A Ascensão dos Independentes Kenneth Turan
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A maioria dos países considera-se afortunada se tiver uma indústria cinematográfica própria. Enquanto alguns lugares do mundo — Índia e Hong Kong nos vêm imediatamente à memória — têm indústrias em ascensão, os Estados Unidos têm o privilégio de possuir não apenas uma, porém duas indústrias de filmes viáveis. A primeira, conhecida em todos os lugares em que se exibem filmes, é a tradicional indústria cinematográfica de Hollywood. É daí que vêm os campeões de bilheteria, filmes como Homem-Aranha e Piratas do Caribe, que custam centenas de milhões de dólares para serem realizados, rendem literalmente bilhões de dólares em todo o mundo e geram continuações sem fim. Mas, no decorrer dos últimos 20 anos, uma indústria cinematográfica americana paralela, o mundo dos filmes independentes, cresceu e prosperou. Ela tem seu próprio festival anual (Festival de Cinema de Sundance em Park City, Utah) e sua própria versão do Oscar (o Independent Spirit Awards, realizado alguns dias antes do Oscar). Há até mesmo cinemas especializados em exibir filmes independentes e atores e diretores que se dedicam mais a trabalhos independentes. Isso não significa que não haja uma certa relação simbiótica entre essas partes do conjunto cinematográfico americano: há, e muito. Grandes estrelas do universo de Hollywood às vezes são elogiadas por aparecer em filmes independentes, como fez Tom Cruise ao participar de Magnólia, de Paul Thomas Anderson. E astros independentes às vezes encontram espaço em grandes películas de Hollywood, como fez o ousado ator independente Steve Buscemi quando apareceu em campeões de bilheteria tradicionais como Armageddon e A Ilha. E os independentes também acabaram sendo fator importante na instituição mais típica de Hollywood, o Oscar. Finalmente, no entanto, dois elementos principais separam os filmes hollywoodianos dos independentes. Um é o orçamento — quanto custa um filme para ser realizado — e o outro é a sensibilidade e o assunto — do que trata o filme. Como sempre no setor cinematográfico americano, os dois estão ligados. Ênfase na arte Quando um filme custa mais de US$ 100 milhões, como é a média para um filme de estúdio, ele deve conquistar a maior audiência possível, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, para garantir o retorno
Os filmes independentes, pelo contrário, custam menos: podem ser feitos com importâncias que vão desde alguns milhares de dólares até US$ 15 milhões a US$ 20 milhões. Embora isso possa parecer muito dinheiro, para os padrões hollywoodianos não é. E esses custos mais baixos permitem a esses filmes serem mais pessoais, mais peculiares e mais centrados nos personagens e na história do que em explosões. Esses filmes podem cuidar mais dos aspectos artísticos e da auto-expressão e menos do que funciona em termos de bilheteria, uma das razões pelas quais costumam ter maior sucesso na premiação do Oscar do que filmes de grande faturamento. Se qualquer cinéfilo americano quisesse ter esse tipo de experiência com filmes de 40 ou 50 anos atrás, a única fonte deles seria filmes em língua estrangeira, o que explica em parte
A alternativa independente, que permitiu às platéias americanas travar contato com esse tipo de filme em sua própria língua, não surgiu do nada. O ator e diretor John Cassavetes (único cineasta a ter um prêmio batizado com seu nome no Independent Spirit Awards), já falecido, produzia filmes independentes desde 1957, quando seu lendário Sombras foi filmado. Muitas pessoas também atribuem ao filme de John Sayles O Retorno dos Sete Rebeldes, de 1980, o marco inicial do movimento independente moderno. Sua produção custou US$ 60 mil, financiados pelo próprio Sayles, em parte com dinheiro ganho reescrevendo filmes para estúdios, e acabou rendendo US$ 2 milhões. Pela primeira vez, ficou claro que se poderia obter dinheiro, assim como satisfação em criar, fora do sistema dos estúdios. A indústria independente Dois outros filmes, ambos distribuídos pela gigante independente mundial, a Miramax, empresa criada por Harvey Weinstein e seu irmão Bob e batizada com o nome de seus pais, deixaram claro que os filmes independentes tinham vindo para ficar. Em 1989, o filme sexo, mentiras e videotape, de Steven Soderbergh, ganhou o Prêmio do Grande Júri em Sundance e, em seguida, a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes, dando início ao reconhecimento internacional dos filmes independentes americanos. Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino, saiu-se melhor ainda, não somente conquistando a Palma de Ouro em 1994, mas tornando-se o primeiro filme independente a render mais de US$ 100 milhões nas bilheterias. Esse fato destacou a sabedoria da organização Disney quando adquiriu a Miramax no ano anterior. Logo, todos os estúdios, compreendendo que os filmes independentes eram diferentes demais para serem feitos pelo pessoal normal, quiseram ter seu próprio braço independente. Atualmente, essas divisões especiais (como são conhecidas no setor) incluem Fox Searchlight, Warner Independent Pictures, Universal Focus e a venerável Sony Pictures Classics. Os filmes feitos por essas divisões especiais são os melhores filmes independentes, aqueles com os maiores orçamentos e os astros mais importantes. Eles podem se parecer com os filmes de Hollywood, mas a realidade é que Hollywood não está mais fazendo essa espécie de filme. Um exemplo disso é Pequena Miss Sunshine. Embora o filme tenha sido indicado para melhor filme e seu roteiro tenha ganho um Oscar em fevereiro de 2007, havia sido recusado várias vezes pelos grandes estúdios. Além de serem dotados de sensibilidade diferente, os filmes independentes podem refletir diferentes realidades e contar tipos diferentes de histórias. Como os filmes independentes não precisam custar uma fortuna, o seu mundo é um espaço onde diretores afro-americanos como Spike Lee e gays como Gregg Araki podem fazer filmes que lidam com personagens marginalizadas mas que podem atingir o grande público. O efeito digital A questão do custo também vem sendo um fator na ascensão dos documentários no mundo independente. Vivemos em uma época em que estão sendo feitos mais documentários independentes com a possibilidade de atingir mais expectadores do que jamais antes. Há várias razões, mas a principal é que o custo barato de filmar com equipamento digital colocou os meios de produção nas mãos dos cineastas.
Scott Hamilton Kennedy, diretor de vídeos musicais e de comerciais, é um exemplo disso. Ele jamais teria feito o bem-cotado OT: Our Town, se não tivesse conhecido a professora que estava montando a peça de Thornton Wilder em uma escola de ensino médio da Califórnia. Quando ela lhe contou sobre seu projeto, ele decidiu que devia registrar a experiência, de qualquer jeito. “Nunca tentei levantar recursos ou montar uma equipe”, disse. “Eu sabia que se desperdiçasse tempo tentando fazer tudo isso, esse momento não seria documentado.” Então Kennedy foi para a escola com uma câmera muito simples, a ponto de parecer, segundo ele, um modelo comprado na Circuit City, loja de rede de produtos eletrônicos. Mas a característica não intimidadora do equipamento permitiu que os estudantes ficassem relaxados, ajudando a criar a intimidade e a confiança que são a maior qualidade do filme. A independência no financiamento leva ao pensamento independente, resultando em algumas das melhores produções cinematográficas vistas nos Estados Unidos em muitos anos.
As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA. |
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