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Jovens do Mundo Constroem o Futuro

ÍNDICE
Sobre Esta Edição
"Eles São Meus Filhos"
Os Jovens com a Palavra
Hospitalidade Romana
Uma Experiência que Mudou Minha Vida
Fazendo a Diferença
Batendo Bola
Vivendo e Aprendendo na Diversidade
Rumo a 2020 em Meio aos Ecos do Passado
Almoço em Ruanda
Sobre a marcha em memória dos mortos
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Jovens do Mundo Constroem o Futuro
Inspirar, Informar, Envolver
Conhecendo Pessoas e Trocando Idéias On-line
Uma Experiência Pessoal em Relações Internacionais
O que Devo Fazer?
Onde Obter Informações?
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Rumo a 2020 em Meio aos Ecos do Passado

Jovens americanos com grandes habilidades em informática são selecionados para participar de um programa de intercâmbio que os envia a Ruanda para ajudar outros jovens a aprender mais sobre computadores. Jovens dos EUA e de Ruanda estão sincronizados quando se trata de ensino e aprendizado, mas juntá-los demanda o apoio de universidades e organizações não-governamentais que querem ajudar os governos africanos a construir um futuro melhor.

É um mundo digital, exceto em nações subdesenvolvidas que não foram capazes de acompanhar os programas de tecnologias da informação (TI). O Centro de Combate à Exclusão Digital (CBDD), no campus da Universidade Estadual de Washington, trabalha para ajudar os países a apanhar o expresso da TI e pegar carona para o futuro. O centro está em atividade para ajudar as pessoas comuns em todo o mundo a melhorar o acesso às modernas tecnologias da informação e ao seu uso. Quem melhor para participar desse esforço do que os jovens que cresceram na era da TI?

Desde 2005, o CBDD envia grupos de jovens para Ruanda para ajudar outros jovens como eles a obterem mais rápido o know-how da tecnologia da informação. Com esse programa, o centro está ajudando Ruanda a alcançar a Visão 2020, política nacional que procura criar uma força de trabalho capacitada em TI e transformar Ruanda em um centro de informações da África.

A Iniciativa Juventude 4 BIT (Tecnologia da Informação Empresarial) do CBDD ajuda alunos do ensino médio na África e nos Estados Unidos a desenvolver habilidades para o mundo real. Os cursos oferecidos vão muito além de jogos de computador. Incluem montagem e atualização de computadores, manutenção do disco rígido e resolução de problemas. Os alunos de Ruanda que participam do programa também estão aprendendo sobre software de diagnóstico e sistemas operacionais. Os alunos se formam nesse programa com grandes habilidades para o mercado de trabalho, capacitados a entrar na força de trabalho de TI em um momento em que ela está começando a se expandir na África.

Os formados também passam adiante seu conhecimento, trabalhando com outras escolas e instituições para jovens de Ruanda para atualizar as qualificações de TI de outros jovens.

Essas aspirações e investimentos no futuro são feitos em um país que ainda está cicatrizando as feridas do genocídio tribal de 1994 entre tútsis e hutus. Essa luta sangrenta pelo poder resultou em 800 mil mortos e fez com que 2 milhões fugissem pelas fronteiras do país. A nação se esforça pela reconciliação e busca uma das agendas mais ambiciosas do continente para melhorar suas capacidades em tecnologia da informação.

Mas os jovens americanos que foram a Ruanda como instrutores de TI na Iniciativa Juventude 4 BIT ouviram o tempo todo os ecos do passado trágico, como ilustram as histórias abaixo. Primeiro, Brian Newman, 22 anos, de Renton, Washington, que está se formando em sistemas de informação na Universidade Estadual de Washington, diz como a conversa casual na hora do almoço resultou em uma melhor compreensão dos outros colegas. Depois, Leah Rommereim, 21 anos, de Pasco, Washington, que recentemente se formou na Universidade de Puget Sound, reconta como uma marcha em memória dos mortos a ensinou sobre coragem.

Leah Rommereim e Brian Newman (de pé, segunda e primeiro da direita para a esquerda) com alguns de seus alunos ruandeses
Leah Rommereim e Brian Newman (de pé, segunda e primeiro da direita para a esquerda) com alguns de seus alunos ruandeses (Cortesia: Brian Newman)

Brian: Almoço em Ruanda

Quando penso em minha viagem a Ruanda, quase sempre me lembro dos almoços com os alunos a quem ensinava sobre computadores. A hora do almoço era a hora que realmente tínhamos para conversar e compartilhar histórias sobre nossas famílias, nossos países e nossas culturas.

Lembrar daquelas conversas na hora do almoço me emociona pela alegria e amizade das pessoas de um país que viu tanta dor.

Fiquei surpreso com o fato de que apesar de muitos desses alunos quererem fazer faculdade nos Estados Unidos ou na Europa, a maioria deles quer voltar a Ruanda depois de se formar para ajudar a reconstruir o país. Muitos dos alunos com quem trabalhei em Ruanda se perguntavam se estavam escolhendo as matérias certas para estudar na faculdade. Eram os mesmos pensamentos que eu havia tido antes de ir para a faculdade. Ouvir sobre suas famílias era como conversar sobre minha própria família.

Às vezes, no entanto, uma conversa podia tomar um rumo inesperado.

Um dia, ao conversar sobre diferentes idiomas com uma aluna do FAWE* (Fórum de Educadoras Africanas), perguntei que língua seus pais falavam. Ela então me contou que seus pais haviam sido mortos durante o genocídio. À medida que ela me contava sobre seus pais, parecia que para ela não era nada incomum seus pais terem sido mortos e ela agora estar morando com outros familares. Achei terrível não apenas seus pais terem sido mortos, mas isso ser tratado como uma coisa tão comum em Ruanda.

Sempre que ouvia essas histórias de genocídio ficava desconcertado. Visitei o país, conversei e ri com jovens que não parecem tão diferentes de mim. Mas até hoje, não consigo compreender as coisas por que passaram.

Antes de ir para Ruanda, achava que seria difícil me ligar aos alunos, uma vez que sua cultura era tão diferente da minha. Eles haviam passado por coisas que eu não conseguia nem imaginar.

No fim, aprendi que no fundo eles não são tão diferentes de mim. Ao fim da viagem, percebi que tinha novos amigos do outro lado do mundo que eram bem parecidos comigo.

*FAWE é uma das quatro escolas de Ruanda que participam da Iniciativa Juventude 4 BIT. As outras são Apred Ndera, Kagarama e Lycée du Kigali.

Durante evento de recordação em 2006, manifestantes dirigem-se ao Memorial e Museu do Genocídio em Kigali, Ruanda
Durante evento de recordação em 2006, manifestantes dirigem-se ao Memorial e Museu do Genocídio em Kigali, Ruanda (Cortesia: Brian Newman)

Leah: sobre a marcha em memória dos mortos

A temporada de chuvas alaga muitas estradas de Ruanda. Elas ficam enlameadas, depois a lama seca e deixa as estradas esburacadas e cheias de sulcos. Sacolejamos em uma dessas estradas em uma manhã de sábado em direção a uma pequena igreja para participar de uma Marcha de Conscientização sobre o Genocídio com alunos de Kigali.

Essa igreja, contaram-me meus amigos ruandeses, era um dos lugares em que os refugiados encontravam abrigo seguro, mas acabaram sendo mortos.

A memória da morte impregnava o local, mas a vida ainda florescia. Depois que todos os alunos chegaram, a vista impressionava. Alguns estavam com os uniformes da escola, outros usavam camiseta com os nomes de seus heróis: Mahatma Ghandi, Nelson Mandela e Martin Luther King. Alguns usavam roupas normais do dia-a-dia e pareciam estudantes que encontramos em qualquer lugar.

Minha brancura era uma fonte constante de interesse para os outros alunos na multidão. Eu realmente destoava. Isso me fez sentir como uma alienígena, mas à medida que meus amigos ruandeses começaram a me puxar para a multidão e me apresentar a outras pessoas, essa sensação desapareceu. Eu não era mais alguém que estava lá apenas para observar, estava lá para participar. Isso mudou a maneira como eu era tratada: não alguém para ser olhada, mas alguém com quem interagir.

A manifestação começou com a fanfarra de uma banda nacional e nós percorremos as ruas de Kigali formando um espetáculo e tanto em uma manhã de sábado. Marchamos em direção ao Memorial e Museu do Genocídio. No caminho, encontrei muitos estudantes com histórias, rostos e sorrisos diferentes. Conversamos sobre cinema, música, o sistema educacional em Ruanda e sobre o que queríamos fazer de nossas vidas. Foi muito parecido com várias conversas que tive com meus amigos em Washington, nos Estados Unidos.

Quando chegamos no memorial, o clima ficou sombrio. Nos reunimos ao redor dos túmulos dos mortos recém-encontrados. A reconstrução da cidade está trazendo à tona corpos de mais vítimas do genocídio, e dar a eles um sepultamento digno tornou-se parte do processo de reconstrução. Ao olhar para meus novos amigos em meio às sepulturas, tentei imaginar o que deveria ter sido crescer em uma sociedade em que praticamente metade das pessoas havia sido assassinada. Muitos dos estudantes mudaram-se para outros países com seus pais durante o genocídio. Outros ficaram e perderam um, às vezes os dois pais, junto com vários outros familiares e amigos.

Essas pessoas inteligentes, talentosas e surpreendentes haviam passado por tanta coisa e ainda assim, naquela manhã de sábado, estavam lá firmes. Foi uma honra ser aceita na comunidade deles e ser considerada uma amiga.

Jovens do Mundo Constroem o Futuro

As opiniões expressas por Brian Newman e Leah Rommereim não refletem necessariamente a posição nem as políticas do governo dos EUA.

Nota dos editores: o Centro de Combate à Exclusão Digital hospeda um blogue da viagem de Brian e Leah a Ruanda em 2006. Está disponível em http://cbdd.typepad.com/bit/. Brian colocou no ar um foto-blogue da viagem no endereço http://picasaweb.google.com/achievingslacker/Rwanda.

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