Ele poderia ter se formado em zoologia. Isso atraiu sua curiosidade na sétima série. Poderia ter sido um homem de negócios, advogado ou especialista em assuntos internacionais — outras profissões que chegou a considerar em alguns momentos. Mas Jason Kamras escolheu o magistério como profissão e voltou sua atenção, ainda à época da faculdade, para as áreas mais pobres da cidade. “Desde muito cedo decidi”, explica, “que queria fazer do processo de estender as oportunidades educacionais a todas as crianças, o que acredito ser um direito inato”. E assim juntou-se ao corpo docente de uma escola de uma área carente da cidade — um dos desafios mais difíceis no cenário educacional americano — na capital do país, Washington, D.C. Em abril de 2005, Kamras conquistou um marco invejável quando o presidente Bush o nomeou Professor do Ano de 2005, o prêmio mais antigo e prestigiado para os educadores do ensino fundamental e médio dos Estados Unidos. Ele é o 55o ganhador e o primeiro de uma escola do Distrito de Colúmbia. Kamras, professor de matemática e especialista em educação (mentor para professores com menos experiência) na Escola de Ensino Fundamental John Philip Sousa em Washington, D.C., já lecionou para alunos das sexta, sétima e oitava séries durante os nove anos em que está na escola. Entre suas inovações está o Expose, programa no qual os alunos aprendem a usar câmeras digitais, editar imagens e trabalhar com softwares de vídeo digital para criar ensaios fotográficos autobiográficos sobre suas vidas e comunidades. Kamras nasceu na cidade de Nova York, mas a partir dos três anos foi criado em Sacramento, na Califórnia. Estudou na Escola de Ensino Médio Rio Americano e depois se formou na Universidade de Princeton, em Princeton, Nova Jersey. Começou a lecionar na Sousa sob os auspícios da organização americana sem fins lucrativos “Ensinar pelos EUA". Essa organização seleciona os melhores alunos recém-formados das universidades e os convida a assumir o compromisso de lecionar durante dois anos em escolas de áreas carentes ou rurais − no geral em comunidades pobres − onde normalmente é difícil preencher as vagas de professor. Ao final dos dois anos, Kamras continuou na Sousa, de onde ficou ausente apenas durante o ano letivo de 1999-2000 para obter o mestrado em Educação pela Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts. Recentemente, conversou sobre sua opção de carreira e suas perspectivas sobre a evolução de seus alunos.
P: Quais são as oportunidades disponíveis aos adolescentes — crianças que estão entrando na adolescência — hoje nos Estados Unidos? R: Eles têm muitas oportunidades extraordinárias. O que é surpreendente sobre esse país é que, quando têm a oportunidade de ter uma excelente educação, as crianças conseguem fazer praticamente tudo o que gostariam de fazer. Portanto, a meu ver, essa idade é um momento muito estimulante, saber que se tem o futuro à sua espera. P: Você começou a lecionar, na verdade, quando estava em Princeton. R: Sim, supervisionei alunos do ensino fundamental em Trenton, Nova Jersey, e também pessoas que estavam em uma unidade correcional de Nova Jersey. Também passei um verão como voluntário Vista (Voluntários a Serviço dos EUA) em Sacramento, Califórnia, onde fui criado.
R: Sim. Ela deu aulas na cidade de Nova York. P: E ela serviu de inspiração para escolher sua carreira? R: Ela foi uma das minhas inspirações. Lembro-me dela falando com muito carinho de suas aulas e seus alunos. Mas minhas próprias experiências de ensino à época da faculdade e no verão, como voluntário Vista, foram bastante decisivas, em particular porque estava trabalhando em áreas carentes. As desigualdades do nosso sistema de educação pública tornaram-se bastante claras para mim. Realmente acredito que essas desigualdades são o maior desafio social enfrentado por nosso país nos dias de hoje. P: O que o atraiu nessa faixa etária com a qual tem trabalhado durante a maior parte de sua carreira? Você trabalhou primeiro com a Ensinar pelos EUA, e eles normalmente colocam os professores em uma escola carente. Você pôde escolher a faixa etária? R: Sempre me senti atraído pelo ensino médio — 7a a 12a séries. Mas surgiu essa oportunidade nessa escola voltada para os três últimos anos do ensino fundamental. Pensei sobre isso durante um tempo, se queria ou não isso, em vez de lecionar no ensino médio. E decidi que na verdade é uma idade bastante interessante. Meus alunos em grande parte ainda são crianças, mas estão começando a desenvolver sua verdadeira auto-identidade para entrar na vida adulta. Portanto, é uma época da vida das crianças bastante interessante, e eu realmente gosto de trabalhar com elas nesse momento de transição. P: A chave é crescer. R: Com certeza. P: Não faz muito tempo que você estava crescendo — 18 anos mais ou menos. O que é diferente hoje da sua época de desenvolvimento? R: É uma pergunta difícil. Quando relembramos nossa própria adolescência, nem sempre temos um quadro preciso de como as coisas realmente eram. P: Bem, vamos colocar da seguinte maneira: este é um bom momento para as crianças crescerem nos Estados Unidos? R: Penso que é um momento de desafios. Mas não há adolescência sem desafios e, portanto, acho que meus alunos em particular enfrentam de fato muitas dificuldades. Mas eles têm uma perspectiva incrivelmente positiva das coisas e são incrivelmente flexíveis. Uma das coisas mais estimulantes sobre eles é sua opinião positiva do futuro. P: Quando você entrou pela primeira vez em uma sala de aula anos atrás — as crianças, sendo crianças, devem ter olhado o novo professor de cima a baixo. Como conquistou a confiança delas, como as trouxe para o seu lado? R: Uma das coisas que sugiro aos novos professores ao entrarem na sala de aula é demonstrar que realmente levam a sério o ensino e a definição de um alto padrão para os alunos e a classe. Isso estabelece de cara um tom de “este ano realmente vamos conseguir”. As crianças de fato querem isso. Elas estão ávidas por esse empurrão, por essa ordem, por essa noção de que alguém vai liderá-las de um modo bastante sistemático. Mas depois há também várias outras coisas que você pode fazer. Por exemplo: passar um tempo com as crianças fora da sala de aula, ir a torneios de xadrez e jogos de basquete, fazer visitas às suas casas e conhecer suas famílias, de modo que você de fato desenvolve uma relação próxima e de confiança à qual pode recorrer depois na sala de aula. P: Quais são os desafios enfrentados pelas crianças hoje em sua vida e rotinas diárias que são importantes para você, como professor, ter em mente? R: Como toda criança, elas enfrentam os desafios de descobrir quem são. Essa é a idade em que começam a desenvolver um sentido de sua própria identidade. É uma época extremamente turbulenta. É o primeiro desafio para qualquer adolescente deste país. Se você pedir para qualquer adulto relembrar o passado, ele poderá lembrar de experiências bastante difíceis de quando negociava mudanças sociais e mudanças físicas e decidia de qual tribo queria fazer parte. Você mencionou a era digital. Ela tem vantagens e desvantagens. Ainda sou muito jovem, mas realmente parece que o ritmo da nossa cultura acelerou muito — tudo, das notícias aos videogames, tudo que faz parte desse leque. Trata-se de uma cultura menos reflexiva, e isso pode ser algo que está faltando às nossas crianças enquanto crescem. P: Como você tenta fazer com que elas sejam mais reflexivas? R: Você pode contextualizar a matemática e a tornar importante na vida delas. Isso força a reflexão sobre sua aplicação. Isso acontece também em áreas não acadêmicas — apenas conversando com elas, ouvindo-as, diminuindo o ritmo e conversando. P: Fale um pouco sobre o papel dos pais, em termos de escola e estudos. Como você os envolve na vida dos filhos? R: Começa com ligações telefônicas e cartas, visitas às suas casas, encontros com membros da família, sentando e passando um tempo com eles, fazendo com que os pais venham às aulas e participem. Além disso, ficando disponível antes e depois das aulas para discutir qualquer coisa que esteja se passando com seus filhos, realmente fazendo todo o esforço possível para estabelecer esses canais de comunicação. É crucial que os pais ou responsáveis pelas crianças se envolvam. De fato, precisamos fazer mais para que as escolas os recebam bem. P: Fale sobre o programa que você iniciou, o Expose. Sei que durante o ano que passou em Harvard você idealizou idéias educacionais como essa. R: O Expose é um programa de fotografia digital para os alunos das sétima e oitava séries da minha escola. Nasceu, primeiro, porque sempre adorei fotografia e queria dividir isso com meus alunos. Ao mesmo tempo, quando cheguei à escola, fui surpreendido por dois fenômenos: um, que a maioria das pessoas quem mora na região de Washington não sabe muito sobre os meus alunos, a não ser o que lêem no jornal; e dois, meus alunos, por várias razões, não tiveram de fato a chance de aproveitar todas as oportunidades da cidade. Queria criar um jeito de unir esses dois mundos. Então pensei que a fotografia seria uma boa maneira de fazer isso. Levamos os alunos em viagens de campo, para que pudessem ver mais da cidade, e também fizemos com que os alunos — usando a fotografia digital — criassem ensaios fotográficos autobiográficos que então compartilharam com o grande público. Assim, por meio desses dois mecanismos, houve um intercâmbio em toda a cidade. Também foi uma maneira incrível de ensinar matemática. Quando se fala sobre ângulo de visão, isso é geometria. Velocidades do obturador são comparações de frações. Pixels por polegada são razões. Começamos com filmes preto-e-branco e agora é tudo digital. Também houve uma dupla iniciativa em matemática. Cheguei à conclusão de que, para realmente impulsionar as realizações, precisávamos dobrar a quantidade de tempo de instrução de matemática. Portanto, propus isso à direção da escola, e elaboramos um sistema no qual todo aluno tem duas aulas de matemática por dia. Há dois cursos sendo dados, mas todos os alunos freqüentam os dois cursos — a idéia é que cada professor possa diminuir o ritmo e se concentrar em um número menor de objetivos e, assim, de fato ir muito mais a fundo. E a retenção dos alunos aumenta. P: Fale um pouco sobre algumas das coisas que aprendeu em Harvard ao fazer seu mestrado. R: O programa de matemática surgiu dessa experiência. Também fiz alguns trabalhos de criação de softwares educacionais e consegui integrar isso em alguns de meus programas de fotografia, o que contribuiu para enriquecê-los. Também fiz alguns trabalhos sobre diferenciação de instrução e consegui utilizar isso na sala de aula. P: Vamos voltar, por um instante, ao que influenciou sua escolha pela escola carente. R: Ainda estou na escola na qual lecionei durante o Ensinar pelos EUA. Acredito que a educação é a pedra angular das oportunidades neste país, e existem muitas crianças, em particular de comunidades de baixa renda, que não têm acesso a uma educação excelente e, portanto, essa oportunidade lhes é negada. Então, decidi desde muito cedo que queria fazer parte desse processo de estender essa oportunidade a todas as crianças, o que acredito ser um direito inato. P: Como você reconhece uma criança em crise quando isso não é imediata ou claramente perceptível? R: Quando passamos tempo suficiente com as crianças, desenvolvemos um sentido de como é seu equilíbrio operacional normal. E então é possível começar a dizer quando estão se desviando disso — seja para cima ou para baixo. Isso difere de criança para criança; o que pode ser um sinal para uma é completamente benigno para outra. Portanto, depois de passar esse tempo e desenvolver essa relação de confiança, você começa a desenvolver uma percepção aguçada de quando alguma coisa não vai bem. P: Você pode dar um exemplo? R: Tenho um aluno do qual sou muito próximo que estava na minha primeira turma de sexta série, em 1996. Como professor iniciante naquele ano, ele era realmente um desafio para mim. Ele era quase sempre, como se diz em educação, uma criança “problemática”. E tive muita dificuldade para lidar com isso. Mas percebi, depois de conversar com ele, que eu não estava o desafiando o suficiente. Assim, comecei a trabalhar com ele depois das aulas, para desenvolver uma relação mais próxima. Jogávamos xadrez, e ele na verdade com freqüência me vencia. De modo algum sou um grande jogador de xadrez — mas ele tinha 11 anos! Continuamos a trabalhar juntos durante toda a sexta série. Não dei aula para ele durante a sétima e a oitava séries, mas continuamos a trabalhar depois das aulas, e também desenvolvi um bom relacionamento com sua mãe. Ele acabou sendo o orador da turma, e continuei trabalhando com ele até o ensino médio. Ele acabou de terminar o segundo ano da Faculdade Morehouse em Atlanta [Geórgia]. Ele é engenheiro elétrico e está pensando em fazer um programa conjunto de mestrado com a Escola de Engenharia da Universidade de Colúmbia [em Nova York]. P: Para concluir, depois de trabalhar por quase uma década em educação, as crianças americanas ainda o surpreendem no que se refere às possibilidades? R: Sem dúvida! Sem dúvida! Inequivocamente. Ensinar é um trabalho que exige muito, é muito difícil, mas valorizo todos os dias a oportunidade de trabalhar com crianças. Elas são incrivelmente brilhantes, incrivelmente dinâmicas, criativas e flexíveis. Honestamente não há nenhum outro grupo de pessoas que eu preferiria ver todas as manhãs após me levantar.
As opiniões expressas nesta entrevista não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.
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