As Artes Visuais: Eliminando as Fronteiras

Eleanor Heartney

Thin green line


Sea State One
Gravura em relevo Sea State One, de Matthew Ritchie
(Matthew Ritchie / Cortesia: Arts Space)

Já foi possível resumir tendências atuais da arte norte-americana em algumas expressões habilmente colocadas — “pintura abstrata, gestual” pode ter servido para uma finalidade, e “retorno à figuração”, para outra. Hoje em dia, é mais difícil apontar a abordagem dominante com esse tipo de precisão. Em parte, porque a arte mudou e em parte porque o mundo mudou. De qualquer forma, na minha opinião, há conjuntos de tendências que a arte segue hoje em dia. Elas podem ser mais bem entendidas se olharmos individualmente os artistas que as exemplificam e ponderarmos sobre como esses artistas estão ampliando o nosso entendimento e as nossas definições de arte.

Mas antes que possamos fazer isso, seria útil analisar com profundidade a idéia de “arte norte-americana”. Essa categoria aparentemente simples é na verdade muito mais complexa do que parece. A convicção de que há algo como pintura ou escultura no “estilo norte-americano”, dotada de alguma qualidade quintessencial “norte-americana” já foi um princípio imutável da crítica de arte modernista. Atualmente, no entanto, a “arte norte-americana” não é mais uma simples questão de geografia, origem nacional ou ponto de vista. Em vez disso, a globalização dos mercados, a facilidade da comunicação internacional e o movimento nômade de artistas de um país para outro contribuíram para um mundo da arte sem conceitos sólidos de identidade nacional. É comum artistas enumerarem múltiplos países como seus domicílios e referirem-se às suas próprias origens também de maneira múltipla. Visitei recentemente uma exposição composta por artistas de todas as partes do mundo. Conheci artistas internacionais interessantes — um cubano, um nigeriano e outro chinês — e descobri que agora eles vivem não muito distante de onde moro, na cidade de Nova York.

Essa fluidez é elemento importante em qualquer discussão sobre arte na atualidade. A eliminação das fronteiras entre as nações, pelo menos no campo da arte, reflete também o desaparecimento de todos os outros tipos de fronteiras. Quase não nos preocupamos mais com as características exclusivas das pinturas e das esculturas. Em suas andanças pelo globo, os artistas transitam com facilidade pelos meios, produzindo trabalhos que incorporam, simultaneamente, não apenas os materiais tradicionais, mas também tecnologia digital, instalações teatrais, fotografia, arte performática, música, filme e vídeo.

De maneira similar, a “arte pública” já foi entendida como uma enorme escultura instalada em uma praça pública. Atualmente, a arte pública pode tanto aparecer na Internet quanto envolver pequenos grupos de membros de comunidades trabalhando em conjunto em projeto de interesse local. Da mesma forma, a antiga idéia de que a arte deveria estar confinada à sua própria esfera também mudou. Os artistas hoje em dia incorporam ciência, política, religião, arquitetura e ecologia nos trabalhos e esperam que seu impacto tenha um alcance muito além das paredes das galerias.

A definição de arte em expansão
Navegar por este admirável mundo novo da arte requer mente ágil e desejo de deixar de lado idéias pré-concebidas. Vemos isso com clareza em qualquer pesquisa sobre alguns artistas que provocam discussões atualmente.

Um dos artistas mais famosos no momento é Matthew Barney, artista/cineasta que foi tema de uma grande exposição retrospectiva no Museu Guggenheim, em Nova York. Barney é cineasta e artista de instalações – apesar de suas instalações consistirem em grande parte de peças dos cenários dos seus filmes. Sua obra magna é o filme intitulado Cremaster, com sete horas de duração e cinco seções. Ainda que cada segmento se pareça com um longa-metragem em duração e refinamento visual, existem algumas diferenças significativas entre o que se vê no cinema local e o que os filmes de Barney oferecem à platéia. Sua obra completa contém somente 12 linhas de diálogo e é repleta de personagens bizarros e criaturas que ultrapassam as linhas do gênero e das espécies. Há uma mulher-macaco, um sátiro sapateador, um escocês tocador de gaita-de-foles, um Harry Houdini reimaginado, representado pelo escritor Norman Mailer, e uma rainha trágica, representada pela atriz Ursula Andress. As cinco seções fazem referência a tudo, desde as seqüências de danças de Busby Berkeley, da Hollywood dos anos 1930, ao assassino Gary Gilmore e ao ritual maçônico. A narrativa é altamente ambígua e os críticos são divididos em relação ao seu significado.

Park City Grill
Park City Grill, óleo sobre tela de
John Currin, 38-1/16 x 39 x 1-7/16
(Coleção Walker Art Center, Minneapolis.
Justin Smith Purchase Fund, 2000.)

O que faz de Barney um dos mais calorosamente debatidos artistas da atualidade é a maneira como ele mistura cultura popular, fantasias privadas, referências à alta arte e à arquitetura e imagens impressionantes em um complexo e exigente mundo cinemático que é tão convincente nos seus próprios termos quanto difícil de penetrar. O trabalho de Barney pode e até exige que seja assistido várias vezes, durante as quais seu conjunto de símbolos privados elaborado com esmero se encaixa de forma cada vez mais coerente.

A série Cremaster de Barney sugere como a arte pode se fundir com o filme para criar algo que está muito além das nossas expectativas convencionais com relação a ambos. Algo similar acontece no casamento da arte com a arquitetura, que se realiza no trabalho de Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio.

Arquitetos formados, que se sentem à vontade no mundo da arte, Diller e Scofidio criam trabalhos que questionam o que é a arquitetura e como ela funciona no mundo. O mais famoso trabalho da dupla é uma casa de praia, encomendada, mas nunca construída, cuja raison d’etre é a vista de uma única janela. O modelo da casa de uma só janela curva de tal forma que essa vista fica inacessível até que se chegue ao seu interior, que, quase acidentalmente, contém todas as características — cozinha, sala de estar, dormitório — de uma casa normal.

Mas o ponto principal da estrutura é a grande janela de vidro bem ao longe que, paradoxalmente, revela-se uma espécie de cálice sagrado, que nunca será possuído de fato. Isso porque tão logo tenham entrado na casa para chegar à vista tão esperada, os visitantes descobrem que essa vista está em grande parte obscurecida por um vídeo, que apresenta uma versão gravada da vista real, bem atrás dele. Assim, a casa opera tanto como uma construção funcional, quanto como um trabalho de arte conceitual que nos leva a questionar nossa percepção da realidade. Diller e Scofidio exploraram também a forma em que nossa experiência espacial é alterada pela vigilância. É um desdobramento do seu interesse anterior no modo como as janelas criaram novo sentido de transparência na arquitetura modernista. Um desses trabalhos envolve um projeto para o interior de um restaurante, em que câmeras de vigilância mostram as pessoas no bar. Suas imagens são então exibidas em monitores visíveis aos transeuntes no lado de fora, na rua. Dessa forma, esse trabalho reverte a relação usual entre vigilante e vigiado, alterando novamente a percepção da nossa relação com o mundo.

A arte como vida
Tais trabalhos expandem a definição de arte, alinhando-a com a arquitetura. De maneira similar, outros artistas enxertam suas atividades de arte em modelos de organização empresariais. Essa é a estratégia escolhida por Julia Scher, que é profissional da área de segurança e tem sua própria empresa, a Security by Julia. Criando trabalhos em galerias e outras instituições, ela toma emprestada a parafernália das empresas de segurança — câmeras de vigilância, monitores, gravações em vozes suaves e escrivaninhas com pessoas portando uniformes de segurança cor-de-rosa, que são a sua marca registrada.

Para a abertura de uma exposição na Galeria Andrea Rosen, em Nova York, Scher alugou helicópteros de vigilância para filmar visitantes que entravam e saíam da galeria e mostrou suas imagens em monitores internos. Tais instalações parodiam e minam a confiança contemporânea na tecnologia para assegurar nossa sensação de segurança pessoal e pública. Por abordarem o surgimento de uma indústria que está se tornando cada vez mais uma característica intrusiva da vida moderna, as instalações de Scher conquistaram grandes audiências nos Estados Unidos, Europa e Ásia.

Tais artistas oferecem uma nova tendência no velho sonho avant-garde de eliminar as fronteiras entre a vida e a arte. Em certo sentido, nos seus trabalhos, a arte se torna vida. Esse impulso também inspira algumas das abordagens mais inovadoras da arte pública contemporânea. Atuando muito além da noção de “plop art”, na qual um pedaço de aço soldado é depositado no meio de uma praça pública, muitos artistas que hoje atuam no domínio público trabalham ativamente para engajar membros da comunidade em que sua obra de arte irá aparecer. Isso também pode levar a projetos artísticos que se parecem muito pouco com trabalhos de arte convencionais.

A artista J. Morgan Puett criou um exemplo particularmente atraente dessa abordagem para o Festival Spoleto, em Charleston, Carolina do Sul, em 2002. Seu trabalho era intitulado Cottage Industry que, em certo sentido, era exatamente isso. Puett usou uma casa de madeira abandonada em um antigo bairro afro-americano, cujos moradores se haviam mudado em razão da renovação urbana. Ela transformou essa estrutura desgastada em uma pequena oficina de fabricação de roupas. Trabalhando com tecelões locais, costureiras e tintureiros, criou uma linha de tecidos e roupas que misturava referências às roupas usadas tanto pelos proprietários quanto pelos escravos das plantações da Carolina do Sul, antes da Guerra Civil. Um único vestido podia combinar espartilhos do tipo usado pela Scarlett O’Hara da vida real com as roupas íntimas de musselina grosseira usadas pela sua empregada, quebrando, assim, esteticamente, as barreiras de classes que outrora diferenciavam os senhores dos seus servos.

Durante a exposição, a casa foi usada pelos seus artesãos, que criaram salas de conferência, estúdio de design, sala de costura, área de tecelagem e uma loja para receber os pedidos de compra de roupas. Do ponto de vista político, Puett tocou em vários aspectos. O trabalho serviu para lembrar a difícil história de Charleston. Mostrou também um modelo do tipo de pequena empresa que os residentes da área poderiam adotar. E ajudou a fazer com que pessoas de dentro e de fora do meio artístico dialogassem sobre o impacto da renovação urbana nos habitantes mais vulneráveis da cidade. O aspecto “arte” do projeto envolveu tanto a criação de modelos de roupa excêntricos quanto a mobilização dos artesãos de Charleston.

Perfil: Tom Friedman — artista


Tom Friedman's Untitled
Sem título, criação de 1995 do artista Tom Friedman, feita de palitos de dente
(Oren Slor / Cortesia: Feature, Inc., New York)

Uma caixa de cereais. Um punhado de palitos de dente. Sabão em pó. Torrões de açúcar. Esses itens são alguns dos meios preferidos pelo artista-escultor Tom Friedman, cuja engenhosidade e criatividade ajudaram a redefinir a arte contemporânea.

Utilizando-se de goma de mascar já mastigada, fita-crepe, isopor colorido, canudos de papel e outros itens do cotidiano como material, Friedman, de 37 anos, tornou-se um novo talento popular nos Estados Unidos e no exterior. Suas criações têm origem na escola de arte popular de Andy Warhol e no minimalismo, porém seguem invariavelmente rumos próprios e engenhosos.

“Tento transformar esses materiais em objetos de contemplação, fazê-los auto-reflexivos, sempre se voltando para si mesmos”, comentou o artista sobre o seu trabalho. “O uso de um processo — ou a descoberta de uma lógica — que os redefina, de certo modo faz com que sofram uma transformação do familiar para o não-familiar.”

Ao colar montes e montes de palitos de dentes em um padrão especial, o artista está se expressando, e o resultado – quer o chamemos de explosão de estrelas, quer de floco de neve (Friedman decidiu chamar a peça construída em 1995 de Untitled “Sem Título”) – pode ser etéreo. Bolas de isopor sobrepostas dão a impressão de formas alienígenas. Um comprimido de aspirina pode ser moldado transformando-se em um camafeu com um auto-retrato. “Os materiais podem ser banais”, notou um observador, “mas o talento artístico é excepcional”.

Friedman, nascido em St. Louis, no Missouri, estudou ilustração gráfica na faculdade e escultura durante seu trabalho de pós-graduação. A primeira exposição individual dos seus trabalhos foi em 1991, em Chicago e em Nova York, e sua obra tem sido exposta em museus em Genebra, Londres, Estocolmo, Roma, Tóquio e Milão, bem como por todos os Estados Unidos.

Um crítico descreveu os trabalhos de Friedman do seguinte modo: “A forma ordinária se transforma em extraordinária, o literal se transmuta em abstrato... a simplicidade desvirtua a complexidade, e o familiar se torna estranho. O melhor de tudo é que isso é realizado sem pretensão, somente com um pouco de assertividade. Eles convidam; não ordenam”.

O reino virtual
A arte norte-americana está também colonizando o reino virtual; os artistas criam trabalhos que precisam ser experimentados on-line. Um desses artistas mais ambiciosos é Matthew Ritchie, que inventou toda uma cosmologia que é apresentada e mais ou menos enigmaticamente explicada no seu site. Com base nos mitos de criação do mundo ocidental e empregando o tipo de tecnologia interativa usada em jogos da Internet, o projeto de Ritchie concentra-se em um grupo de sete agentes celestiais excluídos, que representam diferentes partes do cérebro humano. Expulsos do paraíso, eles caem na terra e estilhaçam-se em segmentos por sete continentes. Essas criaturas fragmentárias combinam-se e recombinam-se, criando um conjunto quase infinito de narrativas possíveis que o público da Web pode buscar.

Enquanto isso, para aqueles que preferem que a arte tenha ao menos um pé no mundo “real”, Ritchie também transforma suas narrativas em pinturas abstratas que cobrem paredes, tetos e pisos de galerias. Uma delas foi instalada como mural permanente no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Boston. Afinal, embora as histórias que ele conta possam não ser claras em todos os seus detalhes, é evidente que Ritchie produziu uma alegoria da criação que celebra o papel do artista como inventor de novos mundos.

Os artistas também fundem tecnologia digital com meios mais tradicionais. Um exemplo impressionante é Shahzia Sikander, artista paquistanesa que vive em Nova York e estudou pintura tradicional em miniatura. Ela é mais conhecida pelas suas delicadas pinturas em aquarela, que misturam aspectos de imagens de mulheres hindus e islâmicas em formas fantásticas. Porém, durante sua permanência no Texas, Sikander criou uma “pintura” digital, em que imagens fragmentadas, textos e símbolos tirados das tradições da arte asiática e ocidental lentamente clareiam e escurecem na superfície de uma pequena caixa iluminada. Esse processo permite que ela produza uma imagem gráfica da natureza caleidoscópica da identidade, conforme vivenciado por artistas emigrados no atual mundo globalizado.

O convencional…com um toque diferente
Toda essa exploração dos novos meios não deve sugerir que os artistas abandonaram os meios da arte convencional. Outra tendência contemporânea é o retrabalho de tradições de arte veneráveis. Aqui, a fronteira que desaparece é aquela que separa passado e presente. Ignorando deliberadamente a teoria evolucionária da história da arte, esses artistas exploram tradições que foram há muito declaradas moribundas.

Por exemplo, Walton Ford cria pinturas da natureza que captam tanto o realismo obsessivo quanto as elegantes composições das ilustrações naturalistas sobre a fauna e a flora do artista do século 19, John James Audubon. No entanto, Ford dá um toque diferente – introduzindo detalhes humorísticos que transformam suas pinturas em alegorias satíricas do império. Em um conjunto de pinturas expostas na Galeria Paul Kasmin, em Nova York, um macaco agarra páginas do diário de um explorador enquanto segura um narguilé. Em outro, um estorninho enorme parece pronto a engolir um pássaro menor.

John Currin executa uma operação similar nos antigos gêneros do nu e do retrato. Sua meticulosa pintura a óleo imita a Renascença do Norte dos séculos 15 e 16 e tradições anteriores bastante conhecidas – tradições maneiristas – porém, mais uma vez, há algo que parece estranho. Ele introduz distorções do corpo ou das características faciais e dota seus personagens com um insípido olhar que parece ter mais a ver com manequins da moda contemporâneos do que com a velha pintura dos mestres. O resultado é simultaneamente velho e novo, obscurecendo as distinções entre a consciência histórica e a contemporânea.

Removendo fronteiras
Este breve levantamento deve deixar claro que a arte contemporânea tende a promover mudanças nas formas e a eliminação de fronteiras. Se alguma coisa une as tendências disparatadas vistas atualmente, é a indisposição de prender-se a uma simples definição de “arte”. Esses desdobramentos marcam uma notável mudança das mais antigas noções de arte, que enfatizavam sua separação da vida e sua tendência ao progresso e às mudanças, de acordo com regras ditadas internamente. Agora, a mudança é mais uma função de ocorrências dentro e fora da arte.

Em uma era de remoção de fronteiras, a tarefa da crítica torna-se conseqüentemente mais difícil e mais interessante. Não é mais possível escrever sobre arte contemporânea nos Estados Unidos como uma série de desdobramentos formais nem como uma sucessão ordenada de movimentos. Em vez disso, a arte se transforma em uma forma de filtragem das informações múltiplas e contraditórias que nos bombardeiam de todas as direções. Livre para fazer uso de todas as disciplinas, todas as tradições artísticas e todos os modos de apresentação, a arte contemporânea se torna tão complexa, provocativa e intelectualmente exigente, como o mundo que a produziu.

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Eleanor Heartney é crítica de arte, com trabalhos publicados internacionalmente, editora colaboradora da revista Art in América e autora de Critical Condition: American Culture at the Crossroads e Pós-modernismo.

Conversa com Kathy Halbreich


Photo of Kathy Halbreich
Kathy Halbreich
(Cortesia: Walker Art Center)

Kathy Halbreich lembra como — em visita a museus em Nova York, sua cidade natal —, deparou-se pela primeira vez com uma pintura do grande expressionista abstrato Jackson Pollock. O poder transformativo daquele momento, quando ainda muito jovem, alimentou sua permanente paixão pela arte. Atualmente, Halbreich é diretora do WalkerArt Center, em Minneapolis, Minnesota, uma das principais instituições culturais dos EUA. O Walker Art Center, que enfoca artes visuais, performáticas e da mídia, trabalhou com determinação para atrair novos artistas e público ainda inexplorado.

P: No desempenho de seu cargo no Walker Art Center, o que você vê como desenvolvimento ou tendência mais significativa?

R: Quando me tornei diretora de museu, em 1991, uma das primeiras coisas que fiz foi tentar encontrar meu caminho e entender melhor as missões de outras instituições. Embora essas missões incluíssem pesquisas sérias, resultando em desenvolvimento de exposições originais e importantes acréscimos às suas coleções permanentes, muito poucas — talvez nenhuma — mencionavam aquelas para a quais trabalhamos. Em outras palavras, muito poucas incluíam o termo “pessoas” nas suas declarações de missão. Com o passar dos anos, muitas organizações se tornaram mais bifocais. Continuamos seriamente comprometidos com a arte, mas houve uma mudança para o praticante — para o artista — e, de forma ainda mais decisiva, uma consciência maior da diversidade do público ao qual servimos. Deste modo, para mim, o maior desenvolvimento na última década foi colocar as pessoas no centro da nossa missão.

O Walker — e não estamos sozinhos nesse aspecto — abriu sua mente e suas portas ao público que antes não era tão bem atendido, particularmente os jovens. Isto se originou da minha própria percepção interior do poder da arte de transformar meu pensamento e de abrir minha mente quando ainda jovem. Quando vi uma tela de Pollock pela primeira vez, ela refletia minha própria percepção interna de caos e ordem, que eu, como adolescente, lutava para entender. Tendo tido essa experiência, pensei — como diretora — que era importante tornar os jovens parte dos prazeres e das recompensas das instituições culturais. Os jovens fazem precisamente o que fazem os artistas: contestam, fazem perguntas fora do contexto, e suas necessidades desafiam o status quo.

Uma das outras grandes mudanças nesse campo é o reconhecimento de que nenhuma pessoa ou instituição possui todo conhecimento, que ninguém pode possivelmente ser especialista em todas as culturas do mundo. Assim sendo, o compromisso de os museus tornarem-se genuinamente públicos ou instituições civis tem sido acompanhado pela determinação de expandir nosso próprio entendimento do nosso campo e os nossos conhecimentos especializados, bem como os valores que os moldam.

P: Você tem visto influências criativas ou artísticas estrangeiras em expansão nos últimos 10 anos?

R: Sem dúvida. Nossa missão no Walker, que é única, é inspirada por três adjetivos: multidisciplinar, diverso e global. “Multidisciplinar” significa que abrigamos não somente as artes visuais, mas também as artes performáticas, filmes/vídeos e os novos meios. “Diverso”, como conceito, reflete-se em tudo — de quem trabalha no Conselho de Administração e dos funcionários do Walker àquilo que é exibido na sala de projeção, no palco e nas galerias. E “global” reconhece que não apenas incluímos culturas de todo o mundo, mas também refletimos novas maneiras de pensar sobre culturas mais antigas e seus artefatos. Uma instituição contemporânea, porque lida com artistas vivos, não consegue evitar as diferenças de abordagem de Johannesburgo, Istambul e Xangai nem as coisas que nos ligam a esses lugares.

Por exemplo, o Walker atualmente tem um programa artístico educacional de um ano de duração em andamento sobre o tema "How Latitudes Become Forms: Art in a Global Age" (Como as Latitudes se tornam Formas: Arte em uma Era Global). Esse programa envolve exposições, artes performáticas e programas on-line. É produto de quatro anos de pesquisa intensa, viagens e conversas com especialistas de todo o globo.

P: Existem outros refinamentos na forma de pensar de seus colegas?

R: Muitos de nós, durante anos, realmente não sabíamos o que fazer com o trabalho “tradicional”. Há agora um entendimento de que mesmo o trabalho mais contemporâneo está enraizado em autobiografia, geografia e cultura. Não há mais a impressão de que a tradição pertence a um lado da mesa e a prática contemporânea ao outro. Há um alerta crescente para a sutileza, a complexidade e a diferença e a aceitação disso tudo.

P: Os gigantes criativos do passado ainda dominam a área, ou há uma nova geração tomando conta?

R: Sempre haverá gigantes criativos — o que é uma bênção. Mas, no momento, estamos nos dando conta de que há mais gigantes criativos operando no mundo do que jamais tivemos conhecimento no passado. E é por isso que, neste momento em particular, as pessoas estão voltadas para além das suas fronteiras determinadas.

P: Qual é o maior desafio atualmente, na sua opinião?

R: A instabilidade econômica, que tem um grande impacto na nossa liberdade de fazer escolhas. Eu disse ao meu Conselho de Administração que, independentemente das escolhas que façamos neste clima da economia, devemos fazê-las levando em conta a preservação da liberdade — liberdade para inovar, liberdade de ser accessível e liberdade para criar novos modelos de entendimento. Não acredito que devamos deixar que o dinheiro seja uma desculpa para não pôr em pratica essas idéias, ainda que a falta de recursos torne mais assustadores os riscos que precisamos correr.

Além da economia, acredito que o maior desafio das instituições culturais é tornarem-se parceiras cívicas mais sensíveis de todo o seu público.

P: O que você acha que mudará no campo das artes nos próximos 10 anos em termos de criatividade?

R: Daqui a dez anos, acredito que haverá novas formas de arte para as quais ainda não temos nomes. Elas reunirão filmes, artistas em movimento e o universo digital. As instituições, por tradição ou talvez até por conveniência, tendem a fragmentar as disciplinas em departamentos. Há departamento de fotografia, departamento de pintura e escultura, departamento de desenhos e talvez departamento de filmes. Atualmente, os artistas estão eliminando essas fronteiras.

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A entrevista com Kathy Halbreich foi feita por Michael I. Bandler.
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http://usinfo.state.gov/journals/itsv/0403/ijsp/gallery.htm

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