticas e localizadas e o cidadão como agente de mudanças. Os doadores de hoje são orientados para prática e resultados. Eles querem resultados mensuráveis obtidos com os parceiros locais; não têm paciência com critérios enigmáticos que atrapalham a assistência às pessoas. As “associações de imigrantes conterrâneos” que juntam dinheiro para ajudar diretamente suas ex-comunidades estão tendo um impacto surpreendente. Faculdades e universidades em todos os Estados Unidos fornecem bolsas de estudos que reduzem a importância dos programas financiados pelo governo. Faculdades de administração de empresas estão ensinando modelos de filantropia de risco nos quais organizações sem fins lucrativos ajudam as pessoas nos países em desenvolvimento a abrir negócios, criar empregos e obter lucros. Empresas farmacêuticas e fabricantes de produtos médicos fornecem anualmente bilhões em programas de capacitação médica e assistência em serviços e produtos para o mundo em desenvolvimento. Novas fundações e entidades beneficentes estão revendo a infra-estrutura administrativa, o processo de tomada de decisão e a avaliação de resultados. A revisão do Índice sobre a doação do setor privado americano confirma que os americanos continuam a ser inovadores e práticos, uma vez que ajudam a população pobre do mundo por meio de iniciativas individuais e comunitárias, de organizações sem e com fins lucrativos e por meio de uma variedade de novas plataformas e relacionamentos. A Fundação Bill e Melinda Gates exemplifica a nova estratégia. Em 2005, a fundação — a maior instituição filantrópica do mundo — aumentou sua doação para a saúde global, contribuindo com mais de US$ 436 milhões por meio de sua iniciativa Grand Challenges in Global Health (Grandes Desafios em Saúde Global). Essa parceria público-privada apóia projetos de pesquisa envolvendo cientistas de 33 países para criar tecnologias para o mundo em desenvolvimento: tecnologia da saúde que seja fácil de transportar, usar e que seja eficaz. A Grand Challenges é uma parceria entre a Fundação Gates e os Institutos Nacionais de Saúde do governo dos EUA. Além disso, o Fundo Britânico Wellcome forneceu US$ 27 milhões e os Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde forneceram US$ 4,5 milhões. A iniciativa ilustra uma parceria público-privada internacional ideal: angaria fundos públicos e privados e reúne talentos e habilidades especiais de cada setor para aplicar às necessidades cruciais de desenvolvimento no mundo todo. Para atingir seu objetivo de “… que todas as pessoas — não importa onde morem — tenham a chance de ter uma vida produtiva e saudável", a Fundação Gates adotou uma estratégica prática e eficaz. Onde os esforços governamentais corriqueiros falham, a fundação reúne os parceiros certos e a experiência específica necessária para resolver um determinado problema. Dependendo da questão, a fundação pode trabalhar com governos, organizações sem fins lucrativos, empresas ou pessoas físicas — o que quer que seja necessário para a realização do trabalho. Esses esforços criaram novos incentivos para o envolvimento corporativo e redefiniram os limites do público-privado tradicional, tudo para de ter “o maior impacto para a maioria das pessoas”.[http://www.gatesfoundation.org/AboutUs/Announcements/Announce-070109.htm]
Derrubando fronteiras Nas últimas duas décadas, novas espécies de relacionamentos internacionais e institucionais emergiram para ajudar a população carente no mundo em desenvolvimento, eliminando fronteiras entre países doadores e beneficiários e limites entre modelos de organizações com e sem fins lucrativos. Na África rural, transportar doentes para instalações médicas apropriadas pode ser um problema sério. Programas oficiais de assistência gastaram somas significativas na compra de veículos para esse fim, mas faltavam motoristas qualificados e os veículos eram subutilizados ou não funcionavam por falta de manutenção. Entram em cena o motociclista californiano Randy Mamola, estrela do Moto Grand Prix e seus colegas Andrea e Barry Coleman. Analisando cuidadosamente as necessidades e circunstâncias locais e muitas vezes trabalhando com autoridades locais de saúde pública e governos nacionais, o trio fundou a Riders for Health [Motociclistas em Prol da Saúde] com sede no Reino Unido. A organização arrecadou doações privadas para financiar a capacitação de motoristas e outros profissionais necessários em Uganda, Gâmbia e Lesoto. Atualmente, a Riders for Health é administrada inteiramente por equipes africanas e mantém veículos de duas e quatro rodas que prestam serviços de saúde a quase 11 milhões de pessoas em toda a África. Um paciente com Aids do bairro de Makoni, no Zimbábue, explica como a Uhuru — motocicleta especial desenvolvida pela Riders for Health para todos os tipos de terrenos acidentados — facilitou sua vida e a de sua família: “Antes da Uhuru, chegar ao hospital costumava ser um pesadelo. Minha família tinha que sair e alugar um veículo para me pegar em casa e me levar até lá”. A Uhuru também possibilitou às equipes médicas prestar ajuda importante no tratamento de doenças evitáveis. Um estudo, conduzido pela Riders for Health e autoridades de saúde pública local no Zimbábue, documentou uma redução de 20% nos novos casos de malária no bairro de Binga, onde a Riders atuava. Os bairros vizinhos de Binga continuaram a sofrer com índices crescentes de infecção. A vantagem da tecnologia A tecnologia aplicada é outra área na qual novas estratégias e parcerias têm um efeito profundo na assistência ao mundo em desenvolvimento, inclusive no fornecimento e uso de remessas de dinheiro. Esses pagamentos de imigrantes a suas famílias em seus países de origem ajudam enormemente a tirar as pessoas da pobreza no mundo em desenvolvimento. Novas tecnologias permitem que cada dólar enviado chegue quase integralmente ao destinatário pretendido mediante redução dos custos de transmissão, direcionando mais remessas de valores para o investimento e “oferecendo serviços bancários aos sem-banco” — integrando pessoas pobres no setor financeiro por meio de contas de poupanças e crédito.
Sistemas de pagamentos eletrônicos transfronteiriços estão entre o número crescente de opções para evitar os custos relativamente altos de transferência de fundos. O Banco Federal Reserve dos EUA, por exemplo, atualmente conecta seu sistema de transferência automatizada ao seu congênere mexicano sob a Parceria para a Prosperidade entre Estados Unidos e México. As taxas de transferência eletrônica de dinheiro entre os Estados Unidos e o México caíram para US$ 0,67 por transação. Serviços de remessa de valores incentivam remetentes e destinatários a substituir as transações em dinheiro vivo por transações via conta bancária, permitindo que remetentes e destinatários acumulem capitais, ganhem juros e façam empréstimos para investimentos empresariais. Os americanos freqüentemente enfatizam a iniciativa individual, a independência e a responsabilidade pessoal como valores fundamentais. Vemos a aplicação desses valores quando os americanos usam a internet para reinventar a filantropia global. Doadores potenciais e beneficiários se encontram por meio de blogues e sites de relacionamento, onde os links diretos de baixo custo ou gratuitos são abundantes e a publicidade é “viral”, espalhando-se rapidamente por meio da Rede Mundial de Computadores. Voluntários virtuais ajudam a divulgar as necessidades e atrair novos doadores. Com meios seguros para o uso dos cartões de crédito, os doadores podem doar diretamente a suas causas prediletas. Doadores, voluntários potenciais e organizações beneficiárias podem consultar portais, tais como change.org, dosomething.org, e firstgiving.com para identificar causas dignas para suas doações, oportunidades de voluntariado ou para listar seus projetos para doadores potenciais. Uma parceria mais estreita Esses são apenas alguns dos exemplos de como a eficiência do setor privado ajuda a criar prosperidade no mundo em desenvolvimento. A ajuda externa governamental deveria se fundir o máximo possível com os projetos privados e instituições locais, particularmente com o número crescente de fundações comunitárias no mundo em desenvolvimento. Essas fundações aumentaram mais de 25% entre 2000 e 2005. Vajiraya Buasari, chefe de uma organização filantrópica local na Tailândia, diz que sua organização pode resolver problemas com sucesso porque “somos uma organização não-governamental, agimos imediatamente, gastamos corretamente e somos responsáveis”. Fazendo parcerias mais diretamente com instituições locais no mundo em desenvolvimento, os Estados Unidos e outros doadores governamentais sujeitam suas iniciativas a um teste de mercado crucial. Projetos financiados pelo setor público que atraem fundos privados e voluntários têm mais probabilidade de produzir resultados sólidos e de se tornar sustentáveis. Essas parcerias podem fornecer ajuda diretamente às pessoas, desenvolver relacionamentos de igual para igual e criar instituições duradouras com maior potencial para resolver os desafios alarmantes da pobreza mundial, da saúde, do meio ambiente e dos direitos individuais.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | ||||||