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O termo “redes de relacionamento” nos faz lembrar sites como Bebo e MySpace, mas a prática de fazer contato pessoal via internet está levando a uma onda de inovação tecnológica nas empresas e organizações americanas. As novas redes de relacionamento não dependem das receitas de publicidade e da redescoberta de amigos de infância. Elas são criadas visando finalidades específicas, que vão desde o combate à pobreza até a reunião de simpatizantes de campanhas políticas. Avaliando de modo amplo as aplicações das redes de relacionamento, verifica-se que empreendedores, filantropos e mesmo candidatos políticos estão construindo conexões em novos e fascinantes moldes. Por meio dos sites que criam estão mudando a natureza da interação humana na internet.
Combate à pobreza Como funcionário da Microsoft responsável pela gestão de um laboratório em Bangalore, o americano Sean Blagsvedt percebeu a sorte que teve por nascer em um país rico. Ele resolveu usar sua experiência em tecnologia para ajudar pessoas carentes na Índia. Quando lia sobre as causas da pobreza, Blagsvedt deparou-se com um estudo revelando que as pessoas saiam da pobreza ao encontrar emprego. Mais de 70% das vezes, elas encontravam os empregos por meio de contatos sociais. Com essa informação, Blagsvedt desenvolveu a idéia de conectar empregados e empregadores por meio de um sistema computadorizado, mas precisava superar o fato de que a maioria da população carente na Índia não tinha acesso à tecnologia. Por essa razão, Blagsvedt criou o Babajob, um site indiano que conecta potenciais empregados com empregadores. Blagsvedt e sua equipe pagam pessoas que têm acesso a computador para inscrever aqueles que não têm, o que resolve o problema de como encontrar pessoas à procura de emprego na sua base de dados. Isso também cria um novo tipo de trabalho intermediário decorrente das redes de relacionamento, pois uma pessoa que saiba operar um computador pode ganhar a vida inscrevendo pessoas no banco de dados. O Babajob também está funcionando em cibercafés e organizações não-governamentais a fim de ajudar a construir um pool de pessoas à procura de emprego. Trabalhadores potenciais são então apresentados on-line, em locais que podem ser encontrados pelos empregadores. A única exigência é que todos os inscritos tenham acesso a um telefone, ainda que pertença a um parente distante. O que torna a Babajob única entre as empresas de redes de relacionamento, diz Blagsvedt, é o fato de ela usar “incentivos financeiros e sociais para estimular um comportamento bom, ou seja, manter pessoas carentes empregadas”. Embora a Babajob tenha iniciado suas atividades há apenas poucos meses, a idéia tornou-se global. Blagsvedt tem recebido e-mails de pessoas que querem usar sua tecnologia para implementar a idéia em países como Estados Unidos, México, Peru e Reino Unido, de modo a ter os trabalhadores do Leste Europeu integrados na economia. Conexão de reciclagem Quando as empresas mudam de endereço, encerram as atividades ou reduzem de tamanho, quase sempre têm sobras de material. Para Ken Kurtzig, essas sobras transformaram-se em um próspero empreendimento verde, com sede no site iReuse.com. O iReuse conecta pessoas que dispõem de sobras de materiais com pessoas que precisam delas, colocando grandes empresas, inclusive a Adobe e a Birkenstock, em contato com organizações pequenas, sem fins lucrativos, que buscam doações de escrivaninhas, aparelhos de fax e até mesmo viveiros de peixes. Há três componentes para a operação do iReuse: a parte da oferta, a parte da demanda e a tecnologia que as coloca em contato. Fundamentalmente, as duas partes fazem listas. Os fornecedores relacionam o que querem doar — tudo, desde carpas chinesas (koi fish), a caixinhas compartimentadas e plantas de escritório — e os que procuram coisas elaboram listas do que desejam. A tecnologia do site colocá-os em contato. Kurtzig desenvolveu muita tecnologia própria para o site, mas pretende liberá-la para uso por outras organizações sem fins lucrativos. Os benefícios são vários. Há um benefício social porque as organizações que não podem comprar material novo são colocadas em contato com aqueles que querem se desfazer de coisas. Kurtzig diz que quando o administrador escolar elabora uma lista com artigos necessários à escola, a tecnologia do iReuse pode atender essas necessidades buscando empresas que dispõem de itens excedentes. “Antes do iReuse”, diz Kurtzig, os materiais eram despejados nas entidades sem fins lucrativos, e 50% deles não eram necessários. Com nossas listas de “desejos”, as pessoas pegam apenas o que querem”. Há também um imenso benefício ambiental porque o material excedente não é jogado em aterros. Em vez de acumular lixo, os materiais são reciclados. Por fim, para as grandes empresas doadoras participantes, há o benefício financeiro porque elas não têm de pagar pelo descarte de resíduos. Segundo Kurtzig, os clientes corporativos do iReuse visam economizar dinheiro e tempo e preservar o meio ambiente. Ao conectá-los diretamente com organizações que podem reutilizar suas sobras, o iReuse apóia empresas com e sem fins lucrativos. Foco na recuperação em situações de desastres Inspirados na difícil resposta à calamidade causada pelo furacão Katrina na Costa do Golfo dos Estados Unidos em 2005, Anand Kulkarni e Ephrat Bitton, dois doutorandos da Universidade da Califórnia, em Berkeley, tiveram a idéia de criar um mercado corpo-a-corpo para doações filantrópicas. Os dois trabalhavam em idéias sobre a utilização de sistemas de tecnologia da informação para resolver problemas sociais e sentiram que um dos aspectos mais tristes do Katrina era o fato de muitas pessoas do povo parecerem dispostas a ajudar, mas sem saber como. O resultado é o iCare, que permite aos sobreviventes de desastres relatar suas necessidades de modo que o público possa doar os materiais e serviços mais solicitados pelas vítimas.
O site iCare [http://icare.ieor.berkeley.edu/ é um aplicativo da web que sintetiza informações de várias bases de dados existentes na internet, incluindo fornecedores de transportes, banco de dados sobre necessidades de sobreviventes, estoques de suprimentos de emergência e fornecedores comerciais. A resposta parcialmente automatizada e descentralizada é criada para eliminar deficiências na assistência a calamidades, encaminhando a ajuda por vários canais diferentes ao mesmo tempo, o que reduz possíveis interrupções, como interceptações em estradas e furtos. Doar bens em vez de dinheiro também elimina custos relacionados com a gestão de grandes organizações, possibilitando assim que um volume maior do que é doado chegue ao destinatário pretendido. “Havia de fato uma disposição maciça do público para contribuir pessoalmente com os esforços emergenciais da maneira que pode, mas havia poucos mecanismos para fazê-lo”, diz Kulkarni sobre o Katrina. Ao verem as pessoas que foram a Nova Orleans para fazer voluntariado e contribuir e a multidão que começou a coordenar abrigos e empregos por meio de sites, Kulkarni e Bitton perceberam que as pessoas queriam ajudar de outra forma que o simples preenchimento de um cheque. Essa situação levou a dupla a criar o iCare — uma rede projetada para as pessoas ajudarem umas às outras e para eliminar fraudes e corrupção no processo. Campanha: como buscar informações Os sites são o local ideal para obter informações sobre os candidatos presidenciais americanos em 2008, do mesmo modo que o foram em 2004. Mas hoje, muitos candidatos também se conectam com o público por meio de sites de redes de relacionamento bem conhecidos: Hillary Clinton, Mike Huckabee, John Edwards e Rudy Giuliani estão todos usando o site profissional de relacionamento LinkedIn.com para divulgar suas políticas e opiniões. Um dos principais candidatos, Barack Obama, desenvolveu um componente de relacionamento para o seu próprio site. No site http://my.barackobama.com/, os usuários podem inserir informações sobre seus perfis, colocar entradas em blogues, ver informações de eventos personalizados, comunicar-se com amigos e ganhar pontos para mensurar o impacto que estão tendo na campanha. De acordo com o material de divulgação da campanha, mais de 280 mil pessoas criaram contas no site barackobama.com e esses usuários criaram mais de 6.500 grupos voluntários e organizaram mais de 13 mil eventos usando o site. Além disso, os usuários podem apresentar idéias de políticas por meio da transferência de textos ou vídeos. Enquanto outros candidatos, incluindo Fred Thompson e Hillary Clinton, têm blogues e event-finders (buscadores de eventos) em suas páginas, o sistema “dashboard” (painel) de Obama repete sites de relacionamento bem-sucedidos, como o MySpace, permitindo a troca de mensagens entre simpatizantes por meio da rede do site. Como parte da sua política tecnológica, Obama defende o desenvolvimento de uma infra-estrutura de comunicações moderna e de alta tecnologia. Ele começou com seu próprio site de campanha.
Jessica Hilberman é redatora e editora, com inúmeras publicações sobre assuntos como tecnologia, saúde, cultura popular e questões urbanas. Ela vive no norte da Califórnia. As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. | |||||
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