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Campos de Sonhos: Filmes Americanos de Esporte

David J. Firestein

The Movie Business Today

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
O Que É Americano nos Filmes Americanos?
Campos de Sonhos: Filmes Americanos de Esporte
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Matthew Fox (à esquerda) interpreta um dos técnicos em Somos Marshall, a inspiradora história real sobre a reconstrução de uma equipe de futebol americano universitário depois que um acidente de avião tirou a vida de 75 membros do time e da equipe técnica em 1970 Matthew Fox (à esquerda) interpreta um dos técnicos em Somos Marshall, a inspiradora história real sobre a reconstrução de uma equipe de futebol americano universitário depois que um acidente de avião tirou a vida de 75 membros do time e da equipe técnica em 1970 (Ric Feld/© AP Images)

Refletindo a paixão americana por todos os tipos de esporte, os cineastas dos EUA buscam repetidamente transmitir mensagens com um sentido muito mais amplo do que o das próprias histórias. David J. Firestein é funcionário americano do Serviço de Relações Exteriores atualmente encarregado do Bureau de Assuntos do Leste Asiático e do Pacífico do Departamento de Estado dos EUA. Autor de três livros e de cerca de 130 artigos publicados, Firestein lecionou na Universidade Estadual de Relações Internacionais de Moscou (Mgimo), na Universidade do Texas (Austin) e na Universidade George Mason em Fairfax (Virgínia).

Há poucos países no mundo, se é que há algum, no qual os esportes — não só um esporte, mas todos os esportes em geral — permeiam a vida nacional com a intensidade com que isso ocorre nos Estados Unidos. Os esportes são de tal forma parte do próprio tecido da vida, do discurso e do repertório americano que é comum ouvir destacados líderes nacionais usarem metáforas referentes a determinados esportes para falarem sobre assuntos de Estado tais como “tentando decidir no desespero”, “ganhando na moleza”, “jogando duro” e “aplicando golpes baixos”. Até a maleta preta do presidente na qual ele carrega os códigos necessários para lançar um ataque nuclear dos EUA é conhecida como “o futebol americano”.

O papel central do esporte na vida americana reflete-se amplamente no cinema contemporâneo dos EUA. Por décadas a fio, os cineastas do país exploraram com sucesso o tema do esporte, o que resultou na produção de alguns dos filmes americanos mais inspiradores, comoventes, empolgantes e memoráveis já feitos. Essa tradição começou na primeira metade do século 20, mas continua viva nos dias de hoje. Tomando os últimos anos como referência, Hollywood produziu filmes populares e aclamados pela crítica enfocando praticamente todos os esportes importantes, desde futebol americano, basquete, beisebol e hóquei a boxe, corridas de cavalo e até mesmo surfe. Desde meados dos anos 1970, quatro filmes americanos de esporte receberam o Oscar da Academia; mais recentemente, Menina de Ouro (2004), obra de Clint Eastwood sobre uma boxeadora, ganhou quatro Oscars, inclusive o de melhor filme (honra que compartilha com apenas duas outras películas dedicadas ao esporte). Embora os filmes de esporte dos EUA utilizem um meio comum para explorar a plenitude da vida americana e as matizes da mente humana, eles acabam revelando muitas outras coisas sobre os valores que realmente importam ao povo americano.

O futebol americano, sempre um importante subgênero do cinema de esporte dos EUA, superou nos últimos anos o beisebol como o esporte mais presente nos filmes do gênero. Os últimos anos assistiram ao lançamento de uma boa quantidade de filmes de futebol americano sérios e de alta qualidade, que exploraram temas tão diversos como a superação da adversidade (Somos Marshall, 2006); o árduo trabalho

Ken Carter, técnico de basquete de uma escola de ensino médio, posa diante do pôster do filme de 2005 que contou a história real do seu trabalho. Samuel L. Jackson protagonizou o técnico Carter no filme Ken Carter, técnico de basquete de uma escola de ensino médio, posa diante do pôster do filme de 2005 que contou a história real do seu trabalho. Samuel L. Jackson protagonizou o técnico Carter no filme (Tony Gutierrez/© AP Images)

exigido na realização dos sonhos (Invencível, 2006); a busca incessante por excelência (Tudo Pela Vitória, 2004); o poder do esporte para reduzir as divisões de raça e de classe e construir comunidades (Duelo de Titãs, 2000); e o triunfo da inocência e do espírito competitivo inatos de um atleta sobre o comercialismo e o cinismo crassos da indústria do esporte profissional dos EUA (Um Domingo Qualquer, 1999). Apesar da diversidade de temas, esses filmes recentes trazem uma mensagem central sobre o futebol americano: esse esporte — em escala épica, pompa excessiva, atitude corajosa e, sim, vigor agressivo — é a mais completa e brilhante metáfora esportiva da própria vida americana.

Tem havido uma relativa escassez de filmes americanos recentes sobre basquete e beisebol, o segundo e o terceiro esportes mais acompanhados e populares nos Estados Unidos. Os dois filmes americanos de basquete mais bem-sucedidos dos últimos anos, ambos baseados em histórias reais inspiradoras, tratam de temas de reconciliação racial (Estrada Para a Glória, 2006) e de trabalho de equipe e amor-próprio (Coach Carter – Treino para a Vida, 2005). Outro clássico do basquete americano (Basquete Blues, 1994), um dos relativamente poucos documentários no gênero de esporte, apresentou um retrato

O jóquei da vida real Gary Stevens, visto aqui quando se preparava para a Kentucky Derby de 2003, protagonizou um jóquei no filme Seabiscuit – Alma de Herói, ambientado na década de 1930 O jóquei da vida real Gary Stevens, visto aqui quando se preparava para a Kentucky Derby de 2003, protagonizou um jóquei no filme SeabiscuitAlma de Herói, ambientado na década de 1930 (Ed Reinke/© AP Images)

 

fascinante da vida urbana americana e do poder — e das limitações do mundo real — dos sonhos. De maneiras diferentes, os dois mais recentes filmes de basquete expressam o mesmo ponto de vista: qualquer que seja a cor da pele, qualquer que seja o degrau de ascensão na escada socioeconômica, grandes coisas podem ser realizadas quando nos comprometemos com um time maior e objetivos mais nobres. A mensagem de Basquete Blues é que, mesmo assim, provavelmente isso não será fácil. Enquanto isso, o único filme importante de beisebol nos últimos anos (Desafio do Destino, 2002), também baseado em uma história real, lembra-nos, de forma bem americana, que sempre é tempo de realizar os sonhos, mesmo contra todas as expectativas.

Hollywood sempre foi fascinada pelo mundo do boxe. Os três principais filmes de boxe produzidos em anos recentes (Rocky Balboa, 2006; A Luta pela Esperança, 2005; e Menina de Ouro, 2004) são todos histórias clássicas de “oprimidos” (enquanto Menina de Ouro explora também outros temas mais complexos). A temática do “oprimido” — eterno favorito dos produtores americanos de filmes de esporte — também vai à pista olímpica de hóquei (Desafio no Gelo, 2004) e às pistas das corridas de cavalo (Seabiscuit – Alma de Herói, 2003), nas quais atletas (e, em Seabiscuit, um cavalo de corrida) conseguem vitórias extraordinárias mesmo diante de grandes obstáculos.

De modo geral, esses filmes são muito reveladores dos valores americanos, mas encontram também ressonância entre as platéias estrangeiras. Isso ocorre porque, em sua essência, eles são menos sobre esporte e mais sobre aquela parte de nós que anseia tomar a dianteira, dar tudo de si e viver a plenitude dos sonhos.

Para mais informações sobre a relação entre o esporte e a sociedade americana, veja o eJournalUSA “Esportes nos EUA”, de 2003, em http://usinfo.state.gov/journals/itsv/1203/ijsp/ijsp1203.htm.

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