O Que É Americano nos Filmes Americanos?Thomas Doherty
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Os americanos colonizaram nosso subconsciente”, diz uma personagem do filme de Wim Wenders No Decurso do Tempo (1976), tanto em tom de admiração quanto de queixa, o que somente faz sentido em um road movie (filme de estrada) de um diretor alemão que, na primeira oportunidade, se apressou a rodar um filme com locações no Vale do Monumento, em Utah, área freqüentemente usada pelo afamado diretor de Hollywood John Ford. A atitude de duplo sentido de Wenders para com a pátria dos filmes expressa um sentimento bastante comum entre os “colonizados”, freqüentemente compartilhado pelos cidadãos deste país. A vocação de Hollywood para projetar o material de que são feitos os sonhos americanos pode ser incontestável, mas os freqüentadores de cinema não-americanos não podem deixar de se ressentir dessa invasão de seu tronco cerebral. Não admira que todo ano no Festival de Cinema de Cannes os cinéfilos dizem brincando que o provável favorito para a Palma de Ouro é sempre um filme anti-americano... dos Estados Unidos. Fahrenheit 11 de Setembro (2004), de Michael Moore, foi um exemplo perfeito disso. Apesar dos ataques violentos de DVDs piratas e de videógrafos do YouTube, a cidade das empresas de produção em massa e exibição dos valores americanos na telona parece, no século 20, suficientemente estável para dominar o mercado século 21 adentro. Detroit (Michigan), lar da indústria automobilística americana, parece ter-se curvado à concorrência dos fabricantes de automóveis da cidade de Toyota (Japão) e de Sindelfingen (Alemanha), mas Hollywood ainda mantém a supremacia da sua marca no entretenimento popular. Em parte, a primazia do logotipo americano deve-se ao apelo intrínseco de um pacote de qualidade recheado de tesouros cintilantes: individualismo, liberdade de ir e vir, ascensão social, busca da felicidade (erótica e financeira) e heróis que realizam reforma moral por meios violentos. No entanto, os descendentes corporativos das empresas cinematográficas 20th Century Fox, Warner Brothers e MGM também prosperaram ao fazer o que os fabricantes de automóveis não fizeram: adaptar-se às novas forças do mercado e cooptar a concorrência. Hoje, a linha de produtos de Hollywood não apenas é fabricada para atender a especificações estrangeiras, mas também é montada por engenheiros importados. Influências internacionais De acordo com a revista Variety, fonte de notícias de entretenimento, mais de 50% das receitas de bilheteria de Hollywood derivam basicamente de guichês situados fora do território americano. Muitas vezes, as receitas brutas — acima de 70% no caso de campeões de bilheteria transnacionais como 007 Cassino Royale e O Código Da Vinci — ultrapassam os números do mercado americano. Ou seja, as palhaçadas estúpidas, os enredos boçais e as explosões realmente grandes que, aos olhos dos detratores estrangeiros, definem os piores produtos de exportação resultam da busca de Hollywood por um mandato global, não por um público interno. Um enredo simples, previsível, com efeitos visuais deslumbrantes e grunhidos monossilábicos que exigem um mínimo de legendas viajam melhor do que teias intricadas de causalidade narrativa, caracterizações e piadas rápidas — razão pela qual as filas de bilheteria de Cingapura ao Senegal combinam bem com os hábitos de compra dos adolescentes americanos. Naturalmente, como indústria internacional empenhada em vender suas mercadorias para além do território americano, Hollywood sempre esteve de olho nos clientes do exterior. Mesmo durante a era clássica dos estúdios, quando a produção de filmes presa aos sets de filmagem significava que os filmes eram 100% feitos nos Estados Unidos, eles nunca foram 100% feitos para os Estados Unidos — ou, mais precisamente, feitos por americanos. Naquela época, como agora, a proporção de ingredientes nativos em relação aos elementos exóticos era variável, com o desempate entre as influências de origem nativa e as trazidas do exterior variando de filme para filme. Os sinais mais visíveis dessa mistura e desse casamento eram os próprios nomes nas marquises, tanto de diretores quanto de artistas. O único preconceito de Hollywood era contra o talento estrangeiro, que não podia ser comprado. Nos anos 1920 e 1930, diretores alemães e britânicos sucumbiram voluntariamente aos generosos talões de cheques dos produtores americanos Louis B. Mayer e David O. Selznick; mais tarde, cineastas mexicanos e taiwaneses mostraram-se igualmente suscetíveis ao chamariz da tecnologia mágica e de orçamentos inchados. Em resumo, talvez o que torna os filmes americanos essencialmente americanos é quão prontamente as linhagens não-americanas são absorvidas. Todo fim de ano as resenhas dos gráficos de divulgação da temporada anterior oferecem provas em abundância de que Hollywood suplantou há muito tempo a Ilha Ellis como o porto emblemático de entrada de talentos do além-mar, ansiosos por abocanhar uma parte da ação. No entanto, a safra de 2006, digna ou não do Oscar, oferece uma amostragem particularmente rica de histórias de sucesso de imigrantes. O fato de filmes com as mais profundas raízes americanas nem sempre serem creditados a um nome americano acima do título é um testemunho do poder de assimilação desse meio de comunicação e ramo de negócio. Analisem: Os Infiltrados. O mais recente estudo de Martin Scorcese sobre os rituais do gangsterismo americano é um cruzamento de sangue híbrido: uma refilmagem repleta de bajulação de Conflitos Internos (2002), thriller de crime feito em Hong Kong, com novo elenco de artistas de Hollywood, ambientado entre os irlandeses de Boston e executado com a energia da adrenalina que tem sido a marca registrada do ítalo-americano Scorcese desde Caminhos Perigosos (1972). Apresentando atores naturais de Boston, Matt Damon e Mark Wahlberg, que despejam seu sotaque característico em locais autênticos (um compromisso com a verossimilhança que não é de se desprezar, considerando que as cidades camaleônicas do Canadá são normalmente escolhidas para representar metrópoles dos EUA), o filme transformou o tribal em nacional e internacional (a julgar por sua popularidade no exterior). Amplamente aclamado, o filme ganhou este ano os Oscars de melhor filme e melhor diretor.
Dreamgirls: Em Busca de um Sonho. Pulando para outra cidade americana, Detroit, conhecida por passatempos tribais mais melodiosos, a adaptação de Bill Condon do sucesso da Broadway é o tipo de mamute musical exagerado, bombástico, feito para tela grande, que somente os recursos dos estúdios de Hollywood poderiam coreografar. Musical à clef ligeiramente velado da ascensão da Motown Records e de um grupo de moças tipo Supremes, o filme fala dos custos e benefícios de ascender vertiginosamente às Quarenta Melhores das paradas de sucesso do rádio enquanto fora do palco se desenrola o movimento pelos direitos civis. Para os americanos, os meios-tons do subtexto da história de sucesso reverberaram tão ritmicamente quanto a trilha sonora: a estrela em ascensão Jennifer Hudson, escolhida no programa de TV American Idol em 2004, transformou-se em autêntico ídolo americano da tela grande na competição musical que é Dreamgirls.Foi
Pequena Miss Sunshine. O filme americano mais centrado em crianças do ano foi também o mais adulto. Como Wim Wenders, os co-diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris tiraram sua inspiração de Huck Finn, Jack Kerouac e uma prateleira de road movies de Hollywood, reuniram uma família disfuncional em uma Kombi caindo aos pedaços e saíram país afora. Como sempre, o destino (Califórnia — onde mais?) é menos importante do que a viagem e os passageiros ao longo do trajeto: uma criança competindo em um concurso de beleza, um palestrante motivacional fracassado,
O Diabo Veste Prada. Dando-se melhor no exterior, foi uma comédia-melodrama impecavelmente maquiada, dirigida por David Frankel a partir do romance de Lauren Weisberger, uma história de Cinderela
A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima. O ambicioso programa duplo de Clint Eastwood foi uma jogada de risco sem precedentes na história de Hollywood, dois filmes independentes
Irônica ou corretamente, os artistas nascidos no exterior sentem o pulso americano com maior precisão do que Eastwood, o ícone ator-autor americano. Assim como gerações anteriores de emigrados recém-desembarcados, eles trouxeram sua bagagem do exterior, mas aprenderam rapidamente o jargão dos americanos e alcançaram renome tanto crítico quanto comercial.
A Rainha. O sucesso nos Estados Unidos do drama de época dos tempos modernos de Stephen Frears reflete o fascínio arraigado dos americanos pela realeza inglesa, mas a ação secundária entre um etos democrático de emotividade (primeiro-ministro Tony Blair) e uma fidelidade régia à impassibilidade (rainha Elizabeth II) agrega-se no final à festa inesperada quando todos reagem à morte da princesa Diana. O que parece um contra-senso, o estoicismo tradicional da rainha se mostra mais dignificante do que as lágrimas fáceis derramadas por uma cultura da celebridade. Vôo United 93. Um diretor britânico também dirigiu o que foi, para muitos americanos, a experiência mais vibrante e dolorosa do ano no cinema. O thriller de Paul Greenglass passado na cabine do avião foi o primeiro filme de longa metragem a retratar em detalhes os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. No estilo baixa-tecnologia e cinema verité, desenrolando-se praticamente em tempo real, o filme não precisou do poder de estrelas para atingir um ponto sensível da nação americana. Ver Vôo United 93 em um cinema dos Estados Unidos foi receber um soco coletivo no estômago, um estimulante memento mori cujo impacto, suspeito eu, não se transferiu para espaços cinematográficos além do território americano. Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América. Nenhuma discussão do impacto de estrangeiros atuando no cinema americano estaria completa sem mencionar a aclamada participação mais crua e rude vinda do normalmente bem-comportado Reino Unido, o agente provocador Sacha Baron Cohen, cujo road movie pervertido segue a clássica trajetória entre as fronteiras do Leste (Nova York) e do Oeste (em busca da atriz e modelo Pamela Anderson). Embora não exatamente Alexis de Tocqueville, o alter ego ignorante de Cohen acaba mostrando os aspectos americanos até agora não percebidos por eles, a saber, sua ilimitada tolerância para com o mais intolerante dos estrangeiros.
O Labirinto do Fauno, Babel e Filhos da Esperança. A capacidade dos três diretores mexicanos (Guillermo del Toro, Alejandro González Iñárritu e Alfonso Cuarón) de mostrar o lado inusitado dos acontecimentos, produzindo três títulos chamativos nas marquises sobre, respectivamente, um passado de pesadelo, um presente de interligação e um futuro antiutópico forneceu a prova mais óbvia da infiltração de agentes estrangeiros em Hollywood. Alcunhados de “Os Três Amigos” pela imprensa do entretenimento, o trio trouxe uma textura artística e um sentido trágico ao verniz cintilante e ao otimismo jovial da corrente dominante americana, uma sobriedade sulina além-fronteiras em que os heróis morrem no fim e o mundo é um lugar muito desagradável, impenetrável à intervenção humana. De todos os filmes americanos de 2006, nascidos nos EUA ou feitos no exterior, Babel, um filme que desmente o título, pode ser o melhor prognóstico do futuro multilingüe e multinacional de Hollywood: uma mistura agradável de elementos de culturas cruzadas no elenco, na criação, nas locações (Marrocos, Califórnia, México e Japão) e nas sensibilidades. Devolvendo um pagamento em espécie, os estrangeiros estão colonizando os filmes americanos.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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