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Arquitetas de Mudanças Sociais

Steve Gunderson

Doação: Filantropia nos EUA

ÍNDICE
Sobre esta edição
Animar os Outros: Incentivo Governamental a Esforços Voluntários
Fundações: Arquitetas de Mudanças Sociais
Terceiro Setor de Nova Jersey: Uma Força Econômica
Modelos de Doação
Filantropia em Foco
Filantropia não Acontece ao Acaso
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Doação: Filantropia nos EUA
Bibliografia
Recursos na internet
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Construção em Mutirão, de Ann Mount
Construção em Mutirão, de Ann Mount
(Ilustração: cortesia da artista e do Bentley Publishing Group)

Este artigo discute desdobramentos da filantropia nos Estados Unidos, destacando o papel desempenhado pelas Fundações. Steve Gunderson é presidente e diretor executivo do Conselho de Fundações em Washington, DC.

Steve Gunderson
Steve Gunderson

Nos Estados Unidos, é costume cidadãos se reunirem espontaneamente para tratar de necessidades importantes de suas comunidades. Essa generosidade, esse desejo de trabalhar em equipe para o bem comum, é traço do temperamento americano. A filantropia tem raízes profundas nas crenças religiosas, na história do auxílio mútuo, nos princípios democráticos da participação cívica, nas estratégias pluralistas para a solução de problemas e nas tradições americanas de autonomia individual e governo limitado.

As privações dos primeiros colonizadores dos Estados Unidos, quando o governo era fraco e distante, forçaram as pessoas a se reunir para se governar, a se ajudar mutuamente e a executar atividades comunitárias como construir escolas e igrejas e combater incêndios. As iniciativas dos cidadãos e os esforços individuais para promover o bem-estar público, hoje uma tradição, têm sua origem nessas experiências. Imigrantes posteriores auxiliaram suas comunidades fazendo doações por meio das igrejas e formando grupos de ajuda aos pobres, bem como organizando associações de assistência mútua na nova pátria. A prática da doação é igualmente muito arraigada nos ameríndios e nos afro-americanos.

Líderes religiosos também estimulam, há muito tempo, seus membros a fazer doações aos pobres e às obras de caridade de suas igrejas. Para muitos, fazer doações aos necessitados das comunidades, aos pobres de outras terras, às vítimas de desastres naturais e às suas próprias igrejas tem sido considerada forte obrigação, e as crenças religiosas ainda são importante motivação de envolvimento em filantropia.

Benjamin Franklin (1706-1790), inventor e estadista da era colonial americana, foi um dos primeiros filantropos. Ele fazia doações para melhorar sua comunidade e proporcionar oportunidades de as pessoas se ajudarem a si mesmas. Nesse sentido, fundou organizações civis locais, como o primeiro corpo de bombeiros voluntários da Filadélfia, e instituições como o Hospital da Pensilvânia, a Universidade da Pensilvânia e a biblioteca pública da Filadélfia.

Foi somente a partir do século 20, porém, que os cidadãos começaram, de modo geral, a usar filantropia como meio de solucionar problemas, realizar pesquisas e promover a ciência. Um dos primeiros proponentes da moderna filantropia foi o empresário rico Andrew Carnegie. Ele via os abastados como produto da seleção natural realizada pelas forças da concorrência. Ao enriquecer, a pessoa se tornava agente da civilização, e a filantropia se transformou em ferramenta para melhorá-la, em substituição a reformas radicais. A filantropia de Carnegie incluía a abertura de bibliotecas públicas e outros órgãos que forneceriam “escadas pelas quais os ambiciosos poderiam subir”.

Carnegie e diversos outros líderes civis e empresariais – entre os quais John D. Rockefeller e Margaret Olivia Sage – organizaram suas doações filantrópicas de modo novo, bastante análogo às corporações empresariais tão bem-sucedidas na época. Também nessa ocasião, o banqueiro Frederick H. Goff criou a primeira fundação comunitária em Cleveland, Ohio. Essa novas “fundações”, privadas ou comunitárias, não se destinavam diretamente aos que precisavam delas; deveriam, em vez disso, ser instrumentos de reforma e solução de problemas, atacando as causas da pobreza, fome e doenças pela doação de fundos, conhecidos como “subvenções”, às pessoas e organizações mais bem equipadas para enfrentar problemas específicos. Essa idéia de filantropia sistemática e científica é produto da era de otimismo e fé na capacidade de resolver problemas humanos, própria da ciência e da razão. É também a base lógica da maioria das fundações americanas dos dias de hoje. Atualmente, muita caridade ainda é feita com subvenções distribuídas dessa forma.

A filantropia como arquiteta

Pode-se considerar a filantropia como a arquiteta de investimentos estratégicos que promovem o bem comum. Da mesma forma que os arquitetos profissionais, as fundações analisam desafios, projetam soluções funcionais e potencializam os recursos disponíveis ao se centrarem nos resultados. As fundações não são cerceadas pelas margens de lucro, como a indústria, nem limitadas por políticas de governo. Elas podem assumir riscos para realizar o importante trabalho de pesquisa e desenvolvimento necessário ao exame das estruturas sociais, revisar padrões aceitos e enfrentar os desafios que produzem crises.

As fundações podem aparecer de diferentes formas: familiares, centradas no uso dos recursos da família; comunitárias, organizadas para melhorar a qualidade das comunidades; e independentes, criadas para missões exclusivas estabelecidas por conselhos de curadores. Essa, porém, é apenas uma parte da filantropia. Outro elemento fundamental dos esforços de retribuição à sociedade são as doações feitas por corporações.

As fundações aglutinam o conhecimento especializado de fontes como indústria, governo, meio acadêmico, grupos comunitários e pessoas físicas no combate a questões prementes, encontrando soluções vitoriosas. Esse tipo de colaboração, por exemplo, levou a uma parceria público-privada entre fundações e a Biblioteca do Congresso dos EUA, ao financiar uma iniciativa para construir a Biblioteca Digital Mundial, que transformará materiais primários espalhados pelas mais variadas culturas do mundo, em sites consolidados para cada cultura. O potencial da Biblioteca Digital Mundial para aumentar o entendimento transcultural é enorme.

Por meio de discernimento, inspiração e inovação, as fundações têm dado contribuições expressivas e duradouras à saúde, à educação, ao meio ambiente, ao desenvolvimento dos jovens e às artes e têm sido úteis na revitalização de bairros e na recuperação do tecido social de comunidades, nos Estados Unidos e no mundo todo.

Por exemplo, muitas fundações estão combatendo atualmente os problemas causados por HIV/Aids, malária e tuberculose e estão gastando milhões de dólares em pesquisa e projetos de expansão de programas de vacinação contra doenças que atingem a infância nos países mais pobres do mundo. A Fundação Bill & Melinda Gates despende mais de um bilhão de dólares todo ano – quase tanto quanto a Organização Mundial da Saúde – em esforços para conscientizar o público e erradicar essas doenças. Muitos consideram a Fundação Gates, uma das mais novas e maiores fundações a entrar no setor filantrópico, como a de maior influência na saúde global atualmente.

A educação é também um foco essencial da filantropia, e muitas das fundações dos EUA vêm expandindo seu escopo de financiamento e pesquisa para fomentar o ensino superior no mundo inteiro. Nesse sentido, a Fundação John D. e Catherine T. MacArthur, a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller, a Carnegie Corporation de Nova York, a Fundação William e Flora Hewlett e a Fundação Andrew W. Mellon se uniram para formar, na África, a Parceria para o Ensino Superior. Em conjunto, essas fundações doaram mais de 150 milhões de dólares e se comprometeram a distribuir outros 200 em cinco anos no apoio a universidades selecionadas de Gana, Moçambique, Nigéria, África do Sul, Tanzânia, Uganda e Quênia, vistas como agentes de progresso social, econômico e político.

A filantropia no século 21

Nos Estados Unidos, a natureza e a prática da filantropia estão passando atualmente por mudança espetacular, alimentadas principalmente por seu crescimento em tamanho e reputação. A prosperidade econômica resultou em proliferação drástica de fundações. Os poucos milhares de instituições doadoras americanas do pós-Segunda Guerra Mundial aumentaram hoje para 65 mil organizações em termos mundiais, comprovando o profundo crescimento da filantropia – não apenas nos Estados Unidos como em âmbito global. Os ativos dessas fundações somam na atualidade mais de US$ 500 bilhões, com doações anuais recordes de US$ 33,6 bilhões. É, em muitos aspetos, uma época de otimismo e criatividade, em que as pessoas exploram novos sistemas para fazer a riqueza privada voltar à comunidade de onde saiu, em benefício do bem público.

Os Estados Unidos vivem e prosperam numa economia global. Conseqüentemente, a filantropia americana é cada vez mais global. À medida que a riqueza cresce em novas economias de mercado, as tradições de ‘devolver’ são realçadas. Em nível mundial, há dezenas de novas fundações na África, na Ásia, na América Latina e na Europa. O Relatório sobre a Situação Global das Fundações Comunitárias 2005 estima que haja no mínimo 1.188 fundações comunitárias em 46 países fora dos Estados Unidos e outras 150 em desenvolvimento em todo o mundo.

A participação nessa comunidade global deve incluir parceria construtiva com colegas filantropos de todo o mundo. Criado em 1949, o Conselho de Fundações − uma organização internacional à qual estão associados mais de 2.000 fundações doadoras e programas empresariais de doação − está empenhado em aumentar o alcance global de cooperação da filantropia e está agora organizando uma das maiores reuniões de líderes filantropos da história. Durante essa cúpula, programada para 2008, o conselho convidará nossos colegas americanos e globais a se reunir em Washington, DC, para dedicar-se a conversas decisivas em todas as linhas de interesse, permitindo que o papel crucial da filantropia seja tratado da melhor maneira possível no século 21.

O desafio à filantropia é realizar trabalhos altamente necessários onde ninguém mais consegue ou deseja: no terreno difícil onde a violência cria raízes, nas condições sombrias em que o emprego não está nem um pouco garantido e nas iniciativas difíceis para os governos em virtude de pressões políticas. Os filantropos devem centrar seu trabalho nas tendências que prognosticam as manchetes de amanhã. O legado mais duradouro da filantropia ao longo das décadas pode ser simplesmente o ato de doar, de fazer a doação exemplar, seja para criar uma fundação, seja para manter uma organização de caridade, seja para suavizar uma necessidade humana.

As fortunas crescem e minguam, mas a sociedade pode sempre confiar na perpetuidade da inovação e da cooperação da filantropia, assim como em seus resultados para o bem comum.

Doação: Filantropia nos EUA

As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.


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